Os 45 do segundo tempo das eleições 2022


Apesar de seus fracos índices de aprovação nacional, Bolsonaro manteve uma base dedicada de cerca de 30% dos eleitores, muitos dos quais vivem em regiões de alta concentração de renda e ainda se opõem efusivamente ao retorno de Lula.


Estamos a 45 dias da eleição geral, realizada no dia 2 de outubro. Faltando tão pouco tempo, o ex-presidente e figura imponente do Partido dos Trabalhadores (PT), Luís Inácio Lula da Silva, é considerado o favorito para derrotar o atual presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro.

Lula, que foi presidente de 2002 a 2010, ainda goza da alta popularidade, principalmente no nordeste do Brasil. Quando concorreu à reeleição em 2018, antes de ser preso pela Operação Lava-Jato, o ex-metalúrgico construiu sua campanha a partir dos resultados positivos de seus mandatos anteriores com o slogan “O Brasil Feliz de Novo”. Lula já teve, até o momento, 26 processos anulados.

Nos quatro anos desde que Bolsonaro foi eleito, a sociedade brasileira foi impactada de forma drástica. Seu manejo catastrófico da pandemia da COVID-19 fez do Brasil o segundo país mais enlutado do mundo, com mais de meio milhão de mortes. O desmatamento, a normalização do garimpo e extração ilegal de recursos em territórios indígenas atingiram níveis recordes durante seu mandato. A hostilidade de Bolsonaro ao Judiciário e seu clientelismo, militarismo e nepotismo enfraqueceram permanentemente a já fragmentada democracia brasileira.

Segundo a professora da Universidade Federal de São Carlos, Maria do Socorro Braga, “Bolsonaro está enfrentando um grande desafio para se reeleger e uma explicação é a inflação e a economia. As pessoas sentem isso no bolso, nas compras e na qualidade de vida”. Para a professora, o mal-estar econômico é visível. “Nos últimos dois anos, São Paulo registrou um salto de 30% (para quase 32.000) no número de pessoas vivendo na rua. Praças públicas inteiras são ocupadas por moradores de rua”, complementou.

Na esteira da contagem regressiva para a eleição, é importante revisitar os principais desafios que Lula e a nova frente ampla democrática enfrentam no período que antecede uma eleição que será decisiva para um país que perdeu prestígio internacional desde que Bolsonaro chegou ao poder.

Perda da base eleitoral

O Partido dos Trabalhadores agora é profundamente dependente de seus líderes nacionais, incluindo Lula, que, aos 76 anos, está concorrendo em sua sétima campanha presidencial. Embora o Partido dos Trabalhadores ainda tenha um bom desempenho ao nível nacional (com cinco qualificações para segundo turno, incluindo quatro vitórias nas eleições presidenciais desde 2002) e continue sendo a principal força de oposição ao governo, o partido viu sua base local se desgastar desde 2016.

Nas eleições de outubro de 2016, o Partido dos Trabalhadores conquistou 254 municípios, ante 644 em 2012. Em 2020, o partido conquistou apenas 183 municípios e nenhuma capital estadual, a primeira desde o fim do regime militar em 1985. Diante da perda de sua presença local, o Partido dos Trabalhadores, cada vez mais centralizado em torno de seus dirigentes, não parece mais estar se reconstruindo de baixo para cima ou renovando sua administração e sua base de apoio.

Reprodução: Financial Times/Getty Images.
Estratégia conciliadora

Do lado oposto, o presidente Bolsonaro viu seu índice de aprovação cair para 19% no final de novembro de 2021, principalmente por causa de sua gestão catastrófica na Pandemia da COVID-19.

Durante o mês de janeiro de 2022, com a estabilização da pandemia, as intenções de voto aumentaram lentamente a favor de Bolsonaro. Ainda que o atual presidente tenha que lidar com as consequências da crise em curso, em especial o aumento dos preços de alimentos, a margem entre Bolsonaro e Lula vem se estreitando.

Porém, na onda da distribuição de emendas parlamentares após a aprovação da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) – em maioria pelo polo governista na Câmara dos Deputados – o chamado “Orçamento Secreto” abriu brecha para a extensão do programa Auxílio Brasil de R$600, medida usada para conquistar votos dos mais pobres. O impacto eleitoral da campanha de reeleição de Bolsonaro foi sentido nas últimas pesquisas para presidente, e ainda que haja oscilação na margem de erro, Lula segue com seu teto de votos.

No entanto, apesar de uma vantagem aparentemente confortável nas pesquisas 1 mês e meio antes das eleições, a vitória de Lula está longe de ser garantida. Para manter sua liderança, o ex-presidente terá que manter a consolidação de uma aliança heterogênea e constituir uma frente verdadeiramente democrática ao seu redor, capaz de responder a um candidato que critica publicamente os próprios processos eleitorais e democráticos.

A reconstrução do país vai depender da renovação administrativa na Câmara e no Senado Federal, buscando eleger deputados e senadores alinhados com a frente democrática eleita para os próximos anos.

Propensão golpista

Durante quatro anos, Bolsonaro atacou implacavelmente o sistema de votação eletrônica do Brasil, que ele afirma que pode ser “facilmente hackeado” e “não pode ser auditado”. Essas alegações foram repetidamente desmentidas pelo próprio TSE, bem como por outras partes envolvidas, como especialistas da Polícia Federal e por militares nos anos anteriores à ascensão de Bolsonaro ao poder. As pesquisas também mostraram repetidamente que a grande maioria dos brasileiros rejeita as alegações do presidente.

O Estado de S. Paulo revelou que os principais membros do gabinete de Bolsonaro, liderados pelo Chefe de Gabinete Ciro Nogueira, estiveram pressionando o atual presidente do TSE, Alexandre de Moraes, para endossar a votação paralela organizada às pressas por uma ala de militares aliados à Bolsonaro.

O relatório também revelou que responsáveis pela campanha de Bolsonaro seguiram ameaçando o TSE, afirmando que “uma única mensagem no WhatsApp” nos grupos do presidente poderia desencadear ‘ofensiva’ como a vista na invasão do Capitólio nos EUA, em 6 de janeiro, declarando efetivamente o tribunal um alvo legítimo se houver a recusa de se curvar a Bolsonaro.

Em contraste com esses perigos crescentes, que não têm precedentes desde o fim da ditadura militar, a mídia tradicional e a oposição parlamentar liderada pelo PT, deliberadamente minimizaram, por algum tempo, a ameaça representada pelo núcleo da extrema-direita atuante nas redes sociais.

A partir dessa conjuntura, o cenário após as eleições não está totalmente claro. Todas as possibilidades estão abertas, desde uma vitória direta de Lula no primeiro turno, seguida de uma transição democrática regular apoiada pela maioria no Congresso, militares e no Supremo; a um desfecho muito conflituoso ou até trágico, incluindo chances de atentado à vida de Lula.

Vemos Bolsonaro muitas vezes afirmar que “Deus o colocou na presidência”, e ele regularmente diz que “somente Deus pode tirá-lo dali”. Essa retórica, combinada com seu questionamento implacável ao sistema de votação e aos tribunais eleitorais do Brasil, que gerou temores de que ele não deixará o cargo se perder em outubro.


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