Como estou me reeducando para evitar hábitos de produtividade tóxica


Se você entrou nesse ritmo, você deve saber que a conta vai chegar. Se você está numa fase de estar inebriado com isso, você provavelmente esta pensando que para você não vai, que você se acostuma fácil, que com você será diferente, o seu momento.


Por Felippe Regazio

Quando tomei a terceira dose da vacina contra COVID eu acabei sentindo efeitos colaterais bem fortes. Eu não havia sentido nada na primeira e segunda dose, mas a terceira me pegou em cheio: náusea, dor no corpo, dor de cabeça, coriza, cansaço, enfim: o pacote completo de dor e miserabilidade. Estava deitado no sofá enrolado em cobertas, sentindo calafrios e com o nariz assado quando senti uma espécie de paz, aquela típica paz de tarde de domingo quando ta tudo certo (como dois e dois são cinco). Simplesmente me veio uma brisa de tranquilidade e eu fiquei pensando: por que diabos eu tô só o bagaço e ainda assim me sentindo tão bem?

A resposta foi uma imensa red flag a respeito de como eu estava organizando minha vida: eu estava tranquilo porque eu havia me livrado do peso da auto-cobrança e da necessidade de super produtividade. Estar “doente” era a fuga perfeita que o meu cérebro precisava para finalmente descansar. Eu estava tranquilo porque, como eu estava só a capa da gaita, meu cérebro deu um tempo. Estudo, projeto, inovação, execução de código, gestão de vida, planejamento… Não tinha condições. Minha cabeça deu um grande foda-se automático que há anos eu não tinha, eu senti a paz do esgotamento inevitável, e me lembrei o que é de fato o que era descansar a cabeça. Daí eu percebi que muitas vezes eu até acreditava estar descansado, quando eu estava apenas confundindo descanso com estar parado.

Eu não quero ser um super-herói

Foi um longo até minha cabeça virar essa zona de hiper-produtividade tóxica e incessante, mas em algum momento da minha vida essa corrida foi de fato necessária, mas com o tempo tornou-se puro vício somado a outros fatores como romantização da árdua caminhada, auto-heroificação, estímulos externos e a pior de todas: medo.

Quando eu era freelancer, até que decidi arrumar um trampo formal. Comecei de baixo, como estagiário. Eu pegava seis ônibus para trabalhar: três para ir e outros três para voltar. Eu ia estudando e voltava estudando, não tinha muito o que fazer no ônibus. Quando eu chegava em casa eu tomava banho, terminava meus afazeres e ia pro computador estudar, executava projetos pessoais e fazia algumas experimentações até uma ou duas da manhã. Eu tinha uma meta clara: aprender o bastante para assumir que eu era bom no que estava fazendo: programar.

No meu segundo emprego eu já estava mais tranquilo, trabalhava remoto, estava mais confiante do meu conhecimento, era parte de um time hiper produtivo e organizado e tinha um chefe compreensivo e humano, realmente preocupado com prazos factíveis e com a saúde do time. É de se pensar que daí eu pisaria um pouco no freio né? De forma alguma, eu não descansei, eu preenchi esse espaço de conforto com mais estudo, prática, pesquisa, análise, mais projetos pessoais, leitura. Era a meta: estudar e praticar até me convencer de que eu era bom no que estava me propondo a fazer. Conselho nenhum me convenceria a parar, e o pior: conselho nenhum tentou me convencer a parar, pelo contrário: a maioria do conteúdo que eu via por aí dizia ao contrário, e às vezes ainda me dava a impressão de que talvez eu não estivesse fazendo o bastante.

Toda vez que eu me desenvolvia profissionalmente, embora ganhasse mais responsabilidade e novas atribuições, vinham também novos confortos os quais eu preenchia com mais esforço: horário flexível? Agora posso estudar de madrugada porque é silencio. Recesso remunerado de 20 dias no fim do ano? Vou usar para fazer um curso, um projeto pessoal e estreitar laços com a comunidade de software livre. Férias? Vou focar no estudo de uma nova linguagem e focar em completar um projeto pessoal…

E nessa eu eventualmente atingi minha meta, me tornei Senior Developer. Entrei para uma ótima empresa no ramo de transações bancárias, consegui mais conforto e poder aquisitivo. Poderia descansar um pouco agora, né? Não, pelo contrário: eu intensifiquei o ritmo aterrorizado pelo medo da insuficiência, pela possível vinda de uma síndrome do impostor. Eu puxei mais o ritmo

E assim se passaram os anos…

Enquanto eu extrapolava meus limites de produtividade e estudo, e reeducava minha mente para suportar cada vez mais estresse, para absorver de forma rápida e para manter-se cada vez mais fria em situações de pressão, isso também ia moldando minha vida pessoal e criando um eu. O tempo passava e cada vez mais esse novo eu moldava meus novos prazeres como se não houvessem consequências.

