Marte Um, primeiro longa-metragem conduzido de forma “solo” pelo mineiro Gabriel Martins, contempla as qualidades que o jovem diretor já havia mostrado de forma menos enfática ao longo da sua carreira. Um dos principais nomes da produtora Filmes de Plástico, o contagense não se furta de contar histórias próximas geográfica e socialmente da realidade de milhares de sujeitos, em especial, negros, nas periferias brasileiras (e, mais especificamente, nas periferias mineiras).

O “novíssimo cinema mineiro”, cujos máximos representantes são os filmes da Filmes de Plástico, compartilham uma preocupação com o espaço muito única. A realidade imediata se dá nas possibilidades de uma Minas Gerais simultaneamente provinciana e aberta às possibilidades; o universo simbólico imaginado é muito autêntico e próximo de vivências culturais periféricas de Belo Horizonte e região metropolitana. Em Marte Um, alguns dos momentos involuntariamente engraçados são justamente aqueles que expressões tão íntimas da nossa comunicação aparecem de forma tão trivial na tela que evocam nostalgias e sentimento de pertencimento. É gostoso se enxergar culturalmente na tela, mas a qualidade do filme transcende a identificação.

O cuidado com os personagens e o interesse nas vidas cotidianas e tormentos que os circundam fazem o papel de criar personagens menos arquetípicos e mais autênticos, cuja motivação é legítima e contraditória, como são as pessoas no mundo real fora da tela. Talvez aqui esteja uma definição boa desse realismo da Filmes de Plástico: não são representações que mimetizam a realidade num sentido fetichista; mas retratos autênticos, cuja influência do mundo externo muito tem a dizer, existindo paralelamente no universo das telas e no nosso universo, mas sempre com a liberdade de criar seus próprios caminhos diante das invenções que a narrativa apresenta no caminho. Rigor técnico e criatividade andam juntos, flertam com o impossível e fazem este se tornar possível. Nada mais mineiro, certo?

Se no ótimo curta de Gabriel, Rapsódia do Homem Negro (2015), observamos a articulação entre um sociopolítico mais cru e direto no sentido da ação, vemos em Marte Um são as sutilezas que nos situam na realidade — duas formas legítimas de representação que mostram abordagens artísticas possíveis frente a realidade da população negra. O trabalho do pai como porteiro em um condomínio de classe alta, o olhar de acusação de roubo da síndica e dos condôminos, a rádio falando da ascensão fascista de Jair Bolsonaro. Por fim, o direito de estar viva que se sobrepõe a cultura da morte que atinge seu ápice com a eleição de Bolsonaro. Enquanto estamos vivos, há esperança; e como é bom ter esperança para cultivar afetos na arte. É possível fazer mais do que resistir.

Sabiá

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