Quem determina o que é “boa” pesquisa? Uma reflexão sobre o livro Tempestade Ideológica


Apesar de ter ganhado espaço na imprensa tradicional, o livro Tempestade Ideológica comete erros básicos e simplifica a extrema direita nacional.


Pesquisas em Ciências Humanas, principalmente aquelas de natureza exclusivamente teórica, costumam ser preteridas pelo público leigo – e, em períodos de ascensão do reacionarismo, tornam-se especialmente perigosas. Por darem a impressão, para pessoas pouco familiarizadas, de que são guiadas por pouco ou nenhum rigor científico, têm sua legitimidade continuamente questionada, bem como sua utilidade prática.

A percepção de que bastaria a leitura de uma série de livros para que a pessoa produza um novo artigo ou tese leva, por vezes, também à indagação sobre como seriam determinados os critérios ou mesmo se seria possível avaliar objetivamente uma pesquisa desenvolvida em Ciências Humanas. Por esse motivo, é sempre importante ressaltar que o ato de pesquisar e de analisar aspectos subjetivos, relacionados aos fenômenos sociais e ao comportamento humano, não se traduz a um “vale tudo” a partir do qual são produzidas abstrações – algo que tenho lido frequentemente em comentários que tentam diminuir esse tipo de pesquisa. 

Infelizmente, o estereótipo de que quaisquer ideias, interpretações e hipóteses são aceitas, bastando que existam justificativas ou bases ainda que mirabolantes, é ainda recorrente e vem sendo reforçado pelo neoliberalismo utilitário e pela extrema direita. Se o pensamento anticiência é característico do fascismo, no caso das áreas de Humanidades a designação como “ciência” nem sequer é cogitada. 

Tendo passado pela trajetória universitária, acabei desenvolvendo algumas pesquisas em paralelo, e diante da realidade que o Brasil – e o mundo – enfrenta, a partir de 2019 decidi me dedicar a algo que tem sido determinante na política da extrema direita: teorias da conspiração. O maior problema de analisar essa questão está na limitação do material disponível para leitura, que se repete nas informações, análises e, não raro, as trata apenas como “curiosidade” ou algo em que apenas “doidos” acreditam. Em meio às buscas por publicações em português, deparei-me com o livro Tempestade ideológica – Bolsonarismo: A alt-right e o populismo iliberal no Brasil (2021), de Michele Prado.

Quem é Michele Prado? 👇

A pesquisadora baiana Michele Prado ficou famosa após promover seu livro Tempestade ideológica nas redes, em especial no Twitter. Foi assim que Prado conseguiu espaço em grandes veículos de imprensa, entre eles Estadão, Carta Capital, e outros. A obra, no entanto, é contestada por outros pesquisadores, como a renomada Adriana Dias, que pesquisa há 20 anos sobre células neonazistas e da extrema direita no país. Segundo Prado, as contestações não são críticas, mas ataques. Ao site Política Livre, a autora afirmou ter sido ameaçada por grupos bolsonaristas após a publicação do livro.

Chama a atenção a proposta sugerida pelo título, pretendendo-se pioneira na elucidação do bolsonarismo como fenômeno ideológico. Contudo, a obra falha em múltiplos pontos, trazendo um texto simplificado e sem nuances, reunindo uma série de referências que não dão conta da realidade brasileira ou o fazem apenas de forma tangencial. Além de imprecisões, é possível apontar equívocos, ausências conceituais e uma homogeneização simplificada da extrema direita no país, a começar pelo título, que dá a entender que existiria uma “alt-right” nacional – algo que eu chamaria de erro de tradução cultural.

A interdisciplinaridade, em especial, requer um trabalho cuidadoso de curadoria de fontes, exercícios de interpretação e compreensão intra e extratextuais, bem como o estabelecimento de metodologias que deem conta da complexidade proposta. Transitar entre disciplinas e não se ater às “caixinhas” é também uma forma de subverter a rigidez e até mesmo de se contrapor ao insistente tradicionalismo da academia. Ressalto, ainda, que a pesquisa não é uma atividade exclusiva do âmbito acadêmico e que iniciativas independentes podem contribuir profundamente para o entendimento de fenômenos humanos.   

