A Missão dos Estados Unidos Da América

Em seu primeiro discurso de posse, George Washington  (1789-1797) anunciava a mensagem para o povo americano de que havia uma agência providencial por trás da ascensão dos Estados Unidos da América, enfatizando que a crença no Destino Manifesto da nação caminhará para conquista de sua expansão territorial. A religião direciona a política estadunidense como um código moral e nacionalista, tanto na política externa, como na doméstica. Pouco se fala sobre o início das tradições, ritos e idolatrias aos símbolos nacionais cultivados por cidadãos estadunidenses e espalhados pelo mundo. Para além de um processo voluntário, o excepcionalismo estadunidense é um plano político e uma interpretação da história mediante aos conceitos bíblicos, assemelhando a trajetória do país a uma missão dada por Deus à sua população de levar esclarecimento para ao redor do mundo. O Destino Manifesto e a Religião Civil têm uma função única de produção de unidade nacional e legitimação de qualquer ato feito pelo país visando realizar sua missão destinada por Deus.

Mas de onde veio a crença nessa missão e no Destino Manifesto? Como os Estados Unidos se apropriou de elementos morais – como democracia e liberdade –  como pilares únicos do seu país em uma missão de exportá-los para o mundo? Além disso, qual o papel da religião em meio às ações políticas dos Estados Unidos?

O Nascimento do Destino Manifesto 

A peregrinação do século XVII permeia o imaginário estadunidense no sentido da ruptura com a igreja inglesa e assemelhação a imagem dos hebreus, aqueles que foram eleitos por Deus. Os peregrinos buscavam civilizar esse novo território e acreditavam no seu poder sobre aqueles antigos habitantes. A percepção territorial dos norte-americanos, até os dias atuais, carrega tais ideais colonizadores e civilizatórios em busca da exportação da sua moralidade única em nome de Deus. As fronteiras, portanto, nunca foram um empecilho para o cumprimento do seu Destino Manifesto e elas se estenderiam até onde fosse necessário.

O Destino Manifesto advém dos calvinistas e propõe a ideia de que Deus escolhe seus eleitos. Os Estados Unidos seriam esse povo escolhido por Deus para levar os princípios cristãos para o mundo em nome da Providência Divina e nada poderia impedir a execução da vontade divina. A partir de sua independência, os EUA representavam o Novo Mundo, o rompimento com os britânicos e europeus e a missão de construir um mundo sob os moldes da providência divina. 

“Deus escolheu a América para que aqui se construísse a sede do paraíso terrestre, por isso, a causa da América será sempre justa e nada de mal jamais lhe será imputado. Os colonos são os verdadeiros herdeiros do povo eleito, pois prestavam a Santa Fé. Nossa missão é liderar os exércitos de luz em direção aos futuros milênios”

Destino Manifesto

Deus e a religião, portanto, representava não só o elemento de coesão da pátria, mas também um instrumento de autoridade e legitimação de uma homogeneidade forçada que despreza gênero, classe e raça. Aqueles que fossem bárbaros e impuros, tinham o privilégio de serem civilizados pelo povo escolhido. A missão dos Estados Unidos seria um ato de altruísmo e nobreza. A missão estadunidense, amparada por um poder divino e pela exportação da moralidade cristã, gerou a submissão brutal de povos originários dos territórios anexados, e quando não, a sua exterminação. Em 2010, os povos originários representavam apenas 2% da população dos Estados Unidos. A providência divina, portanto, se concretizou. 

Religião Civil e a exportação da democracia

A Religião Civil não é uma excepcionalidade dos Estados Unidos, mas de fato, juntamento com o providencialismo, ela representa o cimento que os mantém. Ela fornece orientação de valores que une a população por meio de símbolos, abstrações e rituais que fortalecem as instituições civis. Ao mesmo tempo que evoca o comprometimento e incentiva o esforço, criando uma identidade, a Religião Civil exerce um poder sobre as instituições públicas e influencia a nação.

A sua função na sociedade norte-americana gira em torno da capacidade de conciliar o secularismo e a religiosidade. A religião civil harmoniza Deus e pátria. Um exemplo da influência da religião na política foram os eventos que decorreram do “11 de Setembro”. O ataque as Torres Gêmeas gerou uma comoção nacional em torno da exterminação do inimigo e o suporte dos cidadãos para com a execução da missão do povo cristão estadunidense em afastar tudo aquilo que representasse o “Outro”.

Durante seu mandato  (1912 – 1921), o ex presidente Thomas Woodrow Wilson enfatizou que a missão dos Estados Unidos era a de promover a democracia aos países atrasados, mesmo que para isso a força fosse necessária, até porque não haveria como fugir de Deus. Essa visão permanece no subconsciente do povo estadunidense. Após o 11 de setembro, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão e o ocupou por 20 longos anos, como um ato altruísta para a promoção da democracia. A democracia enquanto um ideal ocidental e exclusivo dos Estados Unidos. Assim, sendo uma parte da sua missão divina. 

O debate travado, portanto, não é sobre os malefícios da religião para a política internacional. Por muito tempo, a religião foi ignorada em análises devido à suposição de que o secular havia superado tal questão. Entretanto, ao olharmos com atenção, conseguimos enxergar a relevância da religião nas relações internacionais. Ao explorar o Destino Manifesto, questionamos a influência da religião dentro da política norte-americana e a crença de uma população da Terra Prometida, e como esse excepcionalismo reflete na política externa e doméstica, seja positivamente ou não. 



TEM UMA PAUTA?
ESTAMOS AQUI!

Toda ideia tem o potencial de ser uma boa ideia. Gostamos de ouvir ideias de pauta, denúncias ou sugestões de nossos leitores. Se quiser compartilhar, conte conosco — e olha, pode ser anônimo, tá?


Em destaque

O Gosto do Fim do Mundo

Em um mar de obscenidade eu e minha língua sofremos, gozando, em silêncio, correndo em círculos, tal como uma galinha, para que de alguma forma a lua possa se alimentar de nossa própria disforia.

RECENTES

A revista o sabiá é um veículo de mídia independente e sem fins lucrativos, que busca usar o jornalismo e a comunicação como um mecanismo de mudança no futuro das novas gerações.