A fuga das almas infantis

Para muitos, a infância é um dos melhores momentos da vida, que passa tão rápido que só deixam memórias de um tempo feliz e sem muitas preocupações. Memórias essas de saídas, festas de aniversários, comidas, e momentos em família que aquecem a alma adulta sucateada pelo tempo, e desestimulada por ele constantemente. 

A ideia de tempo, nesse sentido, também está atrelado à ideia de inocência. Me parece que os dois andam em caminhos opostos e paralelos, que não se cruzam em nenhum ponto, desde o seu início ao fim. Pois à medida que o tempo passa, a inocência carece em cada ser, pelas dificuldades cotidianas, pelos problemas psíquicos, pela falta de afeto familiar ou pelos milhares de motivos pelo qual a inocência de uma criança não é a mesma que a de um adulto. 

Por isso, pensar sobre a infância e em como ela foi fundamental para quem somos hoje, seja em qualidades ou em defeitos, diz muito sobre como lidamos conosco e com o mundo em que vivemos. Diz muito sobre como o ambiente familiar, escolar e social onde a criança está submersa influencia diretamente na sua formação. 

Nesse sentido, o propósito deste pequeno ensaio é incitar e atribuir a devida importância do processo infantil para formação do ser para além do senso comum, não o desqualificando, mas com a intenção de mostrar muito mais sobre o processo cognitivo e psíquico de uma criança. 

Vínculo e o espelho quebrado 

A forma como vemos uma figura próxima a nós, como a paternidade, costuma intervir na forma como enxergamos as ações daquela pessoa, e como as influências dela se tornam presentes em alguma parte de nós. Nesse sentido, quando a criança pensa em uma figura paterna como o seu grande herói, um vínculo é estabelecido pelas pequenas ações que essa imagem cria, seja uma imagem de exemplo, ou de consagração. Segundo

Muniz Sodré, essa ideia de vínculo parte inicialmente da comunicação, e em como ela constitui o primeiro momento em que atribuímos credibilidade a algo ou a alguém, sem nos importarmos com a veracidade da informação transmitida pelo canal. 

Para uma criança, é muito difícil colocá-la no lugar do ser em que consegue diferenciar a verdade da mentira. Então o vínculo citado por Sodré fica no campo da credibilidade como ferramenta de apreciação. Ela é estabelecida desde os momentos iniciais do nascimento, e permanece na maioria até a adolescência. E nessa perspectiva, é importante citar em como a tecnologia e a chamada “rapidez do mundo” interfere diretamente nesse vínculo paternal e familiar. 

Por isso, depositar a responsabilidade direta no avanço da tecnologia acaba por isentar ou colocar em segundo plano a responsabilidade familiar perante o desenvolvimento infantil. E escrever sobre isso pode deixar muitas coisas vagas, uma vez que a ideia de família pode ser muito ampla, pessoal, um organismo vivo. Ainda assim, não desqualifica a análise, pois a ideia do não pensamento faz com que pequenas situações como essa sejam perpetuadas e normalizadas na malha social. 

Dessa maneira, a ação de atribuir à tecnologia o papel de educar, informar, e ensinar as crianças durante o seu desenvolvimento modifica a noção de cuidado familiar ideal. Já que os miúdos são submetidos a janelas virtuais diversas, criando vínculos com pessoas presentes no mundo virtual, e “esquecendo” a realidade e o aproveitamento da interação física com o seu ambiente durante a infância, além da dificuldade em lidar com seus sentimentos presentes e futuros pela interferência da mídia. 

A raiva e o ódio são um afeto. A mídia neutraliza também as velhas tensões comunitárias afetivamente. Mas o modo de nos aproximar de nós é pela emoção, pela sensação, que diz respeito ao entretenimento, ao espetáculo e também ao próprio conhecimento que os bytes e os dígitos nos dão.
Muniz Sodré, Revista Pesquisa

Logo, o deslumbramento com as mídias sociais provoca no infanto a fuga da realidade, o distanciamento do real e a falta de conhecimento sobre o seu eu infantil, sobre os seus sentimentos e sobre a distorção do certo e errado a partir da sua exposição na mídia, seja pelo acesso ao conteúdo em plataformas midiaticas, como o instagram ou com as trends do TikTok. A internet, nessa ótica, substitui o afeto e o vínculo parental, cada vez mais frágil, com a exposição dessas crianças na internet, tornando o vínculo e a infância um espelho quebrado com o passar dos anos. Pois é de conhecimento de todos que a infância não volta, por mais que queiramos, e as mágoas ou traumas deixados nela, tem implicações diretas para os indivíduos que somos hoje. 

Mindset e a educação 

Para a ph.D Carol Dweck, em seu livro “Mindset: a nova psicologia do sucesso”, o mindset, ou seja, a crença de si mesmo, interfere diretamente nos comportamentos e na forma como lidamos com o que está ao nosso redor. Isto posto, é importante ressaltar que esse estudo está profundamente ligado a psicologia e a neurociência, avaliando e buscando entender o fato de como somos tão diferentes em comportamento a partir de uma mesma situação. 

