Segundo o historiador alemão Walter Langer, as pessoas consideravam Adolf Hitler divertido, não o levavam muito a sério e acreditavam que ele não iria durar muito. No Brasil, Jair Bolsonaro sempre foi presença marcante na TV, visando alavancar a audiência de alguns programas com sua retórica limitada e polêmica. “Hoje aquele deputado engraçado vai no SuperPop”, diziam.

Quase ninguém acreditava que as suas ideias preconceituosas e abjetas, pudessem ser absorvidas pela nossa sociedade, a ponto de elevá-lo a condição de chefe de estado. Ideias que foram levadas por Bolsonaro na segunda-feira (22), mais uma vez, em sabatina feita pelo Jornal Nacional, o maior telejornal em audiência do Brasil.

Sem um “boa noite” aos entrevistados, por quarenta minutos, o chefe de estado se dirigiu ao povo brasileiro e respondeu questionamentos dos apresentadores William Bonner e Renata Vasconcellos. “Respondeu” nos moldes de fabulações e distorções que foram habitualmente articuladas durante seus 4 anos de mandato.

Os primeiros vinte minutos foram sobrecarregados de desinformação e mentiras sobre as urnas eletrônicas, negação sobre difamar ministros do STF, tratamento precoce e imitação de pessoas com falta de ar na pademia da COVID-19. Além disso, a dificuldade maior do presidente e candidato a reeleição foi conter sua impulsividade e hostilidade perante os jornalistas.

Ante a insistência de William Bonner para que assumisse o compromisso de que respeitará o resultado das eleições, Bolsonaro colocou a resposta no condicional “desde que limpas”. Como se a pressão persistisse – “está posto que são limpas”, pontuou Bonner -, acabou por pedir para que mudasse de assunto. Sem espaço para o proselitismo, o condicionante se esvaziou e Bolsonaro se deu conta de que já não teria mais o que tirar dali.

O candidato respirou melhor quando o foco mudou para economia. O propósito foi alcançar um desempenho que pudesse satisfazer a bolha bolsonarista. Sua apatia com as 33 milhões de pessoas passando fome no país e 682 mil mortes pelo coronavírus não foi uma atitude ultrajante. Foi um sinal de que tudo ocorreu como deveria. Jair Bolsonaro é isso.

Até na política ambiental, que levou à queda do ex-ministro Ricardo Salles, Bolsonaro não perdoou. Mencionou Salles, que queria passar a boiada, como um dos grandes ministros que seu governo já teve. E comparou os incêndios no cerrado e na Amazônia àqueles que atingem a Europa no verão no Hemisfério Norte. Manteve a orientação, questionada pela Renata Vasconcellos, de que o Ibama não poderia destruir tratores usados no desmatamento sob a justificativa de que defendia o cumprimento da lei – “É mentira que sou um destruidor de florestas”.

O momento mais grave foi quando o candidato repetiu declaração sobre a fiscalização das urnas, que “não são auditáveis” e que também “as Forças Armadas vão garantir o pleito”. Por esse ponto, para Bolsonaro, só haverá eleições se as Forças Armadas participarem ativamente.

A avalanche de mentiras pode ter sido danosa até mesmo entre os eleitores menos radicais. Ou seja, o formato em que Bolsonaro estava debatendo suas ideias dissimuladas era em um programa de televisão ao vivo, onde as mentiras ficam mais vaporosas. Basta um google e ver o que presidente exatamente negou ou mentiu na sabatina.

“Queria ficar mais duas horas aqui com vocês”, finaliza Bolsonaro. Os aliados comemoram a brandura com a qual foi capaz de mentir por 40 minutos, principalmente aqueles que advogavam pela moderação.

Para quem não vota nele, nenhuma novidade em termos de repulsa. Para quem vota, houve um reforço positivo de suas convicções. O problema para Jair Bolsonaro é que ele está em segundo lugar na corrida das eleições de outubro e precisa conquistar 300 mil votos em menos de 40 dias.

Sabiá

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