Dos primeiros recortes e superficialidades

O grupo conhecido como alt-right diz respeito a um movimento estadunidense e, embora possa haver semelhanças (inúmeras, às vezes) com segmentos de outros países, a nomenclatura não se aplica. Além disso, os grupos de extrema direita no Brasil associados ao bolsonarismo são anteriores a 2008, quando o chamado movimento alt-right foi propriamente batizado.

Outro aspecto falho encontra-se na afirmação da autora de que o processo de radicalização da direita se deu “inicialmente [sic] apenas no universo on-line, mas, a posteriori, invadindo o espaço físico […]”. A radicalização da direita – tanto brasileira como mundial – é histórica e, desde a criação da rede mundial de computadores, o que ocorre é uma troca constante entre o espaço virtual e o “físico”. Nesse sentido, há uma série de caminhos pelos quais Prado não segue, o que resulta em muitas lacunas nas ligações que pretende estabelecer.

Um exemplo da presença anterior e “física” do processo de radicalização seria o artigo de Michael Minnicino, “New Dark Age: Frankfurt School and ‘Political Correctness’”, publicado em 1992 e citado por Prado como ponto de partida a popularizar as narrativas em torno do “marxismo cultural”. O texto de Minnicino, de fato, é um marco na consolidação da referida teoria conspiratória, contudo, a autora apenas cita que um grande defensor do Larouchismo no Brasil foi Enéas Carneiro, mas não desenvolve como as noções conspiratórias e antissemitas de Lyndon LaRouche já influenciavam conservadores no âmbito nacional. Quanto ao “marxismo cultural”, sua apresentação ao público brasileiro por Olavo de Carvalho não se deu pelas aulas na internet, mas por um artigo publicado em 2002 no jornal O Globo, intitulado “Do marxismo cultural”.

A importância de William S. Lind também não é considerada no livro. O conceito de Guerra de 4ª Geração, desenvolvido pelo paleoconservador a partir dos anos 1980, encontra-se na base desta que irá se tornar a guerra cultural encampada pela direita. Lind escreveu uma série de textos sobre a “destruição do Ocidente” pelo “gramscismo cultural” e tentando descrever quais seriam as origens do “politicamente correto”. 

Rápida digressão

Não foi apenas a difusão de ideias dessa nova direita nas redes sociais o único fator a catapultar Bolsonaro, cujo discurso “pró-família”, anticomunista, racista e homofóbico motivou, inclusive, manifestações a seu favor por parte de neonazistas em 2011. De fato, a professora e pesquisadora Adriana Dias encontrou, em páginas neonazistas brasileiras na internet, uma carta redigida pelo político em 2004, à época deputado federal.

Quanto ao pânico moral causado pelo chamado “kit gay”, destaco como a narrativa da “ideologia de gênero” vinha sendo gestada por Damares Alves pelo menos desde 2009 – salvo engano, naquele ano atuava como assessora parlamentar de Magno Malta –, tendo sido apropriada por Bolsonaro ainda em 2010. A professora Tatiana Lionço, da Universidade de Brasília, chegou a ser vítima da campanha difamatória do gabinete do então deputado ainda em 2012, como narra em seu livro Contra a má-fé: conjurações de uma acadêmica de ação direta (2020). Naquela época, a estratégia de edição de vídeos para despertar a indignação do público com falsas alegações de sexualização de crianças e doutrinação nas escolas já estava sendo empregada por políticos como Bolsonaro, Marco Feliciano e Magno Malta.

Para adentrar nas campanhas difamatórias e no pânico moral que levaram à eleição presidencial de 2018, também seria necessário abordar a contribuição da Igreja Católica – seio da teoria conspiratória da “ideologia de gênero”, inventada graças a um artigo da ativista antiaborto Dale O’Leary de 1997 – na disseminação desse “alerta” aos fiéis. No Brasil, bispos e padres incluíram o tema em seus sermões e ajudaram a criar um cenário bastante propício para que, a partir de 2011, católicos se unissem a evangélicos na batalha contra o “kit gay” e aquilo que acreditavam ser um projeto da esquerda de sexualização precoce das crianças. 

