A fofoca capitalizada

Uma publicação inédita do site Núcleo Jornalismo, em parceria com a agência Aos Fatos, reporta sobre uma aparente coordenação de publicações pagas de páginas agenciadas pela Banca Digital, da Mynd8. De acordo com a própria empresa, a audiência somada das páginas chega a 73 milhões de seguidores. Desses perfis, a reportagem analisou 24, todos com capacidade para pautar a internet.

Publicações sobre histórias pessoais de celebridades e subcelebridades rendem milhares de compartilhamentos, aumentando o engajamento e a popularidade das páginas, fazendo com que elas sejam mais recomendadas, recebam mais seguidores, e criem mais engajamento. É a partir desse engajamento que as páginas da Banca Digital fazem dezenas de publicidades por mês.

Entre os clientes da Mynd8 estão as bilionárias Amazon, Ambev, Heinz e o Mercado Livre. A Banca Digital se publiciza para anunciantes como “a forma perfeita da sua marca fazer parte das conversas mais virais do momento”.

Em junho, por exemplo, a página “Choquei” viralizou com uma publicação sobre a suposta cidade de Ratanabá. Apesar de render memes na internet, a cidade faz parte de uma teoria da conspiração de extrema-direita compartilhada por figuras proeminentes do bolsonarismo, como o ex-secretário da cultura Mario Frias.

A teoria, que diz que a cidade teria sido construída há 450 milhões de anos e abrigado a primeira civilização do planeta, ressurgiu a partir do empresário bolsonarista Urandir Fernandes de Oliveira, o qual é antivacina e defensor do mito da Terra plana, além de defender piamente outras diversas conspirações.

Na mesma semana em que ocorriam as buscas pelos corpos do jornalista britânico Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira, a teoria foi o assunto mais comentado das redes sociais e teve pico de pesquisas no Google, segundo levantamento do Núcleo.

A parceria entre o Núcleo Jornalismo e a agência Aos Fatos analisou todas as publicações de 24 perfis agenciados pela Banca Digital por uma semana, e descobriu que quase metade das publicações eram coordenadas em mais de um perfil, ou seja, os conteúdos das páginas eram similares e postados quase simultaneamente, por vezes.

Conforme o levantamento, as páginas fizeram 1.472 postagens em uma semana, e quase a metade delas (694 postagens) se repetiram. As métricas do levantamento consideraram publicações sobre um mesmo tópico com legendas ou imagens semelhantes.

Entretanto, segundo a reportagem, a Banca Digital diz não interferir nos conteúdos produzidos pelas páginas – apesar de ser responsável pelo agenciamento das mesmas.

“A Banca conta, hoje, com um time comercial completo, ficando à frente de todas as negociações publicitárias junto aos perfis, porém, sem interferência editorial”, diz a empresa à Núcleo.

Para colocar no buraco uma situação que já está no poço, a empresa anunciou em setembro do ano passado a contratação de um “head de jornalismo”, uma pessoa responsável pela observação de regulamentações, códigos de ética e leis brasileiras relacionadas às comunicações jornalísticas, informativas e publicitárias pelos perfis agenciados. À reportagem, a Banca afirmou que a head de jornalismo não interfere no processo editorial dos perfis e evita a associação das páginas com notícias falsas e conteúdo enganoso.

Embora essa seja a resposta da empresa, a análise da parceria mostra o oposto. Há coordenação de conteúdo, mas qual o problema nisso?

O problema é a centralização de conteúdo. As páginas, somadas, possuem um público de 73 milhões de pessoas. Certamente, é possível que múltiplos usuários sigam as mesmas páginas, justamente por conta da centralização e retenção do engajamento desses perfis. Ainda, é um público enorme, e que sem dúvidas possui uma base enorme entre as gerações mais jovens.

“Acho que o legal da reportagem é que ela mostra o potencial de influência dessa rede e é importante pensar para quais finalidades essa influência pode ser usada, seja desinformação ou propaganda política”, fala a repórter do Núcleo e co-autora da reportagem Laís Martins ao sabiá. “Acho que do lado de cá, nós, como usuários, também precisamos entender que nosso comportamento nas redes sociais vale muito e é o que dá poder a uma rede dessa”, diz.

