Crimes of the Future foi anunciado já com uma premissa muito específica: o retorno de David Cronenberg à sua marca registrada, o “body horror”, a partir de uma noção futurista bem excêntrica em que personagens desenvolvem novos órgãos. Parece, no entanto, que este foi um filme-manifesto das concepções estéticas do cineasta.

O Corpo é realidade”. O futuro representado em Crimes of the Future se confunde em muitos momentos com um retorno nostálgico a espaços que se assemelham a qualquer cidade antiga, muito disso por conta do cenário decadente e taciturno que comprime os corpos dos personagens que vagam por um espaço que carrega muitos mistérios. É uma estratégia do filme não procurar solução para estes mistérios ou mesmo entregar qualquer guia deste futuro que se desenrola com naturalidade na tela, mérito grande da montagem. Tudo remete ao corpo, às performances, às possibilidades criativas e limitações humanas. Cenas grotescas e explícitas de desenvolvimento e remoção de novos órgãos contrastam com uma verborragia filosófica que funciona muito bem por nunca apontar um caminho único para as respostas; nem sequer é sobre essas respostas. Há um interesse na política nessas dinâmicas excêntricas e nos gestos e detalhes dos personagens, especialmente quando observamos a personagem de Kristen Stewart, sempre agindo teatralmente, na contramão do que esperamos de um corpo “normal” como o dela. Daí, nosso interesse sempre é guiado para micro espaços que os personagens ocupam, e penso que é um significado de estranheza oposto àquele de filmes que tratam da questão numa ótica fetichista superficial, que se utilizam de artifícios estéticos pouco inventivos para evitar desenvolvimentos dramáticos, apostando no choque. Crimes of the Future é o oposto disso.

A concepção do universo Cronenbergiano se destaca por essa veia autoral. Há uma cena, em particular, que um personagem com diversos adereços cirúrgicos implantados (orelhas por todo o corpo) se apresenta para uma plateia. Perante a surpresa de alguns presentes, o protagonista, vivido por Viggo Mortensen, em diálogo com uma personagem transitória, questiona a qualidade da interpretação, afinal são só apetrechos cirúrgicos e a presença grotesca que ali ensaia ter ouvidos espalhados pelo corpo nem sequer tem uma capacidade maior de ouvir. É uma farsa. Penso que não é atoa que o filme se preocupa com essa autenticidade perante àquilo que tem aparência radical, mas pouca substância; creio que reside aí parte do manifesto de Cronenberg. Jamais contra a performance, mas contra a falta de autenticidade, em um momento que até o cinema de gênero parece pouco inventivo e a fórmula de “filmes de herói” e grandes blockbusters (não por serem blockbusters, é verdade, mas pelas fórmulas comuns) criam uma hegemonia de artificialidade e cemitério criativo. Mesmo os personagens que digerem plástico, um grupo revoltoso, entram em um antagonismo com o protagonista numa colisão política, pautada pela artificialidade dos órgãos que estes constroem sinteticamente; o autêntico, portanto, me parece ser uma preocupação muito central na verdade interna que o filme veicula.

Em alguns momentos, sugere-se no discurso dos personagens que o corpo carrega tudo aquilo que há, toda a verdade, mas quanto mais as contradições se aprofundam, mais parece que há uma possibilidade outra de compreensão: que o corpo não é toda a realidade. A verdade nunca está contida só nos corpos, mesmo que o filme seja sobre eles e o letreiro que afirma que “O Corpo é Realidade” mais parece veicular um discurso dominante que vai sendo desconstruído ao longo do desenvolvimento dos personagens e das tramas (que pouco se conectam, é verdade). A verdade não está na evolução do corpo para digerir plástico, mas na realidade de que isto é uma invenção humana, política. A verdade não está na beleza daqueles órgãos que o protagonista sintetiza naturalmente, mas no universo de consequências sociopolíticas e artísticas que isto causa. Até o forte erotismo do filme, sobre o corpo, transcende a noção sobre o corpo e sobre o sexo. Badiou, certa feita, formulou em seu livro Lógica dos Mundos que “Em um mundo só existem corpos e linguagens, exceto que existem verdades”. Se a negação total do corpo e suas possibilidades seria uma descida reacionária (como filmes de herói e outros com fórmulas prontas massificadas), reduzir a realidade ao corpo e aos discursos (como alguns filmes arthouse pós-modernos) também parece ser uma resposta superficial. A imaginação de Cronenberg me parece ser um poderoso antídoto, mesmo que tenha como centro o corpo em sua forma mais primitiva. Sua obra o transcende.