China, Taiwan e o despertar estratégico da OTAN


Em 1979, os Estados Unidos assumiram um compromisso claro no Comunicado Conjunto China -EUA sobre o Estabelecimento de Relações Diplomáticas – “Os Estados Unidos da América reconhecem o Governo da República Popular da China como o único governo legal da China.


A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) foi uma organização militar criada, de fato, para garantir a segurança de seus membros diante de uma eventual ameaça soviética no continente europeu, e em contraposição, no bloco socialista, havia o Pacto de Varsóvia.

Com o fim da União Soviética, que justificava a existência da OTAN, se foi. Porém, desde então, a organização militar encabeçada pelos Estados Unidos não apenas continuou a existir, mas também expandiu o número de integrantes da aliança, inclusive em direção aos antigos estados membros do bloco soviético.

Há uma questão muito dúbia em relação a promessa de não expansão da OTAN em direção ao Leste nos tratados que desenrolaram com o fim da URSS. Existem muitas afirmações de lideranças políticas da época de que ocorreu um acordo informal, sempre defendido pelos russos até hoje, e outros negam a existência de qualquer entendimento quanto à questão da expansão, mesmo que tenha sido tratada de maneira informal.

Uma lição para diplomatas, principalmente para os russos, em relação a acordos e tratados, se não está aprovado pelo congresso americano, muito provável que não tenha valor algum.

No entanto, apesar do avanço da OTAN em direção à Rússia e à sua antiga área de influência, os Estados Unidos e a Rússia possuíam um nível de cooperação que não existe mais. É importante lembrar que após os atentados terroristas do 11 de Setembro, os dois países colaboravam na área de combate ao terrorismo. Inclusive, a Rússia apoiou a invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos.

Porém, o momento de profundo distanciamento veio ainda no governo George W. Bush com a possibilidade da Ucrânia e Georgia ingressarem à aliança militar ocidental, além das crises diplomáticas entre Rússia e Georgia que vinha ocorrendo desde 2000 com a eleição de Putin na Rússia e a liderança pró-ocidente na Georgia em 2003. Em 2008, a Rússia invade a Geórgia e anexa os territórios da Ossétia do Sul e Abecásia.

Esse conflito serviria de lição para os acontecimentos que estavam por vir no continente europeu. Em 2014, ocorre a Revolução Ucraniana ou Revolução Maidan, na qual diante de uma situação de profunda crise socioeconômica e a recusa do então líder ucraniano pró-rússia, Viktor Yanukovych, de assinar o acordo de adesão à União Europeia, a pedido da Rússia, protestos se intensificaram na capital Kiev, com forte repressão por parte do governo apoiado pela Rússia. No fim, o governo é derrubado e o seu líder tem sucesso em sua fuga.

Ucrânia no jogo geopolítico da OTAN

Diante da derrubada do governo aliado aos russos, uma maior aproximação entre o Ocidente e a Ucrânia, e principalmente da possibilidade real de entrada da Ucrânia na OTAN, a Rússia invade a Criméia e patrocina movimentos separatistas nos territórios ucranianos fronteiriços com a Rússia, de Donbass em Donetsk.

É possível observar que essa estratégia russa visa inviabilizar qualquer chance da Ucrânia tornar-se membro da OTAN, pois uma vez que o país vem sofrendo com questões de disputas territoriais diretamente com a Rússia, ao ingressar à aliança, os estados membros estariam obrigados pelo Artigo 5° do tratado da aliança a defender o estado membro, e desse modo, poderíamos dar as boas-vindas a uma iminente Terceira Guerra Mundial.

Em 2022, essa crise entre os dois países entrou numa nova fase quando o presidente russo, Vladimir Putin, reconheceu os dois territórios separatistas como estados independentes, e em seguida invadiu mais uma vez o território ucraniano. A justificativa oficial para a “operação especial” russa na Ucrânia é de combater o regime nazista do presidente eleito Volodymyr Zelensky, evitar a perseguição de minorias russas no território Ucraniano. Além disso, Putin utiliza um discurso nacionalista e imperialista nostálgico para justificar a agressão. Não há dúvidas de que não poderia ser apenas delírio ou uma justificativa inócua para a população russa. Zelensky pode ser tudo que o classifique como incompetente e inepto ao cargo que ocupa, mas nazista é o mais improvável.

