O hardcore/punk moldou meu caráter, mas digo com tranquilidade: o que me trouxe até aqui não é o suficiente para me levar adiante. Isso porque quando você passa de certa idade, o hardcore/punk — pensando na estética e não na mensagem, que fique bem dito! — deixa de fazer sentido e se transforma em algo besta, infantil, superficial e, por que não? Ridículo. Ainda mais quando pensamos em bandas como Agnostic Front, H2O e, arriscando ser violenta e literalmente apedrejado, Judge — entre M-U-I-T-A-S outras.

Mas… na real, pensando enquanto escrevo, essa questão pode ser resumida de maneira simples: algumas bandas envelhecem bem, outras envelhecem mal e outras ainda, como as que listei acima, envelhecem muito, muito, mas muito mal. E com isso não estou criticando de maneira negativa quem se mantém fiel às suas raízes, à sua essência, mas acontece ser natural ao ser humano — e a qualquer outro ser, animal, vegetal, mineral… — evoluir, e evolução não é nada que faz parte do hardcore/punk. Nesse “rolê”, um dos maiores pecados que podem ser cometidos é querer se aprimorar, querer aprender a realmente tocar um instrumento, por exemplo, querer aprender a escrever letras que transmitam seus sentimentos ao mesmo tempo, em que se encaixem na métrica da música ou, ainda, querer e se permitir experimentar com outras sonoridades.

Contudo, e graças a essa compreensão de que evoluir não é sinônimo de tornar-se algo que você nunca foi, algumas bandas conseguem amadurecer sem abrir mão daquela centelha que fez tudo incendiar-se lááá atrás. Exemplos? Dois de que sou fã: Title Fight, com o disco “Hyperview”, e Turnstile, com o disco “Glow On”. O primeiro é uma maravilha, mas despertou e ainda desperta discussões acaloradas em quem glorifica seus predecessores “Shed” e “Floral Green”, que também são umas maravilhas, mas umas maravilhas diferentes, e tudo bem. O segundo, porém, é o que pode ser chamado de obra-prima; “Glow On”, que saiu no ano passado, é o único responsável por manter o hardcore vivo e, diante disso, alçou o Turnstile ao status de banda grande, que saiu dos buracos fedidos do hardcore para tocar em grandes festivais mundo afora e em programas de televisão como os daqueles palhaços do Jimmy Fallon e do Jimmy Kimmel. Enquanto isso, outrora clássicos e referências absolutas como Madball, Cro-Mags e Sick Of It All continuam passando vergonha.

Tudo é fase, meu parceiro, e o esquema é transitar entre elas sabendo quem você é e sabendo que você não precisa ser refém de uma única delas.

Bom, escrevi e saí correndo: pau no cu de tem tá lendo!

Sabiá

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