E, de novo, qual o problema nisso? O problema é que a juventude se torna um público que se expõe à apenas um certo tipo de conteúdo, que está concentrado, e é influenciada pelas propagandas desses perfis. Até que ponto esses perfis não são responsáveis por moldar a cabeça de consumidores?

Além disso, é necessário apontar a problemática sobre como empresas repudiáveis, como a Amazon – que já sofreu denúncias por violações trabalhistas, posturas anti-sindicais, espionagem de funcionários, etc. -, por exemplo, patrocina publicidades nesses perfis.

Para além disso, é conflituoso que exista uma coordenação de conteúdo, justamente porque engaja a juventude a estar interessado naquele conteúdo. Juventude essa que já está à mercê da moderação algorítmica das redes, a qual dita os conteúdos a que cada um tem acesso.

Conteúdos de fofoca e jornalismo de entretenimento sempre existiram. Isso não é novidade. O que é novo é que as redes sociais conseguem mover um número alto de pessoas a se importar com a vida de pessoas privadas, compartilharem e discutirem sobre isso. Assim, se tira o aspecto da privacidade. Uma pessoa pública não tem mais privacidade, e aos olhos da internet, não deve.

As novas gerações, que cresceram com o acesso à internet e não imaginam um mundo sem ela, se acostumam com isso. Engajamos com as vidas de pessoas que não conhecemos, e falamos, muitas vezes, coisas sobre a vida de pessoas influentes sem qualquer tipo de responsabilidade, imaginando que uma pessoa naquele patamar não vai se importar com nossas palavras ou que seremos protegidos pela anonimidade das redes.

Além da privacidade, há a questão da massa. Na mesma semana em que um caso brutal estava se desenrolando, os perfis conseguiram viralizar uma teoria da conspiração. As redes sociais foram essenciais para o caso Dom e Bruno, porque permitiram que organizações como a Unijava (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari) fizessem o papel que cabia às autoridades, sendo ele informar a população sobre as buscas e atualizações do caso.

É certo que nem todo mundo quer, ou precisa, consumir apenas questões políticas ou notícias brutais nas redes sociais, mas não deixa de ser minimamente esquisito que uma teoria da conspiração sobre a Amazônia viralize misteriosamente enquanto dois assassinatos políticos, que aconteceram na Amazônia, ficam de lado.

Ainda, segundo números da reportagem, notícias (com 60 postagens) e política (com 40) estão entre alguns dos temas mais repetidos entre os perfis durante a semana analisada. Postagens envolvendo notícias tiveram mais de 4 milhões de curtidas, e política mais de 1,8 milhão.

Com esses dados, é preciso discutir sobre a neutralidade das redes – não a neutralidade tecnológica, porque ela não existe e jamais irá existir -, e como precedentes de debates na sociedade civil envolvendo tecnologia e redes precisam resultar em conclusões neutras.

Tendemos a levar essas discussões geralmente de forma emocional, muitas vezes porque elas tratam de assuntos legitimamente sensíveis para a sociedade, como a política, mas é preciso se esforçar para imaginar as consequências do que estamos escolhendo agora. A desinformação eleitoral e propaganda política existem, e ainda que sejam positivas para um candidato da sua preferência e negativas para aquele que você não gosta, ela não deixa de ser questionável.

Ao analisar os perfis, é possível notar que existe um apoio, ao menos momentâneo, a pré-candidatura de oposição à presidência. Há uma conspiração bolsonarista no momento que alega uma correlação entre publicidades pagas entre petistas e perfis famosos. Que se torne claro que a minha intenção é debater a abertura de precedentes, não insinuar conspirações como essa. É preciso questionar o fato de que um grupo seleto de pessoas e empresas podem controlar o engajamento sobre política e eleições, algo que deveria ser, em teoria, orgânico.

Ao invés de acharmos unilateralmente bom que grandes perfis tenham a potência para engajar a oposição, é necessário nos questionarmos sobre a abertura de precedentes para o lado contrário.



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