Ithaka‘ é o mais recente e pertinente documentário que explorou uma vertente da batalha contemporânea sobre nossas liberdades individuais e que continua a ter consequências a longo prazo para todos nós – estejamos cientes disso ou não.

Neste novo documentário dirigido por Ben Lawrence e produzido pelo irmão de Assange, Gabriel Shipton, temos a medida do preço que os EUA cobraram do fundador do WikiLeaks. Desde 2010, Julian Assange vem lidando com perseguição política e lawfare do Departamento de Justiça dos EUA.

Ithaka, sem dúvida, se concentra na batalha de Assange contra o governo dos EUA, que está tentando extraditá-lo para uma prisão de segurança máxima norte-americana sob acusações de espionagem. São crimes que nunca foram julgados antes contra jornalistas, e cuja criminalização é difícil de compreender considerando o tão elogiado direito constitucional americano à liberdade de expressão.

Como sugerido por protagonistas no documentário, principalmente o pai de Assange, John Shipton, o caso todo soa como uma vingança; uma razão incoerente e indefensável para colocar alguém em uma jaula e jogar a chave fora. “No entanto, aqui estamos nós, a batalha ainda continua”, diz John.

Na maior parte do documentário são relatadas as batalhas legais de Assange em 2019 e 2020 na preparação para o primeira luta judicial no tribunal britânico. Durante esse período, somos apresentados aos tormentos enfrentados pela equipe de Assange, como a CIA grampeando a Embaixada do Equador onde Assange esteve em asilo e a pandemia de coronavírus, que resultou no lockdown das prisões (e, consequentemente, de prisioneiros).

Combinando os elementos mais sérios e factuais do caso com as relações familiares, Ithaka fornece uma exploração intrigante dos custos do julgamento tanto para a família de Assange, que é forçada a viver separada, quanto para o futuro do trabalho do jornalismo pelo mundo.

Toda a história do WikiLeaks e parte da vida de Assange são abordadas através de imagens antigas e entrevistas. As atitudes de Assange em relação ao sigilo e transparência são exploradas através de conversas com aqueles que o conhecem mais intimamente, evitando filmagens de entrevistas reais ou citações dele. Formato que ajudou a manter o foco do filme, que não é necessariamente Julian Assange e suas crenças.

O pai, o irmão e a esposa de Assange, Stella Moris, se declararam porta-vozes de Julian, que não pode mais falar por si mesmo. Vemos Assange aparecer apenas em imagens e vídeos históricos, como também em imagens sendo carregado para dentro de uma van da polícia londrina ou andando de skate dentro da embaixada equatoriana. Caso contrário, Assange seria apenas uma voz desencarnada ou uma imagem no smartphone de Stella.

Ithaka é, portanto, um documentário gratificante e informativo que oferece uma oportunidade única de questionar o método jurídico do caso de Assange, o papel da mídia, suas crenças e preconceitos pessoais. No final, você pode se surpreender com o que descobre sobre a influência da imprensa em sua opinião.

Sabiá

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