De fato, e por muitas vezes omitido pela mídia tradicional, o batalhão de Azov é uma milícia ucraniana de extrema-direita e simpatizante do nazismo, mas ela não é representação da vasta maioria dos ocupantes do poder na Ucrânia, fato que também não poderia justificar uma invasão à um país soberano e com um líder eleito democraticamente. Entretanto, o real objetivo da invasão russa é derrubar o governo ucraniano e a velha anexação de territórios a fim de evitar o posicionamento de equipamento militar da OTAN próximo às fronteiras da Rússia.

Para a surpresa de muitos analistas, exceto dos serviços de inteligência norte-americanos, era impensável uma invasão de tamanha escala e violência praticada pela Rússia em 2022.

É preciso deixar claro que qualquer análise do posicionamento russo não é uma justificativa, nem legitimação das ações ilegais do regime russo, mas é preciso ter clareza e realismo sobre os antecedentes e histórico político sobre a questão. É ingênuo pensar que, em uma situação reversa, caso fossem os russos a convidarem, por exemplo, o México, Venezuela ou Cuba, para uma aliança militar, os Estados Unidos não tomariam nenhum tipo de ação militar. De fato, vimos uma situação semelhante no contexto da Crise dos Mísseis durante a Guerra Fria.

Os Estados Unidos, por outro lado, não têm estimulado nenhum tipo de acordo que busque o fim do conflito. Pelo contrário, os países ocidentais têm aplicado fortes sanções econômicas contra a Rússia e patrocinado o envio de imensa quantidade de equipamento militar para a Ucrânia com o objetivo de prejudicar a cadeia de produção dos russos. Porém, essa ação teve apenas o efeito de prolongar o conflito e causar mais danos à economia mundial já em grave situação devido à Pandemia da COVID-19.

Situação Taiwan e China

Do outro lado do mundo, a China tem observado a guerra entre Rússia e Ucrânia com muita atenção. Apesar de frequentes manifestações da imprensa e lideranças chinesas em relação à Taiwan a respeito da aplicação do uso da força no caso de uma declaração formal de independência da ilha, a resistência ucraniana diante da superioridade militar russa, o prolongamento do conflito e a resposta conjunta dos países do Ocidente, tenha deixado alguns militares chineses atentos à questão.

A aplicação de sanções econômicas à China parece pouco provável de ocorrerem devido à elevada interdependência da economia norte-americana e chinesa, além dos impactos no resto mundo devido a importância da China para a cadeia de produção global.

Além disso, embora a Rússia – que tem uma economia de menor peso no mundo quando comparado à China, e seus efeitos têm sido devastadores para a economia mundial, imagine o impacto das sanções econômicas contra a China para o mundo.

Diferentemente da Ucrânia, que é um território com extensa fronteira com o país vizinho invasor, Taiwan é uma ilha na qual o deslocamento de tropas e equipamento militar para uma possível invasão dependerá de forças navais e as linhas de suprimento são dificultadas no caso do prolongamento do conflito. Ainda assim, apesar da modernização crescente das forças armadas chinesas, em termos de experiência militar, a China não tem participação em guerra desde a invasão do Vietnã, em 1979.

O Tratado de Defesa Mútua EUA-Taiwan

Em novo desdobramento da crise diplomática EUA-China, a Presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi, desembarcou em Taipé nesta terça-feira, dia 2, o que marcou uma demonstração significativa de apoio a Taiwan, apesar das ameaças de retaliação da China pela visita. O Ministério das Relações Exteriores da China alertou sobre o “grave impacto político” da visita.

Já tendo manifestado desaprovação sobre uma possível visita de Pelosi a Taiwan, o presidente da China vem enfrentando seu próprio conjunto de conflitos políticos domésticos e internacionais. Os líderes da China e o povo chinês provavelmente verão qualquer coisa além da oposição contínua à viagem como uma humilhação nacional – mais um exemplo na longa história do país de ceder ao bullying estrangeiro.

A assistência militar que os norte-americanos oferecem a Taiwan é, hoje, um dos pontos mais sensíveis nos cálculos geopolíticos para os tomadores de decisão em Beijing, Washington e Taipei. É importante ressaltar que a essência do antigo Acordo de Defesa Mútua entre EUA e Taiwan foi incorporada ao Taiwan Relations Act (TRA) que passou a pautar as relações não oficiais entre Washington e Taipei.

Em resumo, o TRA estabelece que qualquer abordagem não pacífica para a questão taiwanesa será considerada uma “ameaça à paz e à segurança da região do Pacífico Ocidental e de grave preocupação para os Estados Unidos”. Nesse sentido, os EUA:

fornecerão a Taiwan armas de caráter defensivo e manterão a capacidade dos Estados Unidos de resistir a qualquer recurso à força, ou a outras formas de coerção que colocariam em risco a segurança, ou o sistema social, ou econômico, do povo de Taiwan”.

