Aviso aos leitores adolescentes: o texto a seguir contém linguagem e conteúdos que te colocariam em apuros caso sua mãe te pegasse lendo, recomendamos o bom senso.

Eu sempre quis ter um cachorro. Hoje, quase aos trinta e cinco e “pai” da Mafalda, entendo e dou razão aos meus pais, que nunca me deixaram ter um. O cachorro nunca seria verdadeiramente meu, que, criança, aproveitaria só a parte boa de ter um mascote em casa. Eu não limparia xixis fora do lugar, não recolheria cocôs no meio da sala, não me importaria com quinas e pés de móveis roídos, não pagaria as contas do hospital veterinário e, principalmente, não acordaria meia hora antes que já acordava só para sair com o bichinho e permitir que ele se aliviasse na calçada – sem esquecer, é óbvio, do saquinho plástico para recolher os toletes e poupar eventuais dores de cabeça a inocentes pedestres. 

Seis meses depois da chegada da Mafalda, está muito claro que crianças cujos pais têm um mínimo de juízo não podem ser responsáveis por um cachorro. Devia ser proibido, por lei!, que um ser humano com menos de vinte e cinco anos (espera-se que até aí o ser humano em questão já tenha renda própria) diga: “este cachorro é meu”. Porra! “Meu” é o caralho, parceiro. No máximo o cachorro pode ser seu amigo, seu companheiro, sua babá… Mas, se você não compra ou prepara a comida, não limpa as patas e o cu do cachorro depois do passeio, o cachorro não é seu.

E se eu pudesse enviar um único recado para o Marcelo dos anos 1990, eu diria: segura sua ondinha, molecote! Cachorro não é brincadeira, mas a gente só entende isso depois de grande, porque ter cachorro é gostoso demais, mas dá um trabalho do cão (e sem perdão pelo trocadilho, foda-se). E porque cachorro é mil vezes melhor do que halloween, porque halloween é coisa de idiota e porque cachorro é melhor que quase tudo – e quem não gosta de cachorro é tão idiota quanto quem gosta de halloween.

Assim que a Mafalda chegou em casa, por exemplo, todos achamos uma gracinha aquele filhote de vira-latas com patas curtas e barriguinha bem redonda. O que a gente só descobriria depois, porém, é que aquela barrigucha gostosinha era verme, e dar remédio para filhote, numa porra duma seringa, é uma tarefa mais do que hercúlea, e recolher cocô mole e cheio de parasitas – alguns vivos e outros mortos – é ainda pior. Mas, se você quer saber a verdade, é justamente nisso que está a graça de ter um cachorro, nesse senso de responsabilidade acompanhado de muita sujeira, destruição e carinho. Cuidar, de verdade, de um cachorro, é uma delícia, porque depois de um dia inteiro de correria tudo vale a pena quando o bichinho pula para cima do sofá e resolve tirar um cochilo com a cabeça apoiada na sua perna. 

E antes que o digníssimo leitor e a digníssima leitora me atirem pedras dizendo que eu gosto mais de cachorro do que criança, eu me antecipo: eu gosto mais de cachorro do que de criança, porque independente da criação que você dê a um cachorro, ele não corre o risco de crescer, tirar título de eleitor e votar Bolsonaro 2022, afinal, um cachorro bem cuidado é, por essência, antifascista.

Sabiá

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