Quanto ao medo promovido pela “doutrinação” em escolas e uma verdadeira cruzada para a demonização de professores, é importante considerar que o Movimento Escola Sem Partido foi criado em 2004 e ganhou maior visibilidade entre 2014 e 2015, quando Flávio Bolsonaro, então deputado estadual no Rio de Janeiro, uniu-se a Miguel Nagib para a criação de um projeto de lei a ser apresentado na Assembleia.

O que se percebe, elencando esse breve histórico, é que setores da direita conservadora já se encontravam mobilizados e encaminhavam-se rumo ao mainstream antes da publicação de O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, de Olavo de Carvalho, em 2013, que se tornou um fenômeno editorial na esteira das manifestações de junho.

De volta ao livro

Também o título Tempestade ideológica mostra uma tradução do título de uma obra organizada por Vladimir Tismăneanu e Bogdan C. Iacob, Ideological Storms: Intellectuals, Dictators, and the Totalitarian Temptation (2019). Não há, contudo, uma referência da “inspiração”, sendo o livro de 2019 brevemente citado em nota de rodapé, entre outras publicações de Tismăneanu.

No Brasil, os textos do cientista político romeno Tismăneanu são pouco conhecidos, mas o controverso acadêmico teve alguns livros publicados no Brasil pela Vide Editorial, cujo editor-chefe, Silvio Grimaldo, é grande defensor de Olavo de Carvalho. Convenientemente, o anticomunismo do ex-comunista romeno é utilizado na construção da teoria de que o fascismo e o nazismo seriam regimes totalitários à esquerda do espectro político – outro tema que mereceria um artigo à parte, por sua complexidade.

Mesmo tendo sido publicado de forma independente, há uma indicação, no verso da folha de rosto, de que o livro teria passado por uma revisão. Contudo, a quantidade de erros ao longo do texto, bem como a ausência de checagem de datas e padronização de fontes, chama a atenção – aqui é o momento de admitir que trabalho como revisora e preparadora textual, então, esse fator pode ser mais incômodo para mim e importar menos para outras pessoas. 

Na página 29, por exemplo, Prado menciona a chegada do Orkut no Brasil em 2005, mas não explica que este foi o ano de lançamento do domínio no país – quando o endereço passou a ter o marcador “.br” –, e que era possível ter acesso à plataforma desde janeiro de 2004. De fato, na segunda metade de 2004, 700 mil usuários brasileiros já estavam cadastrados na rede social. Pode parecer algo desimportante, mas gera confusão quando, na página 30, a autora cita uma comunidade criada em 9 de junho de 2004. Trata-se de uma pequena inconsistência que pode levar à quebra da leitura.

Ainda em relação aos problemas que poderiam ter sido sanados com a revisão, há diversas notas de rodapé com trechos inteiros copiados da Wikipedia sem indicação de fonte.

Sendo evidentemente alinhada com a direita política, a autora acaba não se distanciando desse posicionamento a fim de elaborar reflexões mais complexas e, possivelmente, menos parciais. Do ponto de vista discursivo e ideológico – na verdade, não existe discurso sem ideologia –, a neutralidade não existe, nem mesmo nas pesquisas que se pretendem mais objetivas. Porém, e precisamente por conta dessa ausência, a apresentação de nuances, a consideração de pontos diversos – ainda que pareçam contraditórios – e de aprofundamentos, por mais que pareçam implícitos no texto, é fundamental para se apresentar uma pesquisa. Um excesso de parcialidade acaba por prejudicar o próprio processo de estudo, aumentando os “pontos cegos” que são inevitáveis em qualquer trabalho humano.

Tendo saído da “bolha” da direita em 2018 e publicado o livro em 2021, acredito que o tempo tenha sido um problema na maturação dos estudos, principalmente quando está em jogo a análise de uma temática tão intrincada e repleta de camadas.

