Com toda a preocupação envolvendo a revogação da decisão Roe v Wade, que garantiu o direito ao aborto nos EUA por meio século, muitas mulheres, estadunidenses e de outras nacionalidades, se pronunciaram nas redes com mensagens de apoio e conselhos variados às pessoas direta e indiretamente atingidas por essa decisão. Um dos temas muito comentados foi a utilização de aplicativos de acompanhamento do ciclo menstrual (menstruapps) e a potencialidade de que os dados sobre o ciclo menstrual das usuárias pudessem ser utilizados para identificar pessoas que procuraram clínicas de aborto ilegal, o que não é apenas uma conjectura, mas algo que já vem ocorrendo.

Milhares de aplicativos que realizam o monitoramento do ciclo menstrual existem hoje no mercado, com uma variação de designs, funcionalidades e preços. Esses aplicativos fazem parte do mercado “femtech” – soluções tecnológicas que se concentram na saúde da mulher – o qual, segundo estimativas, valerá $50 bilhões até 2025, mas apenas 10% do dinheiro investido nesse mercado vai para startups lideradas por mulheres.

Os menstruapps, no entanto, não são feitos para mulheres, ou para qualquer pessoa que deseja manter certo controle sobre seu ciclo menstrual. Eles não são pensados para o usuário, mas sim para seus donos, para quem lucra com o aplicativo, para profissionais de marketing e para fetos hipotéticos. Isso, no entanto, não é nenhuma novidade. Quem já leu qualquer texto meu sabe que falo muito sobre o mito da neutralidade da tecnologia e o capitalismo de vigilância,  que resume a tendência de mercantilização de todo e qualquer dado.

Não surpreende, portanto, que esses aplicativos não sejam pensados para seus usuários. A verdade é que, em sua maioria, as soluções tecnológicas construídas atualmente dificilmente são realmente necessárias para seus usuários, porque são voltadas a atender necessidades de seus criadores, quem verdadeiramente se beneficia – e lucra – com esses aplicativos, que têm acesso e tratam os dados pessoais e os rastros digitais ali deixados. 

Eles são uma ótima oportunidade para que as empresas possam anunciar seus produtos de acordo com a fase da vida em que a mulher está (tentando engravidar, tentando evitar a gravidez, com a vida sexual ativa ou não, com algum problema relacionado à saúde reprodutiva, etc), ou, ainda, possam se aproveitar da fase hormonal em que a mulher se encontra dentro de seu ciclo para anunciar produtos utilizando-se do apelo ao emocional – neuromarketing. Além de serem úteis, também, no rastreio de possíveis abortos ilegais, conforme mencionado.

Mas apesar de tudo isso, eles podem ser úteis para mulheres ficarem a par de sua saúde reprodutiva e terem consciência de seu ciclo menstrual e seus períodos férteis? Nem tanto. 

De acordo com pesquisa realizada nas universidades Columbia University School of Nursing, Icahn School of Medicine at Mount Sinai, e Columbia University Medical Center, a maioria dos aplicativos analisados (95%) se mostraram imprecisos, apenas 5% desses aplicativos citam literatura médica e possuem envolvimento de profissionais da saúde. 

Em 2018, o FDA (Food and Drug Administration) dos EUA permitiu a comercialização de um aplicativo (Natural Cycles) que anunciava fazer as vezes de um contraceptivo. No entanto, o aplicativo era apenas 93% preciso. O anúncio do aplicativo como um substituto para contraceptivos fez com que um hospital Sueco relatasse 37 gravidezes indesejadas em mulheres que usavam o aplicativo como método contraceptivo. 

Ainda, o design desses aplicativos e a quantificação dessas experiências não são neutros. Em primeiro lugar, diferente de outros aplicativos de saúde que são considerados “gênero neutro”, o design dos aplicativos femtech são feitos de maneira a apelar para o público feminino, que do ponto de vista masculino aparentemente significa a cor rosa, flores e bebês, de maneira a tornar o design do aplicativo quase infantilizado. Mas esse é o menor dos problemas. 

Os aplicativos, em sua maioria, também são feitos de maneira a ignorar boa parte da gama de necessidades das mulheres e pessoas queer que menstruam. Existem fortes suposições embutidas em seu design que podem marginalizar muitas experiências de saúde sexual de seus usuários. 

De acordo com o relato de Maggie Delano, professora de engenharia e especialista em tecnologias de auto-rastreamento, alguns aplicativos oferecem ao usuário 3 opções para descrever o objetivo de uso do serviço: evitar gravidez, tentar engravidar ou tratamento de fertilidade.

Geralmente, os designers do aplicativo assumem que as pessoas que o utilizarão possuem por objetivo evitar a gravidez ou tentar engravidar; assumindo, de forma generalizada, que toda as pessoas que utilizam um aplicativo de monitoramento do ciclo menstrual podem engravidar (seja dentro do relacionamento em que se encontra ou de forma geral), ou seja, que todos os usuários são: mulheres cis genêro, sexualmente ativas e em um relacionamento heterosexual. Mas, para além da discussão de gênero, os aplicativos também omitem a possibilidade de que mulheres inférteis e que não pretendem passar por tratamentos para engravidar, possam ter interesse em monitorar seu ciclo. Assim, a quantificação de informações feitas pelos aplicativos também não é neutra, já que legitima algumas experiências e saberes, enquanto invisibiliza outros. 

Por fim, alguns aplicativos, como o Glow, a partir dessas suposições, propagam ideais ultrapassados ao notificar as usuárias em período fértil que estavam tentando engravidar para lembrá-las de “utilizar uma lingerie bonita” durante esse período, o que – sem contar o fato de que os designers possivelmente inferem que a mulher deve se arrumar apenas para que seu parceiro tenha interesse sexual -, é uma coisa simplesmente bizarra receber uma notificação assim de qualquer aplicativo que seja. 

Muitas mulheres ainda fazem uso desses aplicativos na medida em que, por bem ou por mal, eles apresentam alguma utilidade no monitoramento e acompanhamento do ciclo menstrual de forma geral. No entanto,  enquanto abraçamos esse tipo de aplicativo, agradecendo por sua potencial funcionalidade, acabamos nos esquecendo que enquanto seus criadores ganham rios de dinheiro com a comercialização do ciclo menstrual e da gravidez, eles nem sequer têm a capacidade de criar um aplicativo que seja realmente preciso, trate o assunto com a relevância que merece e inclua toda a gama de complexidades que a saúde reprodutiva da mulher e de pessoas queer envolvem. Além, é claro, de possivelmente contribuirem com a criminalização do aborto e a perseguição de mulheres que supostamente tenham realizado aborto ilegal. 

Isso tudo me faz questionar, para quê e a quem servem os menstruapps?

Sabiá

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