O cinema, enquanto uma novidade representativa da modernidade em seus avanços tecnológicos, adquiriu um papel central na formação dos imaginários sociais a partir do século XX. Sendo assim, refletir sobre este papel é compreender os aspectos ideológicos que atravessam a sétima arte — ou, a rigor, o que se vincula politicamente a partir da estética. Já abordei alguns argumentos nesse sentido em outros textos, mas aqui pensaremos em um modelo de organização coletiva cujo objeto é o cinema em seu aspecto democratizante e politizador: os cineclubes.

Os cineclubes, associações voluntárias de apreciadores, críticos e realizadores de cinema, auxiliaram no desenvolvimento da própria linguagem artística do cinema, em especial por conta do avanço teórico possibilitado pela inserção destes grupos no debate público. Em especial nos anos 60 e 70 esses espaços intelectuais tinham grande importância no desenvolvimento artístico e o cineclubismo era parte constituinte de diversos processos vanguardistas que buscavam a consolidação do cinema como arte, indo além da perspectiva de entretenimento vazio proporcionado pelas invenções técnicas. Podemos pensar no nosso objeto específico, o cinema de Minas Gerais, a partir da perspectiva destas contribuições para as vanguardas.

O cineclubismo teve um papel formativo bem relevante para muitos dos realizadores cinematográficos que emergiriam especialmente no surgimento e nos desdobramentos posteriores das duas grandes vanguardas brasileiras, cinema novo e cinema marginal. Ainda possuem, mas de forma um pouco mais dispersa dada a configuração da produção de cultura no capitalismo globalizado em sua fase pós moderna. Carlos Reichenbach, um dos maiores diretores de cinema da história do Brasil, se definia como um entusiasta da cultura cineclubista e participava constantemente de sessões mesmo em sua velhice.

Em Minas Gerais, a história dos cineclubes é bem rica. Polos relevantes em Belo Horizonte e Juiz de Fora chegaram a ser grandes destaques no debate nacional, assim como cineclubes do interior, a exemplo do Cineclube Carcará, de Viçosa-MG, sobre o qual ainda existem, infelizmente, menos estudos do que o coletivo merece. Os polos aziam o seu papel de difusores de cultura — inclusive em tempos perigosos, como o período da ditadura militar brasileira. Em termos de exportação e circulação de ideias, é impossível ignorar o CEC-BH (Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais) e o CEC-JF (Centro de Estudos Cinematográfios de Juiz de Fora). Os nomes semelhantes não indicam uma ligação entre eles, além do fato de que faziam parte do Conselho Nacional de Cineclubes, órgão responsável pela integração dos cineclubes no Brasil, criado em 1962 justamente dada a popularidade das associações cineclubistas.

Debates sobre o papel político do cinema no CEC-BH eram influenciados especialmente pelas vanguardas europeias, como o neorrealismo italiano, que entendiam o papel da arte na sociedade, tanto em sua reflexão quanto na possibilidade de sua transformação. Destacam-se, como grandes nomes da intelectualidade artística “cequiana”, Cyro Siqueira e Geraldo Veloso, cujo papel de lideranças teóricas era respaldado mesmo fora do estado de Minas Gerais. O CEC tinha um propósito muito maior do que a simples crítica formalista de cinema — e nisso podemos observar um exemplo do papel político dos cineclubes — sendo espaço aberto de debates sobre comunismo e existencialismo sartriano, por exemplo, como mostra a dissertação de Geovano Moreira Chaves, “Para além do cinema: o cineclubismo em Belo Horizonte (1947 – 1964)”, defendida em 2010. A Revista de Cinema, periódico do Centro de Estudos Cinematográficos, foi palco de diversas análises extremamente relevantes para o pensamento do cinema brasileiro. Hoje, 71 anos depois, por meio da Lei Aldir Blanc, um processo de digitalização do acervo do CEC de Belo Horizonte está em vias de execução, com o projeto de trazer a público, em breve, livros, fotos, filmes, artigos e as edições da própria Revista de Cinema.

A memória do cineclubismo como um movimento político é um resgate relevante aos novos cineclubes (ou mesmo aqueles mais antigos que resistem) pois representa um possível “novo velho horizonte” de popularização e democratização do cinema e das suas elaborações intelectuais. Pensar a história dos cineclubes mineiros é pensar caminhos que nos atravessam e potencializam enquanto críticos e realizadores culturais; que os caminhos para uma arqueologia da intelectualidade artística em Minas Gerais possam estar cada vez mais abertos.

Sabiá

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