O Gosto do Fim do Mundo

A língua é um animal próprio acoplado na boca humana. Quase parasitária, ela se esconde discretamente na cavidade bucal e finge que não existe. Ninguém e nem deus sabe ainda, entretanto, se ela se esconde, como eu, por vergonha de ser ou se ela, de maneira parecida a mim, apenas finge-querer se esconder, esperando o momento próprio  de atacar. Não se sabe também ao certo do que se alimenta a língua, é um fato bem conhecido que ela sente gostos, mas ela não retém nenhum e tampouco se nutre de nada, continua essencialmente original, tal como um escritor medíocre. 

Frente à sua natural reclusão, os estudos linguísticos acabam por serem limitados academicamente, mas, fora das obrigações sórdidas com métodos, cada linguista se apresenta como um maníaco obcecado pela sua própria língua, de maneira  semelhante à qualquer cronista autobiográfico cafona que encontramos nas redações de jornais desse país. 

Ainda assim existe um momento especial neste tópico misterioso que, como demonstrado pela ampla literatura analítica acerca de tal, revela algo de integral na natureza da língua. Quando tal animal vê um ferimento em seu habitat a sua postura muda de maneira abissal, o que antes era um ser querendo-ser órgão, se escondendo nos funcionamentos naturais da boca, mostra sua senciência frente à dor, seu objeto de adoração extática que não o permite ter qualquer conciliação com o seu hospedeiro, a língua simplesmente não consegue se manter longe de onde dói, ela precisa lamber a ferida da boca de maneira áspera e rigorosa, ela precisa nutrir-se do líquen, da insegurança e do desespero de algo estar doendo, a língua vampiriza e sofre junto, mas sofre gozando. 

Este fenômeno fez inclusive  com que fosse proposto, em um diálogo entre linguistas e biólogos, a colocação da língua na mesma categoria da galinha no pódio de animais malditos que não descansam nem depois da morte. O motivo para tal aproximação foi que, tal como a língua, quando a galinha vê uma semelhante ferida no seu galinheiro ela começa a bicar a ferida, carinhosamente, na encruzilhada onde o afeto, o cuidado, a perversão e a submissão se encontram, sem parar, até que a ferida dê espaço para algo maior que o próprio ferido, algo macio como um tecido, maior que a própria galinha, algo de real e táctil para um coração criado para o churrasco, a galinha não para nessa procura mesmo decepada, correndo em saudação ao orifício solar que suga o seu sangue com fome.   

Mesmo sendo muito questionada por seus pares, eu me contento com a aproximação entre estes dois animais maléficos, principalmente, pois estes não são malditos como um golfinho ou um acionista da bolsa de valores que não se colocam à risca, mas sim como eu. Vejo na obsessão e veneração dos dois a minha própria experiência religiosa, o meu próprio encontro com Deus. 

A língua, aqui, continua sendo minha semelhante mais próxima, entretanto, principalmente pela maneira como dialeticamente ela inverte a sua relação com a dor em um momento que recebe bem menos atenção pela comunidade científica. Quando a língua está machucada ela não recorre à hipocrisia, mas sim à dialética, visto que não é possível tocar em você-mesma visto que tal coisa não existe, pelo menos não mais do que eu-mesma, a língua inverte tudo e transforma a cavidade bucal em língua, que sofre com ela na medida em que ela esfrega suas feridas nas paredes até que os gemidos de dor da boca virem relutantes grunhidos de prazer, até que a boca sofra junto, mas sofra gozando.

Isso se dá pela língua não entende o luto, não importa o quanto eu tente explicá-la, e ela tem suas razões para isso. Noções cronológicas de evento e duração não existem para esta criatura fisiologicamente estilística que em crise se transforma em uma messias. Esta dor convulsiva a faz prostrar-se e uivar à lua tal como o arcano 18, esperando pelo veneno do escorpião. Aqui eu, tomada pelas dores da minha parasita, choro para lua pois ela é a única que observa nossa obscenidade, a única testemunha de nossas infâmias e torci por algum momento tocá-la para que ela também, por um momento, virasse língua, talvez assim fosse possível encarar o luto que minha amiga língua me traz.

