Se eleito, Lula terá que disputar com agronegócio


Disseram-nos que o agronegócio é o motor potente da economia braileira. Assim como tudo no mercado, desde a criação do tabagismo até a popularização das criptomoedas, isso não é o caso.


Ao pesquisar sobre a relação entre o agronegócio e as mudanças climáticas na internet, os primeiros resultados sempre são sobre como o setor pode se adaptar a mudança de ecossistemas. No entanto, a premissa de que é possível, e praticável, adaptar um mecanismo de produção nocivo ao meio-ambiente para ser “verde”, é falsa. É impossível causar e solucionar um problema simultaneamente.

Esse problema ainda não foi levado a sério por políticos brasileiros, tanto na esfera local quanto nacional. Em entrevista ao Jornal Nacional em 25 de agosto, Lula, candidato à presidência pelo PT, foi combativo ao agronegócio, afirmando que o setor não apoia seu partido por conta de seu combate ao desmatamento. Em seguida, o candidato disse que o grande empresariado se importa com a fauna brasileira, uma vez que exportam seus produtos para economias estrangeiras que pressionam o Brasil por políticas ambientais mais severas, como a União Europeia ou a China.

Apesar da nova postura de combate ao agro, ao menos no discurso, é preciso apontar que a fala precisa ir para além de palavras. Além disso, é necessário esclarecer que, apesar de estarmos vinte anos após o primeiro mandato de Lula, seu posicionamento vai de encontro com o que foi feito nas gestões petistas.

São realidades diferentes, mas o agronegócio não mudou muito em vinte anos: ele sempre foi conservador, antepôs lucros, sempre priorizou a exportação do que a economia interna e segurança alimentar do povo brasileiro, sempre colocou em risco a segurança e integridade das populações indígenas. Uma das formas mais realistas de observar o descaso do agronegócio com o Brasil é através dos supermercados. Agora, tudo está mais caro porque o setor escolhe vender produtos a preço de dólar para fins de exportação, ao invés de vender com foco na economia interna.

São inúmeros motivos para combater, criticar e disputar com o agronegócio, tanto na esfera política, quanto na cívica, através da imprensa e organizações não governamentais. Sabendo disso, preciso escolher alguns pontos de partida. E escolho as mudanças climáticas e a catástrofe climática.

Publicado em agosto de 2021, o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, em português) deu um aviso: o Brasil precisa repensar o agronegócio. As justificativas não são apenas ecológicas, mas econômicas, dado que, segundo as previsões, o Brasil central pode ter um aumento de temperatura de 4 ou 5 °C nas próximas décadas. Tanto a imprensa quanto comunicadores em geral não conseguem esclarecer a população como o agronegócio impacta as mudanças climáticas, e como esse complicado processo será agravado pelas atividades do setor.

Em inúmeros momentos, o mesmo relatório do IPCC destacou como a Amazônia é um fator decisivo nos processos de alterações climáticas. Com o avanço descontrolado do agronegócio, garimpo e desmatamento (também para o agronegócio e o garimpo ilegal), terras antes ocupadas por biomas e populações indígenas deixaram de ser um “escoamento” de dióxido de carbono, para um emissor de gás.

Além disso, o agronegócio e o desmatamento são responsáveis por mais de 70% das emissões brasileiras de carbono. Um relatório do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa) reportou que quase a metade de todas as emissões brasileiras em 2019 vieram do desmatamento. As emissões, no entanto, haviam caído em 2004 e 2010, períodos de primeiro e metade de segundo mandato de Lula como Presidente, e voltaram a subir a partir de 2012.

As mudanças climáticas atingem o Brasil lentamente. O problema não é instantâneo e algo que formule uma reação emotiva, psicossomática, no eleitor. Falar sobre mudanças climáticas sempre foi algo chato, e é por esse motivo que cientistas passaram mais de meio século alertando governos, que não os deram ouvidos. As novas gerações não podem se dar ao luxo de esperar o problema passar, ou contar com a idealização, sorte, de que estarão mortos antes que as mudanças climáticas criem um estado distópico. Não se engane: ainda este ano, enchentes e deslizamentos mataram centenas de pessoas no país. Em Petrópolis, Rio de Janeiro, em apenas seis horas choveu o equivalente a um mês inteiro, o maior volume em uma década. Tivemos mais de 200 vítimas naquela tragédia. Em dezembro do ano passado, tempestades atípicas no interior da Bahia criaram uma emergência, afetando 220 mil pessoas e vitimando 11 pessoas.

O mundo precisa de uma liderança política atual que combata as mudanças climáticas, não só as consequências, mas as causas intrínsecas do problema. Projetos nacionais e estaduais de combate as alterações climáticas não devem ser tratados pela esfera pública como um fator remediador, mas um projeto, de fato. É preciso reestruturar as formas de produção no país, um processo estupidamente longo que envolve todas as áreas de poder, como educação, trabalho, economia, infraestrutura, e mais. Reestruturar indústrias e ecossistemas produtivos é parte de um processo estupidamente longo, envolvendo, além de mobilização sociopolítica, as principais esferas de poder.

Assim como as consequências das mudanças climáticas, é preciso de tempo para assistir, literalmente, os impactos positivos desse processo. A economia é o principal assunto de debate este ano, e com razão: passamos pela pior crise econômica que o país já viu em décadas, quiçá na história. Entretanto, concordando com essa afirmação, é preciso entender, simultaneamente, que não podemos querer solucionar problemas econômicos se tragédias climáticas impactam a economia negativamente. Não podemos buscar falar de infraestrutura a longo prazo sem falar de alterações climáticas, já que cientistas do IPCC preveem um aumento brusco no nível do mar nos litorais brasileiros. Em paralelo, não podemos falar sobre combate a fome sem pensar que, caso as previsões continuem corretas, e normalmente estão, as mudanças climáticas causarão um impacto negativo enorme no plantio de alimento.

O Brasil precisa debater mudanças climáticas não como um ponto de conseguir votos, em especial da população jovem, mas de forma estratégica. Não temos tempo a perder.


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