Ao iniciar uma pesquisa, não se deve partir de uma conclusão, mas de uma hipótese possível ou não de ser provada e de inúmeras perguntas. A essência de uma pesquisa não é a obrigatoriedade de se achar respostas/conclusões fechadas, mas de: (a) possibilitar a expansão de algum campo; (b) reformular interpretações a partir das evidências e (c) levantar novos questionamentos que dão continuidade ao estudo. O primeiro erro de Prado, então, teria sido apresentar seu primeiro capítulo com uma conclusão: a de que os ânimos tenham se acirrado na política e na sociedade unicamente devido à atuação do Partido dos Trabalhadores. Responsabilizando os governos petistas e o próprio partido pelo surgimento do antipetismo, a autora opta por deixar de lado o papel da grande imprensa na construção e disseminação desse sentimento produzindo um recorte que afeta completamente a reflexão e enviesa a conclusão – a exemplo da publicação, em abril de 2009, de uma suposta ficha criminal de Dilma Rousseff que posteriormente se mostrou falsa. Sua escolha de fontes se limita a declarações de jornalistas também da direita, entusiasticamente antipetistas, de forma a corroborar algo que a autora tem como dado. Assim, a consequência do jogo político – no qual se inclui a ação do PT – somado à atuação da mídia e da burguesia – estimulando o ódio ao partido – é transformada em uma narrativa superficial que coloca apenas a atuação petista como causadora da guinada do país à extrema direita. 

Apesar de indicar, em rodapé da página 32, o artigo “Um álibi para o autoritarismo” (2018), de Moira Weigel, disponibilizado na Revista Serrote, em que a pesquisadora explica a natureza conspiratória das acusações ao “politicamente correto”, Prado incorre na própria estratégia que Weigel busca denunciar, quando fala em movimentos identitários da esquerda. Na página 62, a autora menciona um “[…] crescimento dos movimentos identitários radicais da esquerda que, literalmente, interditam qualquer possibilidade de debate fora do que eles consideravam ‘politicamente correto’”. Em rodapé, reforça acreditar na existência de uma “tendência autoritária em movimentos identitários”, selecionando um livro de Antônio Risério, autor que, entre outras coisas, nega o racismo estrutural. 

A discussão acerca de como grupos ativistas minoritarizados – pelos direitos das mulheres, das pessoas negras, LGBTI+, indígenas etc. – são preteridos dentro da própria esquerda requer um artigo à parte, mas é preciso ressaltar que essas alegações são repletas de falácias e de malabarismos argumentativos que visam à diminuição da importância das lutas pela igualdade de direitos – curiosamente, a alegação de “autoritarismo” parte majoritariamente de homens brancos.

Não definindo o que considera que sejam os referidos “movimentos identitários radicais da esquerda”, Prado coloca Luiz Felipe Pondé e Demétrio Magnoli na posição de meras vítimas, sem levantar nuances e realizando uma generalização a partir de um entendimento superficial do caso que menciona. A autora deixa de apontar o conteúdo do livro de Magnoli por ela citado, contra o qual ativistas do movimento negro se manifestaram. A obra do jornalista realiza uma crítica ao “multiculturalismo” com base em ideias que, ao fim e ao cabo, revela sua crença no “globalismo” e em estratégias de dominação mundial que se traduzem nas ações afirmativas, como a de políticas de cotas em universidades. A hipótese de Magnoli de que essas políticas, bem como a atuação do movimento negro, seriam reforçadoras do racismo faz uma inversão em que responsabiliza grupos oprimidos por sua própria segregação. Trata-se da transformação de efeito em causa, com vistas a invalidar a necessidade da luta antirracista como promovida pelo movimento de pessoas pretas.

Uma vez que não define o conceito de “movimentos identitários de esquerda”, a autora deixa em aberto uma expressão que irá utilizar, mais adiante no livro, em outro contexto. Na página 77, em uma nota de rodapé, indica que o movimento identitário europeu faz oposição ao multiculturalismo, à globalização e à imigração, mas não desenvolve o papel do grupo, supremacista em sua essência, na radicalização da direita europeia. Na página 87, então, faz uma menção a “movimentos europeus identitários”, sem delimitar quais sejam ao longo do texto. Por essa ausência de conceituação adequada, acaba dando margem para um entendimento de que ambos os movimentos (de esquerda e de direita) estejam relacionados como diametralmente opostos, uma falsa simetria perigosa.

