Diante de todos os conflitos internacionais que estão acontecendo atualmente, é de urgência olhar para as vítimas das guerras e dos conflitos armados, feridos fisicamente e/ou emocionalmente, muitas vezes esquecidos e inferiorizados. Com a guerra, a dominação do corpo feminino dos adversários como forma de conquista, posse e poder é utilizado como arma; o estupro de guerra passa a ser um mecanismo de repressão nos territórios conquistados e, consequentemente, marcam as vítimas com feridas históricas que, muitas vezes, são esquecidas sem uma reparação digna.

Para ter conhecimento, o estupro sistemático como ferramenta de guerra infelizmente é muito utilizado, tendo grande impacto na Segunda Guerra Mundial com as terríveis Estações das Mulheres de Conforto, e no Genocídio em Ruanda em 1994, com tentativa de exterminar as gerações tutsis. 

Denominavam-se Mulheres de Conforto, na Segunda Guerra, as escravas sexuais que foram obrigadas a satisfazer os soldados japoneses. Em 1910, o Japão anexou o território da Coreia como colônia. Dessa perspectiva, as jovens moças coreanas eram convocadas a deixar suas famílias com intuito de trabalharem em fábricas, porém eram enganadas pelo próprio departamento japonês para participar das Estações situadas pela China, Indonésia e Filipinas — países dominados pelas tropas japonesas.

Há relatos das ex-Mulheres de Conforto que afirmam terem sido violentadas, em média, por 30 homens por dia, além das violências físicas caso não fossem obedientes. Esses bordéis logo foram desfeitos com o fim da Segunda Guerra, e as Mulheres de Conforto estavam livres; porém, muitas dessas escravas sexuais traumatizadas foram silenciadas pela vergonha da exposição e pelo sistema patriarcal conservador, ainda muito presente na Coreia.

Sobreviventes do terror

Como forma de lutar pelos Direitos Humanos, as sobreviventes viraram ativistas contra o tráfico sexual, expondo ao mundo as violências cometidas e a necessidade de uma reparação histórica.

Em 1945, o Tribunal de Nuremberg sentenciou os nazistas por todos os crimes cometidos e por infringir os Direitos Humanos. Acontece que o estupro de guerra não foi considerado na época pelo Direito Internacional. É triste afirmar que não foi nem discutido em suas pautas as atrocidades do estupro sistemático ocorridos na Segunda Guerra Mundial. 

Assim, as poucas sobreviventes lutaram por décadas, sendo a última tentativa em 2016, com a entrada de processo para reparar os danos. Apesar disso, devido às idades das vítimas, a demora de uma solução só deixa escancarada a falta de solução para essas idosas, acarretando no esquecimento da luta contra o Sistema de Conforto após suas mortes. Infelizmente, o processo foi finalizado definitivamente em 2021, com a perda das Ex-Mulheres de Conforto contra o Japão. 

Entretanto, as histórias das vítimas continuam presentes nos relatos expostos para o mundo. Entre esses relatos, o documentário “Meu nome é Kim Bok Dong” expõe a ativista ex-Mulher de Conforto Kim Bok Dong, falecida em 2019, a qual abre suas feridas para abordar essas atrocidades. Sua última entrevista foi pelo Asian Boss – Vida como uma “Mulher de Conforto”: História de Kim Bok-Dong.

Além disso, a Hq “Grama” de Keum Suk Gendry-Kim por meio de graphic novel retrata as feridas da sua avó Ok-sun Lee que aborda as adversidades dentro das Estações e da reconstrução da sua vida pós-guerra com todo estigma e preconceito envolvendo essas mulheres. 

Por fim, o dia 14 de Agosto virou uma data memorial por ser o primeiro relato das feridas históricas expostas por Kim Han Sook, levando a uma consciencialização sobre um problema que nunca foi resolvido.