Resta observar se os Estados Unidos irão abandonar sua política de mais de quatro décadas de “ambiguidade estratégica” para lidar com a questão taiwanesa. De todo modo, qualquer que seja a estratégia norte-americana, os EUA terão de lidar com uma China pacientemente decidida a acertar as contas com o último resquício daquele século chinês de humilhações.

Por Thiago Nossa Neto


, , ,

Eleições

  • Após infiltração, grupos bolsonaristas no Telegram reforçam moderação

    Após infiltração, grupos bolsonaristas no Telegram reforçam moderação

    ,

    Dois dias após o primeiro turno das eleições, usuários de esquerda passaram a infiltrar grupos bolsonaristas no Telegram. O resultado foi o reforço da moderação por parte dos administradores, e a aposta em teorias conspiratórias.

  • No Telegram, bolsonaristas espalham fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste

    No Telegram, bolsonaristas espalham fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste

    ,

    Grupos bolsonaristas no Telegram reforçam táticas xenofóbicas e criam fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste.

  • Como que vota o estudante da UFBA?

    Como que vota o estudante da UFBA?

    ,

    Lula é candidato quase unânime, e economia não é o tema mais importante para eles.


Tem uma pauta?
Estamos aqui

Toda ideia tem o potencial de ser uma boa ideia. Gostamos de ouvir ideias de pauta, denúncias ou sugestões de nossos leitores. Se quiser compartilhar, conte conosco — e olha, pode ser totalmente anônimo, tá?


  • Após infiltração, grupos bolsonaristas no Telegram reforçam moderação

    Após infiltração, grupos bolsonaristas no Telegram reforçam moderação

    ,

    Dois dias após o primeiro turno das eleições, usuários de esquerda passaram a infiltrar grupos bolsonaristas no Telegram. O resultado foi o reforço da moderação por parte dos administradores, e a aposta em teorias conspiratórias.

  • Todo fascista é corno

    Todo fascista é corno

    ,

    Não é difícil entender que a vontade de escrever é nula, assim como a vontade de acordar, sair da cama e realizar que esse bando de corno não tem mais medo de cantar aos quatro ventos: “sou fascista na avenida e minha escola é a mais querida dos reaça nacional!”.

  • No Telegram, bolsonaristas espalham fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste

    No Telegram, bolsonaristas espalham fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste

    ,

    Grupos bolsonaristas no Telegram reforçam táticas xenofóbicas e criam fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste.

  • Anunciando um novo modelo: notas

    Anunciando um novo modelo: notas

    Anunciamos as notas, reportagens curtas sobre temas relacionados às eleições de segundo turno.

  • A falta da política externa

    A falta da política externa

    , ,

    Às vésperas da eleição mais importante desde a redemocratização, e ainda sob efeito da ressaca moral que assola o país após o clássico debate presidencial da Rede Globo, a ausência da política externa como pauta de discussão demonstra o enorme apequenamento do Brasil.

  • Pesquisa aponta que norte-americanos desaprovam  apoio militar na Ucrânia

    Pesquisa aponta que norte-americanos desaprovam apoio militar na Ucrânia

    , , ,

    Muitos americanos pensam que Biden deveria se apressar e encontrar um acordo diplomático. Mas para os apoiadores da Ucrânia, seja à esquerda ou à direita, a resposta é que Biden se apresse e vença, dando à Ucrânia mais ajuda militar e aceitando mais riscos.

  • Deus esteve em São Paulo

    Deus esteve em São Paulo

    ,

    Deus nasceu no Rio de Janeiro, cresceu em Minas Gerais e, na noite do último domingo, 26, esteve em São Paulo, das 20h às 22h20. Eu estava lá. Eu vi Deus!

  • Canal bolsonarista  espalha conspiração sobre Edward Snowden

    Canal bolsonarista espalha conspiração sobre Edward Snowden

    , ,

    Em mais uma onda de fake news, canal bolsonarista no Telegram espalha que Edward Snowden revelou plano de “manipulação geofísica” contra eles a partir do projeto HAARP.

Seja notificado de novas publicações, assine.

Ao se inscrever, o WordPress te atualiza gratuitamente toda vez que publicamos algo novo. Assim, você pode acompanhar nossa redação! Não se esqueça de nós seguir nas redes sociais.

A revista o sabiá é um veículo de mídia independente e sem fins lucrativos criado e equipado por jovens. Buscamos usar o jornalismo e a comunicação como um mecanismo de mudança do futuro das novas gerações.