Nessa perspectiva, o estudo não poderia ser produzido a partir da fase adulta de uma pessoa, já que diz respeito ao íntimo, as vivências e a conduta na sociedade, então a infância, nesse recorte, passou a ser o seu ponto de partida. “Como somos tão diferentes ao enfrentar uma mesma dificuldade?” Foi uma das perguntas mais simples e intrigantes que passei a pensar quando li o segundo capítulo desse livro e admito que a autora me ajudou a

tentar encontrar uma resposta e ela está sendo feita a partir desse ensaio, mesmo que seja apenas o início. 

Caleb Woods, Unsplash

O fato de que para Locke, protagonista do empirismo, todo conhecimento e aprendizagem decorre da experiência e que o homem é uma folha em branco, pronto para ser pintado e preenchido pelas vivências nos mostra como pensamos que isso é o suficiente para se pensar a infância. Pensando em como as crianças podem ser uma folha em branco, sem pensamentos e sem gostos, prontos para serem pintados e preenchidos por aquele que tem mais experiência. 

Até certo ponto, essa ideia pode funcionar, mas ela não é determinante o suficiente para resumir toda a infância e todo o processo educacional. É importante se pensar que cada pessoa, desde a infância, aprende e processa as situações e acontecimentos de maneira única, e as dificuldades vivenciadas por ela produz em cada indivíduo uma forma de lidar com o mundo externo. 

Entretanto, também é importante observar que esse processo dificilmente acontece de maneira isolada. A educação escolar, por exemplo, contribui para que a crença de si mesmo, ou o mindset, permaneça em estado fixo ou em crescimento a partir das vivências provocadas em sala de aula. O sistema educacional brasileiro, nessa ótica, opta por avaliar as crianças no ensino fundamental primário a partir de atividades que desenvolvem o senso cognitivo e prático dos alunos. Porém, a ênfase do desenvolvimento de crianças extrovertidas prevalece sobre os mais tímidos desde o início. 

Essa ideia de educação, em muitos casos, prevalece até o ensino fundamental II e o ensino médio, como uma consequência de um cuidado não tratado no início do processo cognitivo infantil. 

Acreditar que suas qualidades são imutáveis - mindset fixo- cria a necessidade constante de provar a si mesmo seu valor. Não lhe agradaria parecer ou sentir-se deficiente quanto essas características fundamentais e alguns de nós aprendemos a adotar esse mindset desde a tenra infância.
Dweck, Carol

Acreditar que um processo seja imutável também é uma percepção característica das expectativas colocadas em cima desses indivíduos desde o início do processo educacional. Ter o destaque dos melhores da turma precocemente afeta em como a criança lidará com a sua inteligência, e de como ao longo dos anos, ela acreditará que essa qualidade está sendo perdida se não continuar sendo o destaque em sala. Da mesma forma, aqueles com mais dificuldade em aprendizagem entenderão que sua inteligência não é o suficiente, já que não há nenhum estímulo suficiente nessas instituições para que esse pensamento seja modificado. Sendo possível o desenvolvimento de problemas psíquicos como ansiedade, insegurança, fobia social, reclusão e mudanças de comportamento para se sentir adaptado a essa realidade. 

De mesmo modo, Paulo Freire, no livro “Pedagogia do Oprimido” analisa como as instituições educacionais utilizam do método técnico e conteudista para reproduzir força de trabalho isentas de pensamento e desenvolvimento crítico. Nessa perspectiva, o drama coreano “Uma advogada extraordinária”, também explora essa noção ao representar como o processo educacional infantil é cruel ao recortar as qualidades individuais e padronizá-las em um corpo capaz de entender o conteúdo técnico e reproduzi-lo sem o desenvolvimento da filosofia e da arte do pensamento. 

Desencantamento com o mundo e a falta de resposta 

Quando comecei a definir qual seria o tema do meu próximo ensaio, me peguei conversando com a minha mãe sobre como os adultos precisam de terapia para reparar traumas da infância, e que o mundo seria um lugar melhor se isso pudesse acontecer. No início, pareceu um pensamento bobo e ingênuo de uma conversa cotidiana, mas quando pensei sobre a importância da infância, percebi que tem muitas coisas que podem ser reparadas com momentos mais reais e com pessoas mais carinhosas com as crianças e com o fato delas crescerem em algum momento. 

Espero que esse pequeno texto seja o suficiente para você, caro leitor, começar a pensar sobre as crianças que permeiam a sua volta, e de como elas podem ser pessoas melhores com pequenos gestos. Espero que assim como eu, o desencantamento do mundo seja apenas temporário para você, e que possamos ser pessoas melhores se tivermos nossas crianças sendo tratadas de forma melhor. 

A ideia de internet e exposição tratadas no segundo tópico do texto foi deixada em aberto de propósito, para pensar na minha falta de respostas e, consequentemente, da minha falta de solução. Também deixo aqui todas as minhas condolências às crianças que foram machucadas, maltratadas e deixadas de lado, e que hoje se tornaram adultos difíceis de lidar, ou machucados demais, rancorosos demais. Deixo aqui a minha compaixão pelas suas dores não tratadas, na esperança de que vocês cuidem de si e das crianças que serão adultos como somos agora.



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