Eu votei no Ciro em 2018. Foi a minha primeira vez como eleitora para presidente; eu tinha 19 anos. Fui conquistada pela retórica, pela preparação, pelo “plano para o país”. 

Lembro-me de pregar a palavra de Ciro Gomes para toda a minha família, que me olhava com desconfiança, dizendo que “ele não era a pessoa certa para governar o Brasil”.

Diante do cenário de 2018, eu, mesmo muito jovem, sabia que não queria Bolsonaro no poder. Chorei quando o resultado das eleições foi anunciado – embora não soubesse exatamente o porquê. E, desde então, venho me decepcionando com Ciro Gomes cada vez mais.

Em sua participação no Jornal Nacional, na última terça-feira, o candidato à presidência do PDT gabou-se de seus feitos no Ceará, além da sua trajetória bem-sucedida na política. Mas reafirmou todos os motivos que acarretaram na minha desilusão.

Ciro, muito conhecido pela sua pauta que engloba o fortalecimento da indústria nacional, ganha a admiração de muitos ao falar, com propriedade, sobre os problemas econômicos e estruturais do Brasil. Ao longo da entrevista, o candidato tocou em pontos importantes – e que não foram mencionados na entrevista com o atual presidente Jair Bolsonaro – como a fome, o endividamento da pessoa física e a escassez de recursos na educação. 

O discurso bem construído chega a encantar pessoas bem instruídas, mas não chega no povo. As propostas de Ciro Gomes não foram construídas para dialogar em uma linguagem acessível ao povo comum, de classe média baixa, que hoje se preocupa com coisas básicas, como a inflação e a falta de recursos para o essencial, que é se alimentar. De fato, os planos econômicos, o investimento estrangeiro e o diálogo com a classe mais rica do país devem estar incluídos nos planos de governo de um futuro presidente, mas isso não garante uma eleição — e muito menos popularidade. 

Embora, na parte de elaboração de projetos, Ciro se mostre como o candidato mais avançado, ele peca na falta de tato quanto à realidade brasileira. Na campanha de Ciro, a verdadeira necessidade da população pobre, feminina, negra e LGBTQIA+ não está incluída no seu plano de governo. Com a retórica violenta, muito próxima aos famosos “coronéis do nordeste”, o candidato se apresenta como uma caixa de surpresas. Preparado? Sim. Descontrolado? Também. 

Será que precisamos de mais uma surpresa em um momento tão conturbado?