A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) foi uma organização militar criada, de fato, para garantir a segurança de seus membros diante de uma eventual ameaça soviética no continente europeu, e em contraposição, no bloco socialista, havia o Pacto de Varsóvia.

Com o fim da União Soviética, que justificava a existência da OTAN, se foi. Porém, desde então, a organização militar encabeçada pelos Estados Unidos não apenas continuou a existir, mas também expandiu o número de integrantes da aliança, inclusive em direção aos antigos estados membros do bloco soviético.

Há uma questão muito dúbia em relação a promessa de não expansão da OTAN em direção ao Leste nos tratados que desenrolaram com o fim da URSS. Existem muitas afirmações de lideranças políticas da época de que ocorreu um acordo informal, sempre defendido pelos russos até hoje, e outros negam a existência de qualquer entendimento quanto à questão da expansão, mesmo que tenha sido tratada de maneira informal.

Uma lição para diplomatas, principalmente para os russos, em relação a acordos e tratados, se não está aprovado pelo congresso americano, muito provável que não tenha valor algum.

No entanto, apesar do avanço da OTAN em direção à Rússia e à sua antiga área de influência, os Estados Unidos e a Rússia possuíam um nível de cooperação que não existe mais. É importante lembrar que após os atentados terroristas do 11 de Setembro, os dois países colaboravam na área de combate ao terrorismo. Inclusive, a Rússia apoiou a invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos.

Porém, o momento de profundo distanciamento veio ainda no governo George W. Bush com a possibilidade da Ucrânia e Georgia ingressarem à aliança militar ocidental, além das crises diplomáticas entre Rússia e Georgia que vinha ocorrendo desde 2000 com a eleição de Putin na Rússia e a liderança pró-ocidente na Georgia em 2003. Em 2008, a Rússia invade a Geórgia e anexa os territórios da Ossétia do Sul e Abecásia.

Esse conflito serviria de lição para os acontecimentos que estavam por vir no continente europeu. Em 2014, ocorre a Revolução Ucraniana ou Revolução Maidan, na qual diante de uma situação de profunda crise socioeconômica e a recusa do então líder ucraniano pró-rússia, Viktor Yanukovych, de assinar o acordo de adesão à União Europeia, a pedido da Rússia, protestos se intensificaram na capital Kiev, com forte repressão por parte do governo apoiado pela Rússia. No fim, o governo é derrubado e o seu líder tem sucesso em sua fuga.

Ucrânia no jogo geopolítico da OTAN

Diante da derrubada do governo aliado aos russos, uma maior aproximação entre o Ocidente e a Ucrânia, e principalmente da possibilidade real de entrada da Ucrânia na OTAN, a Rússia invade a Criméia e patrocina movimentos separatistas nos territórios ucranianos fronteiriços com a Rússia, de Donbass em Donetsk.

É possível observar que essa estratégia russa visa inviabilizar qualquer chance da Ucrânia tornar-se membro da OTAN, pois uma vez que o país vem sofrendo com questões de disputas territoriais diretamente com a Rússia, ao ingressar à aliança, os estados membros estariam obrigados pelo Artigo 5° do tratado da aliança a defender o estado membro, e desse modo, poderíamos dar as boas-vindas a uma iminente Terceira Guerra Mundial.

Em 2022, essa crise entre os dois países entrou numa nova fase quando o presidente russo, Vladimir Putin, reconheceu os dois territórios separatistas como estados independentes, e em seguida invadiu mais uma vez o território ucraniano. A justificativa oficial para a “operação especial” russa na Ucrânia é de combater o regime nazista do presidente eleito Volodymyr Zelensky, evitar a perseguição de minorias russas no território Ucraniano. Além disso, Putin utiliza um discurso nacionalista e imperialista nostálgico para justificar a agressão. Não há dúvidas de que não poderia ser apenas delírio ou uma justificativa inócua para a população russa. Zelensky pode ser tudo que o classifique como incompetente e inepto ao cargo que ocupa, mas nazista é o mais improvável.

De fato, e por muitas vezes omitido pela mídia tradicional, o batalhão de Azov é uma milícia ucraniana de extrema-direita e simpatizante do nazismo, mas ela não é representação da vasta maioria dos ocupantes do poder na Ucrânia, fato que também não poderia justificar uma invasão à um país soberano e com um líder eleito democraticamente. Entretanto, o real objetivo da invasão russa é derrubar o governo ucraniano e a velha anexação de territórios a fim de evitar o posicionamento de equipamento militar da OTAN próximo às fronteiras da Rússia.

Para a surpresa de muitos analistas, exceto dos serviços de inteligência norte-americanos, era impensável uma invasão de tamanha escala e violência praticada pela Rússia em 2022.