Quando falamos em identidade, não falamos em autoritarismo

Não pretendo, aqui, elaborar em sua real complexidade a questão das identidades, nem traçar um histórico dos movimentos. Para compreender melhor a questão identitária, sugiro a leitura da entrevista concedida pela socióloga Flávia Rios a Paula Miraglia, “Discurso sobre identitarismo é simplificador” (2022). 

Minha intenção é apenas a de estabelecer uma diferenciação basilar para se pensar a brutal diferença entre o significado de “identidade” no âmbito do ativismo minoritarizado e o identitarianismo, este sim, ligado ao autoritarismo e à extrema direita – em tempo, opto pelo termo “identitarianismo” devido à denominação, em inglês, “identitarianism”, na tentativa de discernir a ideologia extremista.

Os movimentos ligados ao campo progressista, que têm como base identidades historicamente excluídas e, não raro, violentadas pela sociedade branca patriarcal, são pautados na busca por igualdade de direitos e oportunidades. As identidades que definem os grupos são, na verdade, uma estratégia de aliança a partir de pontos em comum que fazem com que essas pessoas sejam oprimidas e discriminadas por traços transformados em características determinantes de quem esses indivíduos são. 

Foi a sociedade, por meio de uma ciência produzida com fins específicos, que impôs, sobre pessoas de peles escuras, a noção de raça que levaria à identidade negra. O racismo é uma invenção de pessoas brancas, não o contrário. O que o movimento de pessoas negras fez e faz, hoje, é se apropriar da imposição classificatória passada e utilizar a referida identidade como ponto de união do grupo em torno de vivências, demandas e necessidades. 

A ideia de que a mulher seria um “outro sexo” também foi elaborada a partir de uma ciência conduzida por homens. O modelo de dimorfismo sexual fixo como o conhecemos atualmente apenas se consolidou no fim do século XVIII, conforme explica Thomas Laqueur (2001). O uso dessas diferenças biológicas para impor uma política que exclui e inferioriza mulheres é o que justifica a necessidade do surgimento de movimentos feministas. Mais uma vez, a imposição de uma identidade a partir de traços físicos partiu de uma elite masculina branca, e não das mulheres.

Também a transformação de comportamentos sexuais em identidade se deu com a medicalização dos corpos e das sexualidades. A noção de homossexualidade e de transexualidade como doenças, distúrbios ou perversão foi também inventada por uma ciência conduzida por homens, com o objetivo de ratificar e institucionalizar a família heterossexual – precisamente aquela que, ao gerar filhos, produz a mão de obra. A imposição das identidades, novamente, partiu de um grupo dominante com um interesse evidente. O movimento LGBTI+ também se apropriou dessas classificações transformadas em identidade a fim de reunir um grupo com demandas em comum.

As pautas desses movimentos identitários, reforço, estão ligadas à busca por direitos – muitas vezes básicos – que, para pessoas não pertencentes aos referidos grupos, são devidamente garantidos. Isso inclui o próprio direito à fala. 

Não foi só Olavo de Carvalho

Mesmo buscando se mostrar como alguém que deixou a “bolha” da direita radicalizada, a autora demonstra certa reverência a Olavo de Carvalho como intelectual, a quem define como “[…] ensaísta e filósofo autodidata […]”.

Há um trecho em que descreve o astrólogo como um indivíduo com “[…] vasta bagagem cultural e intelectual, conhecimento em programação neurolinguística […]”, validando a ideia de que ele teria, por meio da PNL – uma pseudociência –, promovido uma espécie de hipnose de seus alunos. Os mecanismos envolvidos na criação de uma seita em torno de Olavo de Carvalho não estão associados à sua “bagagem intelectual”, uma vez que o autodeclarado professor promovia interpretações erradas de filósofos cujas obras alegava ter lido, bem como simplificações e distorções a fim de se adequarem às suas crenças. A alegação de que o guru seria bem-sucedido na excessiva fidelização de seus seguidores devido às técnicas de PNL tira, em certa medida, a agência e responsabilidade daqueles que propagam suas ideias, como se suas tendências fascistas tivessem sido implantadas pelo astrólogo. 

