A moda como ato político


Estaria a moda interligada com a política? Além disso, como podemos refletir sobre nossos estilos de vida e o impacto do consumo no planeta por meio da moda?


A frase “viver é um ato político”, que cada vez mais aparece na mídia, nos faz repensar em como vivemos nossas vidas e como nossas ações (conscientes ou não), transmitem um certo olhar da realidade, e não outras perspectivas. Quando pensamos na moda, em como nos vestimos, talvez seja importante entender como participamos dessa indústria, pensando individualmente, mas também em uma macro escala, em como essas empresas atuam e qual é o conceito pensado por elas para suas roupas. Será que um design específico pode significar algo e outro não? Será que a indústria da moda tem o objetivo de ser sustentável? Será que ao pensar criticamente e politicamente podemos ver a moda atuando da massa até grandes líderes políticos? Essas são perguntas genuínas que muitas vezes passam despercebidas.

Primeiramente: a moda é política

Em sua origem, segundo James Laver, as roupas nasceram da utilidade das mesmas para se proteger do frio. No entanto, com seu desenvolvimento, foi aparecendo um caráter social e político, além do motivo prático. Na Idade Média, existiam leis que proibiam que plebeus se vestissem “acima” do seu nível social. Segundo a Harper’s Bazaar,  durante os séculos XVI e XVII, por exemplo, a nobreza queria se diferenciar da burguesia que a copiava, dessa forma o primeiro grupo buscava se vestir com cada vez mais luxo (adornos e  roupas volumosas com cores de difícil tingimento) para se associar a realeza e ao clero, expondo seu poder. Com esses rápidos exemplos, podemos notar que a moda não existe apenas pela sua função costumeira de “vestir”, mas também para denotar certa visão de mundo e passar alguma informação para quem está vendo. Muitas vezes a moda é “futilizada” por agentes que buscam invisibilizar a mensagem transmitida, ou mesmo, pelo caráter muitas vezes elitista, em que, boa parte das vezes apenas alguns círculos sociais têm acesso ao contexto de criação daquele vestuário, parecendo algo “frívolo” quando chega ao fast-fashion.

“Não obstante, quer a mensagem seja recebida com sucesso ou não, existirá sempre uma mensagem, há sempre uma interpretação por parte do criador, utilizador ou espectador. Contudo, para que a mensagem seja bem recebida, pode se dizer que é vantajoso o emissor e receptor da mensagem estarem dentro da mesma comunidade ou, pelo menos, falarem a mesma língua. Ainda mais se pode dizer: caso a leitura da mensagem não for a pretendida pelo emissor, não será vista como um resultado falhado, apenas diferente.”

Lurie, 2000, Barnard, 2002

Posicionamento político de estilistas e sua influência na realidade

A moda, com seu papel de refletir e ao mesmo tempo criar coisas novas em cima da realidade, influencia e é influenciada por diversos movimentos políticos. Durante essa parte do artigo, serão citados alguns exemplos de personalidades e produções que causaram impacto e confirmaram esse caráter político do setor.

Zuzu Angel – desfile de 1971

Em 1971, Zuzu Angel, grande estilista brasileira, teve seu filho sequestrado e morto durante a ditadura militar, e com isso, fez um protesto por meio de um desfile no consulado brasileiro em Nova York. Dessa forma, ela utilizou o espaço para denunciar as torturas e violências que estavam ocorrendo no Brasil. As modelos também utilizaram fitas pretas para indicar o luto e as figuras bordadas representavam o terror que a sociedade brasileira enfrentava, sendo utilizados: canhões, soldados, aviões e pássaros pretos. Demonstrando então, uma crítica à ditadura militar  segundo a Fashion Revolution, em âmbito internacional.

#WhenWeAllVote – 2020

Podemos ver manifestações políticas na moda também nos Estados Unidos. No governo estadunidense, por exemplo, conseguimos ver que a Michelle Obama usou sua posição para elevar estilistas nacionais, aspecto que se diferenciou no governo Trump, em que alguns estilistas explicitamente se recusaram a vestir Melania Trump. 