É preciso deixar claro que qualquer análise do posicionamento russo não é uma justificativa, nem legitimação das ações ilegais do regime russo, mas é preciso ter clareza e realismo sobre os antecedentes e histórico político sobre a questão. É ingênuo pensar que, em uma situação reversa, caso fossem os russos a convidarem, por exemplo, o México, Venezuela ou Cuba, para uma aliança militar, os Estados Unidos não tomariam nenhum tipo de ação militar. De fato, vimos uma situação semelhante no contexto da Crise dos Mísseis durante a Guerra Fria.

Os Estados Unidos, por outro lado, não têm estimulado nenhum tipo de acordo que busque o fim do conflito. Pelo contrário, os países ocidentais têm aplicado fortes sanções econômicas contra a Rússia e patrocinado o envio de imensa quantidade de equipamento militar para a Ucrânia com o objetivo de prejudicar a cadeia de produção dos russos. Porém, essa ação teve apenas o efeito de prolongar o conflito e causar mais danos à economia mundial já em grave situação devido à Pandemia da COVID-19.

Situação Taiwan e China

Do outro lado do mundo, a China tem observado a guerra entre Rússia e Ucrânia com muita atenção. Apesar de frequentes manifestações da imprensa e lideranças chinesas em relação à Taiwan a respeito da aplicação do uso da força no caso de uma declaração formal de independência da ilha, a resistência ucraniana diante da superioridade militar russa, o prolongamento do conflito e a resposta conjunta dos países do Ocidente, tenha deixado alguns militares chineses atentos à questão.

A aplicação de sanções econômicas à China parece pouco provável de ocorrerem devido à elevada interdependência da economia norte-americana e chinesa, além dos impactos no resto mundo devido a importância da China para a cadeia de produção global.

Além disso, embora a Rússia – que tem uma economia de menor peso no mundo quando comparado à China, e seus efeitos têm sido devastadores para a economia mundial, imagine o impacto das sanções econômicas contra a China para o mundo.

Diferentemente da Ucrânia, que é um território com extensa fronteira com o país vizinho invasor, Taiwan é uma ilha na qual o deslocamento de tropas e equipamento militar para uma possível invasão dependerá de forças navais e as linhas de suprimento são dificultadas no caso do prolongamento do conflito. Ainda assim, apesar da modernização crescente das forças armadas chinesas, em termos de experiência militar, a China não tem participação em guerra desde a invasão do Vietnã, em 1979.

O Tratado de Defesa Mútua EUA-Taiwan

Em novo desdobramento da crise diplomática EUA-China, a Presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi, desembarcou em Taipé nesta terça-feira, dia 2, o que marcou uma demonstração significativa de apoio a Taiwan, apesar das ameaças de retaliação da China pela visita. O Ministério das Relações Exteriores da China alertou sobre o “grave impacto político” da visita.

Já tendo manifestado desaprovação sobre uma possível visita de Pelosi a Taiwan, o presidente da China vem enfrentando seu próprio conjunto de conflitos políticos domésticos e internacionais. Os líderes da China e o povo chinês provavelmente verão qualquer coisa além da oposição contínua à viagem como uma humilhação nacional – mais um exemplo na longa história do país de ceder ao bullying estrangeiro.

A assistência militar que os norte-americanos oferecem a Taiwan é, hoje, um dos pontos mais sensíveis nos cálculos geopolíticos para os tomadores de decisão em Beijing, Washington e Taipei. É importante ressaltar que a essência do antigo Acordo de Defesa Mútua entre EUA e Taiwan foi incorporada ao Taiwan Relations Act (TRA) que passou a pautar as relações não oficiais entre Washington e Taipei.

Em resumo, o TRA estabelece que qualquer abordagem não pacífica para a questão taiwanesa será considerada uma “ameaça à paz e à segurança da região do Pacífico Ocidental e de grave preocupação para os Estados Unidos”. Nesse sentido, os EUA:

fornecerão a Taiwan armas de caráter defensivo e manterão a capacidade dos Estados Unidos de resistir a qualquer recurso à força, ou a outras formas de coerção que colocariam em risco a segurança, ou o sistema social, ou econômico, do povo de Taiwan”.

Resta observar se os Estados Unidos irão abandonar sua política de mais de quatro décadas de “ambiguidade estratégica” para lidar com a questão taiwanesa. De todo modo, qualquer que seja a estratégia norte-americana, os EUA terão de lidar com uma China pacientemente decidida a acertar as contas com o último resquício daquele século chinês de humilhações.

Por Thiago Nossa Neto

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