É irônico como a arte de modo geral recebe esse caráter “libertador” quando na realidade as linguagens artísticas, todas elas, obstaculizam nossa percepção através de seus estímulos fascinantes.

Ao bater os olhos na Pietà de Michelangelo, é possível ver a elegância do olhar da Virgem Maria, mesmo com o corpo morto de seu filho nos braços, como se a virgem já soubesse que o filho de Deus fosse ressuscitar, mesmo assim em contraste com esse “conformismo” materno, Michelangelo insere uma ternura singular na cena. Todavia, a realidade inexorável é a de que essa cena é um pedaço de pedra, esculpido há mais de 500 anos, e que brinca desde então com os nossos olhares.

Não é necessário ir até o Vaticano para perceber os efeitos dissociativos que as artes exercem. Ainda esse ano “Top Gun Maverick” foi lançado – sendo bem mais mercadológico que a escultura renascentista-, e rever o piloto da marinha dos Estados Unidos interpretado por Tom Cruise depois de 36 anos, fez o público sentir nostalgia dos anos 80, e a sensação gostosa de rever um velho amigo. Quando na realidade, com o mundo nesse pé de guerra constante, deve ser mesmo fácil sentir o clima de guerra fria, e para nós brasileiros a inflação galopante e a fome nos traz sim um gostinho do governo Sarney (1985-1990) ainda que Biden esteja mais para Jimmy Carter do que para Ronald Reagan.

No fim, pode parecer doloroso admitir que nós choramos vendo Tom Hanks fingir que está invadindo a Normandia, ou sentir a dor da cidade espanhola de Guernica ao ver a pintura homônima de Picasso. Mas a grande verdade é que essa dissociação é necessária para a construção da nossa humanidade.

Uma obra de arte não é nada mais que o reflexo do interior de outro humano ou outros, é essencialmente uma expressão de humanidade, mesmo na arte sacra estamos em contato com a sincera humanidade de quem esculpe, pinta ou filma, mesmo que seja uma humanidade projetada no divino. No fim, sermos incapacitados pela arte é sim uma forma de libertação, porque no fim a arte está sempre dentro dos limites dessa mesma realidade, moldando e sendo moldada por essa.

Sabiá

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