Agora.

Construir uma casa pequena, porém do tamanho exato que caiba os meus demônios, os que cuidam de mim.
Aprender a usufruir dos prazeres da vida, já que ela não nos poupa as dores.
Estar feliz em minha cama vazia, com minha mente vazia, e meu peito vazio, num quarto recheado só de respiração quente e cheiro de cigarro apagado.
Costurar sozinha as cicatrizes estreladas que cobrem meu corpo.
Levantar e deitar como o sol.
Ainda guardar aquela semente de banana.
Ainda sonhar. Mas sonhar sozinha.

Lembrar de você,
E lembrar de esquecer você.

Do seu signo preto.
Do seu sorriso.
Dos seus dedos.
Da sua voz.
Dos seus pés e costas.
Da sua dedicação e de seus medos.
Dos seus sonhos e paranoias.
Das minhas lágrimas no banco do seu carro.
Do céu azul atrás de ti.
Dos pés molhados no fundo da sua casa.
Dos colchões no chão.
Do espelho do seu quarto.
Da sua respiração em meu pescoço.
Do seu olhar de cansaço.
Da sua distância.
Da minha presença.
Das suas expectativas.
Das minhas realidades.
Dos meus isqueiros na sua mão.
Dos meus livros na sua casa.
Dos meus desenhos na sua parede.
Das minhas fotos no seu celular.
Da minha escova de dente na sua gaveta e do meu sabonete no seu banheiro.

Anseio por você, e vomito você todas as noites.

Anseio a viagem nunca feita.
A bicicleta que nunca aprendi a andar.
As receitas não realizadas.
Os filmes não vistos.
As conversas não tidas.
As loucuras não feitas.
Os restaurantes não idos.
Os álbuns não ouvidos.
Os sentimentos não acessados.
As promessas, agora quebradas.
Anseio tudo que poderíamos ter sido, mas não somos.
De quando éramos trinta, mas agora somos quinze.

Vi você trancar a porta do seu quarto e apagar a luz tantas vezes. Mas dessa vez eu não estou dentro dele.

Achei que querer era suficiente.

Não foi.

Agora meus suspiros são apenas silêncios reprimidos.



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