Me considero uma pessoa de hobbies, sempre gostei de tocar violão e guitarra, andar de skate, de carros antigos, literatura, pintura e desenho… Conforme minha cabeça se reeducava, eu comecei a lidar com tudo como se fossem projetos. Eu comecei a estudar violão com metas de excelência, a praticar skate medindo meu avanço de uma semana para outra, a ler livros de forma dinâmica para ler com o maior aproveito de tempo possível…

Tudo isso parece muito romântico e interessante, mas não é. Eu não tinha mais hobbies de verdade, eu tinha sub-projetos. Meu sistema de execução, aprendizado e ânsia por excelência era o mesmo para todos os meus interesses. Durante os anos que eu tinha me educado quase que militarmente para super-produção e absorção de conteúdo, aplicava esse comportamento com absolutamente tudo que eu fosse fazer, mesmo que isso tivesse custo físico ou emocional.

E o mais louco: eu não estou dizendo dar certo com tudo, não é como se o simples fato de eu aplicar método e esforço fosse me tornar mesmo bom em tudo. De fato considero-me medíocre no violão (e está tudo bem, gente), não sei nem a metade do necessário sobre restauração de carros, não ganhei medalhas como skatista, mas eu não conseguia sair do método, fazer isso era aceitar a mediocridade, a normalidade, a inquieta e esmagadora sensação de ser um indivíduo comum. Nenhum destaque, nenhum exemplo, apenas alguém.

E aí é que estão as diversas armadilhas: aquilo estava consumindo meus hobbies, transformando minha satisfação em anseio. O que aconteceu no fim? Eu transformei tudo em ansiedade, e é aqui acho que foi onde perdi a mão. Tudo era projeto e eu tinha prazer com a dor da eterna penitência de quer ser um estaque, dar o sangue para ver uma meta cumprida. Era algo pessoal, às vezes uma meta secreta, pessoal e besta. Não era egolatria, era vício ou simples hábito.

A conta sempre chega

Se você entrou nesse ritmo, você deve saber que a conta vai chegar. Se você está numa fase de estar inebriado com isso, você provavelmente esta pensando que para você não vai, que você se acostuma fácil, que com você será diferente, o seu momento. E tudo bem, pensar assim é parte de ser igual a todo mundo, de cometer os mesmos erros que todo mundo comete: a romantização do super-herói e a impressão de que se você não for um destaque, você não será ninguém, você não terá nenhum valor.

Mas o que é exatamente essa conta? Bom, ela é a parte que o coach quântico não te conta: ansiedade, depressão, sentimento de desprendimento social, isolamento, perturbação, distúrbios do sono, sentimento de descontentamento, medo irreal de não conseguir (mas conseguir o quê?), burnout, dificuldade socio-afetiva. Ou seja, o seu maior projeto que é a sua vida começou a andar mal. Parabéns, ótimo, nota dois!

Cada lugar na sua coisa

Pode ser que em algum momento você precise fazer um corre homérico para conquistar seu lugar e suas coisas, assim como eu precisei. E pode ser que você fique viciado com essa conquista assim com eu fiquei. Mas assim como eu, pode ser que você sofra os danos colaterais disso tudo também, e em algum momento note que você transformou tudo em projeto e todo prazer em resultado, e precise retomar a simplicidade das coisas.

Refletindo sobre tudo isso, eu me lembrei de um livro de Ernest Hemingway: Adeus as Armas. Tem uma parte nele que eu gosto muito, eu não achei o exceto, mas me lembro da ideia central. Hemingway diz que no mundo existem pessoas realmente fortes, mas que não importa o quão forte você for a vida sempre vai dobrar você, a vida dobra todo mundo e quem ela não puder dobrar, ela quebra. E foi isso que eu pensei ao avaliar minha situação: se eu não me deixasse dobrar, agora eu seria quebrado ao meio pela vida.

Após perceber tudo isso e de ficar triste comigo mesmo por estar feliz, tendo tranquilidade mental por estar doente, eu decidi e passei a tomar medidas práticas para me reeducar. Seria muito irônico se eu te desse uma lista super performática de dez itens para evitar o habito super tóxico da hiper-produtividade, mas eu não vou fazer isso. Talvez você devesse começar evitando listas de 10 coisas a se fazer? Enfim, não sei. A única coisa que posso dizer e funcionou para mim, é essa: pare um pouco.

É simples assim, não tem grandes medidas, não tem grandes sacadas. Nós entramos nesse ciclo por medo do fracasso, medo da solidão e da irrelevância, então seguimos girando a roda cegamente, fugindo desse monstro que no fim nem existe. E nosso cérebro é desconfiado, não adianta eu te dar centenas de dicas e argumentos para te convencer de que esse medo é ilusório, seu cérebro não vai acreditar, ele precisará de provas para sair desse alerta perpétuo. E qual é a prova? Para um pouquinho, faça alguma coisa que te agrada sem atribuir a isso nenhuma responsabilidade, e veja o que acontece. Pode ser o que você quiser, inclusive não fazer nada. Você precisa descobrir. Quando você parar de verdade e der um tempo para sua cabeça, você terá que tomar um segundo passo que é: voltar de onde parou. E é aí que você percebe: tudo continua lá do jeito que você deixou, você não se tornou menos, você não foi relegado a insignificância de um ser ordinário nesse meio-termo. Nada de mais aconteceu. Na verdade, é provável que você se sinta melhor e por incrível que pareça: mais produtivo/a.


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