Fui ao cinema

Fui ao cinema e tive uma experiência horrível. Primeiro porque o filme era uma porcaria e, segundo, porque eu não queria estar ali. 

Acontece que eu trabalho em uma espécie de agência publicitária que fica dentro de uma startup (vai vendo onde eu me meti para conseguir pagar minhas contas e me dar ao luxo de ter uma bicicleta maneira), e o filme de uma das nossas mais recentes campanhas está sendo veiculado em alguns cinemas de São Paulo. As salas escolhidas são salas premium, ou seja, salas para ricos, dentro de shoppings para ricos, desses que você não consegue acessar a pé – é verdade: tem shopping em São Paulo onde é impossível entrar se você é pedestre, e é justamente aí que estão veiculando a propaganda cujo roteiro é assinado por este que vos escreve.  Pelo menos não tive que desembolsar os oitenta reais do ingresso – sim, oitenta reais, já que a sala é exclusiva e tem poucos lugares, para gente realmente diferenciada, selecionadíssima. É por isso que eu não queria estar ali, mas, diante de um compromisso “profissional” e acompanhado por alguns quantos(as) colegas, não tive como dizer “foda-se esta merda”. Enfim, continuemos com o que interessa. 

Com a justificativa de ver a propaganda na telona, acabei assistindo “Elvis”, do diretor Baz Luhrmann, e o filme é uma porcaria porque parece que foi feito única e exclusivamente para que o “rei” do rock conquiste admiradores entre a desgraçada geração Z. Além de não ser fiel – nem de perto! – à vida de Elvis, a cinebiografia se arrasta por quase três horas e conta com uma atuação sofrível de Austin Butler, que parece estar interpretando o tempo inteiro, sem qualquer naturalidade. Mas a boa notícia é que o tiro parece estar saindo pela culatra. Li por aí que no TikTok estão circulando vídeos e mais vídeos que retratam Elvis como ele realmente era: uma pessoa que se apropriou de elementos da cultura negra para conquistar fama e um pedófilo, já que quando conheceu Priscila, sua esposa, ela tinha quatorze anos de idade (ele, vinte e quatro).

Não é a primeira vez que “cancelam” Elvis, ao contrário do que pode acreditar a abjeta geração Z. Contudo, a situação tem, sim, sua graça. Até porque o que o filme faz é prestar um desserviço à história da música e também à inteligência de quem se interessa minimamente pelo assunto. Importante: a ótima maquiagem de Tom Hanks, que interpreta o coronel Tom Parker, não é suficiente para sequer tentar salvar essa porcaria de filme. Meus colegas que trabalham na pós-produção (edição, colorização, renderização e afins), porém, disseram que a montagem de “Elvis” é muito boa e tenho que concordar que as transições entre cenas são todas muito pertinentes, mas o filme como um todo continua sendo uma porcaria. Moral da história: não assistam “Elvis”, não sejam publicitários, não trabalhem em startups e não frequentem lugares onde pedestres não são bem-vindos.



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