Explicando de maneira vulgar, o luto se caracteriza como o processo na qual o sujeito perde um de seus objetos de desejo e, frente tal evento, ele realoca sua libido em um novo objeto, desejando novamente, mas de uma maneira diferente. Quando o sujeito não consegue deslocar tal objeto ele deixa de ser sujeito e vira paciente, Freud chama isso de melancolia, a ausência de objeto. Tanto a língua como eu, e mais alguns outros teóricos, temos algumas dúvidas em relação a este tipo de definição, principalmente, pois ela não dá conta de todas as mais diversas formas de mortificação e litificação da vida moderna. A historiadora Saidiya Hartman, por exemplo, no seu texto o tempo da escravidão se pergunta se é possível passar pelo processo de luto de algo como a escravidão. Ao fim, ela conclui que, mesmo tendo formalmente acabado, o evento da escravidão continua a existir, logo, a forma de se passar pelo luto deve ser feita de outra forma, deve-se sentir o luto de uma morte contínua. Freud provavelmente a chamaria de melancólica. 

Tais colocações de Hartman colocam em cheque uma questão importante para a língua enquanto ela se convulsiona concentricamente ao redor de si mesma: O luto, para Freud e para o senso comum, só consegue existir de maneira saudável em um caso de evento específico, aquele que acaba com um grande ponto final. 

Deixe-me trabalhar com exemplos, quando uma pessoa querida morre e você pode experienciar seus últimos   momentos, ter aquela última interação antes do derradeiro fim e, após a sua morte, você consegue participar de todos os ritos fúnebres que a colocam sete palmos abaixo da terra, não há a chance de que esse fim se prolongue, houve um ponto final nesta vida e você precisa lidar com isso. Entretanto, nem sempre os mortos ficam onde deveriam ficar ou sequer conseguem descansar enquanto mortos, desaparecidos ou pessoas na qual você colaborou com a morte e agora suas mãos não conseguem ficar nunca limpas, sempre tão vermelhas com as mãos incrustadas de sangue, estes são exemplos mais fáceis de quando os mortos voltam, ou como fantasma ou como trauma.

Mas nem sempre temos lutos com mortos-passados, às vezes nós o temos com mortos-futuros, hipotéticos, fantasmas de fracassos. Como funciona, então, o luto de um porvir? Eu não saberia explicar conceitualmente, mas posso te dar um gosto. Há uma ferida em minha língua que se abre como se os próprios músculos desta quisesse  até o ponto onde houvesse duas línguas, a convulsão rasgante gera um pus roxo com gosto de framboesa e cheiro artificial de morango, a textura oleosa do líquen faz com que ele escorra mais facilmente pela minha boca, a língua grita tal, pois só assim que ela se comunica, a linguagem quebra e o óleo essencial escorre pela minha boca, me fazendo parecer um cão com raiva. Há muito deste pus, logo ele também vai ao meu estômago e me deixa sem fome de nada, pois estou nutrida e alimentada de fim de mundo. 

O apocalipse se caracteriza em um colapso completo de todas as estruturas simbólicas que nos cercam, dando lugar a uma realidade cada vez mais selvagem a qualquer colocação humana, cada vez mais inversa a cada esperança nossa. Há muitos motivos para se sentir que o mundo está acabando, temos mais de 600 mil mortos por um genocídio travado em prol de um sistema econômico falido, temos um estado que tem como objetivo o assassinato de gente preta e pobre e, por fim, o mundo caminha para enfrentar consequências irreversíveis de um capitalismo que prefere a extinção humana à diminuição da taxa de lucro.

Eu e ela, minha língua, sabemos que não é necessariamente melancolia que se passa, mas desespero escatológico, que resulta em silêncio, o tema último de qualquer coisa que eu escreva. Não posso oferecer qualquer tipo de conclusão em tom declaratório esperado de uma coluna de opinião, muito menos uma conclusão para um objeto que está em vias de ir, só posso oferecer silêncio. Em um mar de obscenidade eu e minha língua sofremos, gozando, em silêncio, correndo em círculos, tal como uma galinha, para que de alguma forma a lua possa se alimentar de nossa própria disforia.



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