Olavo de Carvalho não teria conseguido tamanha penetração se não houvesse uma identificação prévia com aquilo que o professor João Cezar de Castro Rocha chama “sistema de crenças”. 

Tendo abordado, no início deste artigo, a famigerada “ideologia de gênero” e sua ligação com o catolicismo, acredito ser importante trazer à tona outro aspecto não explorado no livro de Prado, mas que, em sua conexão com Olavo de Carvalho – e tirando proveito de sua visibilidade –, exerceu também papel fundamental na radicalização da direita: o ultracatolicismo ou catolicismo tradicionalista

Estudando sobre a “ideologia de gênero” desde 2013, deparei-me com o nome de Jorge Scala, advogado argentino autor do livro Ideologia de gênero – O neototalitarismo e a morte da família, uma espécie de Bíblia dessa teoria conspiratória. A seguir, reproduzo um trecho de texto que publiquei sobre o advogado e ativista ligado à Opus Dei:

Em 4 de novembro de 2011, Jorge Scala esteve no Brasil e deu uma palestra no II Congresso Internacional pela Verdade e pela Vida, no Mosteiro de São Bento, em São Paulo. O evento foi promovido pela Human Life International, organização católica anti-aborto [sic] sediada nos Estados Unidos, com associados em mais de 80 países.

Na ocasião, concedeu uma entrevista à página Canção Nova, na qual alerta para os perigos de homens e mulheres poderem ‘criar o próprio gênero’, o que colocaria todas as ‘opções [de relacionamento]’ na mesma condição do matrimônio. Como resultado, ‘acaba-se por destruir a sociedade, porque já não há mais célula básica’, que seria a família tradicional. Para impedir os avanços da ideologia de gênero, segundo Scala, cabe ao cristão ‘fazer a denúncia profética’ desse suposto regime ditatorial que se deseja impor.

Também em 2011, o canal do YouTube da organização espanhola HazteOir publicou um vídeo intitulado Jorge Scala: ‘El lobby homosexual quiere cambiar las pautas morales de la sociedade.’, com um longo texto na descrição em que se argumenta que as leis contra a discriminação por sexo, sexualidade ou gênero seriam uma tática para fomentar publicamente um comportamento que deveria se limitar ao privado. Assim, o objetivo seria, como diz o título, mudar as pautas morais da sociedade.


Por que Jorge Scala importa tanto?

Segundo apuração da Agência Pública, o ativista argentino tem falado sobre o Brasil como ponto estratégico de influência há pelo menos uma década. Retorno a meu texto: “Em 2012, durante o VI Congresso Mundial de Famílias, organizado pela HazteOir em Madrid, redigiu-se uma ata final em que Brasil, México, Colômbia e Argentina foram definidos como países-chave por serem ‘mais populosos e influenciadores’. De acordo com uma matéria da Pública, Jorge Scala ofereceu uma palestra no evento, na qual abordou como deveria ser a atuação dos ativistas em cada país, acrescentando que, no Brasil, o Judiciário Federal parecia ser o ponto central em que precisavam focar”.

A narrativa de que as pautas feministas “pró-aborto” seriam financiadas por interesses internacionais é algo que Scala dissemina desde a década de 90, tendo publicado um livro, em 1996, intitulado IPPF, a multinacional da morte – a sigla se refere a International Family Planning Perspectives, um periódico dedicado à saúde sexual e reprodutiva que publica pesquisas acerca de gravidez na adolescência, fertilidade, contracepção etc.

O representante da plataforma espanhola HazteOir no Brasil é Guilherme Ferreira Araújo, ligado ao Centro Dom Bosco, uma instituição tradicionalista que conta com o apoio – e com as palestras sobre globalismo e outras teorias da conspiração – de Bernardo Küster e da deputada federal Chris Tonietto (PSL/RJ), principal defensora da pauta antiaborto na Câmara.