Mas podemos ver também movimentos que se incorporam à moda para aumentar sua propagação. Um exemplo, é a #WhenWeAllVote co-presidida pela ex-primeira dama Michelle Obama, que teve seu auge político durante a eleição de 2020. A campanha foi endossada pela marca Dover Street Market, que recrutou 25 parceiros, incluindo Marc Jacobs, Hood by Air, Vaquera e Selena Gomez, para fazer produções especiais para o projeto, segundo o The New York Times. 

Dessa forma, foi criada uma ideia de se “vestir para votar” e ao mesmo tempo, virou um incentivo para os mais jovens votarem, já que esse grupo (adultos com menos de 30 anos) representam aproximadamente 40% dos eleitores, de acordo com o United States Election Project.

No entanto, podemos notar que mesmo a campanha tenha sido apartidária, naquele contexto os democratas estavam reforçando a importância do voto, enquanto que os republicanos estavam criando teorias conspiratórias sobre a validade do mesmo. E com a Michelle Obama envolvida no projeto, claro que mostraria uma aliança maior a um lado do que outro, segundo o TNYT. 

Ademais, com a parceria da empresa Dover Street Market, que é um empório de origem japonesa, e que fez parte de uma iniciativa como essa, mostra, segundo Adrian Joffe, que “o que está acontecendo na América afeta o mundo inteiro”.

Os modos de produção da indústria fashion

À vista disso, utilizando esses dois exemplos de um vasto grupo de iniciativas, vemos como existe uma relação simbiótica entre a moda e política. Segundo a Google Arts & Culture, no mundo todo o setor é avaliado em 3 trilhões de dólares, sendo a segunda maior atividade econômica mundial em relação a intensidade de comércio e emprega 57 milhões de pessoas nos países em desenvolvimento, com 80% dos trabalhadores sendo do sexo feminino. Ainda, é notável que quando nos vestimos estamos colocando símbolos que demonstram um certo modelo econômico, um momento histórico e partir disso, criamos nossa individualidade. E carregamos então, uma cadeia produtiva degradante a natureza, com  funcionários  impactados pela química das roupas, em um sistema de trabalho que em muitos lugares ocorre de maneira desumana para sustentar o fast fashion, que por ano produzem  apenas no Brasil de acordo com o Sebrae, 170 mil toneladas de resíduos têxteis por ano.

Em reação a essa problemática, vemos  redes transnacionais que buscam conscientizar as pessoas do efeito da indústria fashion. Um exemplo, é o movimento mundial relacionado ao tema é o Fashion Revolution, o qual “(…)foi criado após um conselho global de profissionais da moda se sensibilizar com o desabamento do edifício Rana Plaza em Bangladesh, que causou a morte de 1.134 trabalhadores da indústria de confecção e deixou mais de 2.500 feridos. A tragédia aconteceu no dia 24 de abril de 2013, e as vítimas  trabalhavam para marcas globais, em condições análogas à escravidão”, segundo a definição do próprio site. O FR incentiva a participação de todos por meio de campanhas de conscientização como foi o #QuemFezMinhasRoupas para entender o verdadeiro custo da moda pelo planeta e as fases do processo e consumo dessa indústria.

Portanto, uma área que normalmente não ligamos diretamente à política, está intrinsecamente ligada às tendências mundiais do cenário nacional e internacional. A expressão visual das roupas, que já vem de muitos séculos, busca sempre de alguma forma, denotar uma posição frente ao mundo. E nós que utilizamos um certo vestuário ou outro, transmitimos às pessoas, mesmo que inconscientemente, uma visão e até mesmo nossos valores. Podendo ser algo mais direto como a campanha #WhenWeAllVote, quanto uma roupa comprada em uma loja qualquer a custo de banana. O viver é “político” em todas as dimensões, inclusive e especialmente, na moda que usamos. Você já refletiu hoje sobre as roupas que utiliza?


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