Em 2013, Ignacio Arsuaga esteve no Brasil, palestrando no mesmo Mosteiro de São Bento em que Scala se apresentou em 2011. O fundador do HazteOir falou sobre como promover a guerra cultural a partir da criação de uma organização social capaz de captar recursos, fazer lobby (algo em que a instituição se tornou notória desde 2004, em oposição às políticas do governo de José Luis Rodríguez Zapatero, na Espanha) e usar as redes sociais para sua propaganda. Arsuaga teve contato com as estratégias de ativismo online ainda no fim dos anos 1990, quando estudou em Nova York, na Fordham Law School.

Também na Europa manteve-se atuante a TFP – Tradição, Família e Propriedade, garantindo o financiamento de ações antiaborto – contra os direitos reprodutivos –, LGBTIfóbicas e contra a “ideologia de gênero”. 

Em 2011, outra figura que merece atenção se torna mais visível no cenário da radicalização da direita por vias católicas: Padre Paulo Ricardo de Azevedo Junior. Naquele ano, o Padre Paulo Ricardo publicou, no YouTube, um curso sobre o “marxismo cultural”, composto de seis vídeos. Posteriormente, Paulo Ricardo ficou mais conhecido por ter sido tutor de Allan dos Santos, chegando a nutrir uma amizade com Olavo de Carvalho. Apesar de utilizar as redes sociais para ampliar o alcance de seus “ensinamentos”, o padre, pela própria natureza de seu trabalho, merece atenção por ter uma plataforma presencial em suas missas. Como expliquei anteriormente, os sermões católicos foram uma ferramenta de disseminação do pânico moral entre fiéis, sentimento gestado pela Igreja Católica desde os anos 90.

Siga o dinheiro

Somente na página 209 há uma citação, por Prado, das ações de organizações como a Heritage Foundations e a John Birch Society (JBS), referente ao homeschooling e a criação de suas próprias instituições educacionais. A atuação dessas fundações há décadas se volta para minar os movimentos sociais, promover a desconfiança nas instituições de Estado e financiar um ativismo de ultradireita a partir do mote de ser “liberal na economia e conservador nos costumes”. 

A JBS, por exemplo, foi criada em 1958, tendo Fred C. Koch entre seus membros fundadores. Charles Koch foi também bastante ativo na organização, auxiliando inclusive no ataque promovido pela JBS a Martin Luther King e aos movimentos pelos direitos civis nos E.U.A. Até os dias de hoje, trabalha na defesa do homeschooling e na disseminação do cristianismo tradicionalista, tendo se aliado ao governo Trump.

Sob a alegação de defesa da liberdade – palavra usada à exaustão para justificar suas crenças –, apegam-se a valores como o da privatização generalizada, como explica a pesquisadora em educação Carolina Rieger Massetti Schiavon: “Como pensam e agem pela primazia da propriedade, partem da ideia de que o corpo é a nossa primeira propriedade e daí derivam seu axioma, de que o individualismo e a propriedade capitalista é fundada pela natureza ou por Deus. E a partir dessa ideia são disseminados os valores contrários aos movimentos sociais com seus interesses coletivos e comunitários. Pregam esse espírito de pureza do elemento individual que não se deixa levar pelo fracasso das utopias”.

Os chamados libertários têm financiado, há décadas, organizações, think tanks, departamentos de pesquisa e bolsas de estudo mascaradas como filantropia, a fim de promover suas ideias. 

Na década de 1970, a Mont Pelerin Society – que teve como fundadores Friedrich Hayek, Ludwig von Mises, Milton Friedman, Frank Knight, George Stigler e Karl Popper – foi responsável pelo projeto econômico instaurado no Chile por Pinochet. Os chamados Chicago Boys, que formularam essa política econômica da ditadura chilena, foram alunos de Milton Friedman e Frank Knight na Universidade de Chicago. 

Embora a denominação “Chicago Boy” fosse inicialmente para se referir a um grupo de economistas chilenos, a nomenclatura posteriormente passou a indicar economistas que se formaram na Universidade e que seguem a mesma ideologia econômica. Entre esses indivíduos está Paulo Guedes, que deu aulas na Universidade do Chile durante a ditadura.

Friedrich Hayek chegou a defender uma “ditadura transicional” para garantir a posterior implementação de uma economia neoliberal privatista (SCHIAVON, 2020). Como explica Naomi Klein, em The Shock Doctrine (2007), cenários de desastre são propícios para a imposição desse tipo de economia, uma vez que promovem insegurança e desorientação na população. Assim, não há resistência para a implementação de políticas impopulares – a exemplo de como, no Chile, isso significou deterioração dos salários, reforma previdenciária, a qual até hoje prejudica idosos, entre outros problemas.

As fundações que recebem doações de bilionários como os irmãos Koch – Charles Koch, o mesmo que atuou na JBS, e David Koch – estiveram e ainda estão por trás da radicalização da direita na América Latina, financiando institutos e grupos de ação política. No Brasil, a Atlas Network, rede mantida por grupos e indivíduos da direita estadunidense – inclusive com grandes doações dos irmãos Koch –, dá apoio a diversas organizações parceiras, as quais, em comum, defendem a economia liberal aos moldes libertarianos e propagam teorias conspiratórias como a do globalismo, do “marxismo cultural”, da “ditadura do politicamente correto” e o pânico moral atrelado a uma suposta doutrinação nas escolas. 

A Students For Liberty (SFL) é parte da rede Atlas e sua filial brasileira, Estudantes Pela Liberdade (EPL), contou com a atuação de jovens que, na onda das Jornadas de Junho de 2013, formariam o MBL (Movimento Brasil Livre). A Atlas Network é parceira também do Instituto Liberal e do Instituto Mises Brasil, ambos ávidos defensores da política econômica de Paulo Guedes e, como é possível verificar em múltiplos artigos publicados em suas páginas, com membros apoiadores de Jair Bolsonaro. Grande parte das narrativas conspiratórias que levaram à radicalização da direita estão presentes também nos textos divulgados por esses Institutos, que fazem reverência a Murray Rothbard e a Ludwig Von Mises, citados no próprio livro de Prado como paleolibertários. Com alta intensidade de conteúdo diário, além de cursos e livros que alcançam um público amplo.

Entre os colunistas do Instituto Liberal está Flávio Morgenstern, olavista – que acredita que o nazismo foi um regime de esquerda – e editor-chefe da página Senso Incomum, na qual escreve também Filipe G. Martins, conforme apontado por Prado na página 133. Essa ligação me leva, então, ao prefácio do livro Tempestade ideológica e à questão apontada por mim no início deste artigo, dos riscos de uma falta de distanciamento e da parcialidade excessiva que acarreta em “pontos cegos”. Isto porque Josesito Moura do Amaral Padilha Junior é quem assina o prefácio e que, como Prado registra em seus agradecimentos, ofereceu a ela “praticamente toda a bibliografia”, a auxiliou no entendimento do bolsonarismo, numa relação de “muitas noites e dias, muitas conversas, muitos insights compartilhados e uma generosidade em difundir conhecimento […]”.

Padilha Junior é livreiro, bibliógrafo e diretor financeiro do Instituto Liberal Nordeste. Fundado em 2013, o Instituto “[…] conta com apoio da rede Estudantes Pela Liberdade (EPL), do Instituto Mises Brasil (IMB) e do Instituto Liberal do Rio de Janeiro (IL)”, segundo texto de seu fundador, Rodrigo Saraiva Marinho, publicado na página do IL. 

Por sua afiliação, é de se esperar que Padilha Junior faça uma seleção bibliográfica que não contemple o papel chave da Atlas Network e de seus parceiros na radicalização da direita que levou ao poder um governo antidemocrático. A proposta de trazer um panorama daquilo que Prado optou por classificar como “tempestade ideológica” precisaria cobrir essa dimensão, na medida em que seu recorte inclui muitos dos efeitos diretos da atuação dessa rede, mas não expõe uma de suas principais causas.


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