ELEIÇÕES 2022

Simone Tebet na sabatina do Jornal Nacional

Em uma boa entrevista, a candidata do MDB demonstra capacidade para ser um dos nomes fortes no futuro da política nacional. Tebet desfilou uma boa oratória e o jogo de cintura de uma política que tem experiência, é moderada em suas posições, soube defender suas propostas e como uma boa política, não desagradar ninguém, além de produzir bons jargões para quem era acusada de não ser carismática. Mais do que a experiência, a ex-vice governadora do Mato Grosso do Sul expôs também o entusiasmo pouco característico das figuras fortes de seu partido — o qual não foi unanime sobre sua candidatura, foi defendido por ela.

O MDB é o partido mais antigo em atividade no Brasil, tendo surgido como oposição institucional a Ditadura Militar (1964 – 1985). Tebet defendeu seu partido como o histórico partido da base, do “centro democrático”, ainda que não o tenha isentado de críticas, principalmente ao conservadorismo das suas políticas, e aos casos de corrupção. Ela afirma: “O MDB é muito maior que meia dúzia de seus políticos e caciques” talvez também uma crítica elegante aqueles que tentaram inviabilizar sua candidatura. Astuciosamente evitou comentários, sejam críticos ou lisonjeiros, as experiências do MDB no planalto, afinal os governos Temer (2016 – 2019) e Sarney (1985 – 1990) seriam alvos fáceis para Bonner e Renata, e a gestão Itamar (1992 – 1995) não tem apelo ou nostalgia popular.

A primeira pergunta da entrevista é exatamente sobre a corrupção no MDB, Renata traz a fala da própria candidata sobre a necessidade de um mea culpa, afirmando que políticos envolvidos em escândalos ainda seguem no partido, e como a candidata pretenderia depurar isso. Simone se sai bem, e inicia elogiando seu partido, cita figuras históricas do mesmo, como Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Mario Covas, Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos, os dois que ela afirma serem seu espelho. Afirma que é o partido que vem da base, maior número de prefeitos. Assume erros do partido em escândalos, como o “Mensalão” e o “Petrolão”. Reafirma as dificuldades de sua própria candidatura sobre tentarem “puxar seu tapete”, e diz que o partido superou sua fase “fisiológica” e volta a ser o partido do “Centro Democrático”.

Numa segunda pergunta tirada da primeira, Renata questiona sobre ceder cargos a partidos pela governabilidade numa eventual gestão. Tebet se sai bem em defender a cooperação, sem cooptação, afirma em alto e bom tom que irá sim trabalhar com partidos que se unirem a eles, pois “ninguém faz nada sozinho” exigindo apenas dois critérios para ingressar em seus ministérios “ser honesto e ser competente”.

Tebet, ainda nessa resposta, em um ótimo jargão para o marketing, afirma que em sua eventual gestão, um “presidencialismo de conciliação” é a “a alma da mulher, coração de mãe” que irá governar. O lema também é uma tentativa de atingir eleitores evangélicos, que buscam na política líderes que apelam aos valores familiares, muitas vezes de subserviência ou protagonismo moderado de figuras femininas da política.

Em seguida, Bonner indaga sobre membros do partido que apoiaram outros candidatos em detrimento da própria candidatura da senadora. Tebet se sai bem, reconhecendo a falta de apoio de alguns que ela afirma terem sido cooptados, mas que, apesar disso, expõe convicção sobre os apoios que tem em porto alegre e São Paulo. Em outra ótima frase de efeito afirma que só precisa de “um microfone e um caixote” para seguir sua campanha.

Bonner questiona sobre o apoio frouxo do próprio MDB do estado do Mato Grosso do Sul a sua candidatura. A senadora afirma, então, que os votos que terá em seu estado resultarão de sua competência. Tebet demonstra, novamente, convicção e preparo sobre as perguntas, consciente do conservadorismo de seu estado. Em sua resposta, ela perpassa por sua trajetória acadêmica, como professora de Direito, e política, apresentando sua experiência como possibilidade de contornar o viés conservador. “Se pudesse mudar a lei, faria com que todo presidente tivesse de ser prefeito”, diz, pois segundo a mesma não há experiência administrativa mais preparatória que essa, logo após elogiar sua própria experiência como prefeita.

Adiante, Renata questiona sobre a falta de candidatas mulheres entre o próprio MDB, algo que vai de encontro com as preocupações e aparentes valores feministas da candidata. Apesar de contornar a pergunta em sua maneira, Tebet apresenta sua própria atuação feminista em sua trajetória política, defendendo a igualdade salarial como bandeira de seu eventual mandato na presidência. Ela expõe dados acerca as diferenças salariais por gênero no país. Em seguida, após ser questionada novamente no mesmo tópico, Tebet concorda com a âncora, mas afirma que a média partidária é semelhante. Ainda, defende que em seu programa “trabalhará pelo direito das mulheres”.

Na temática econômica, Tebet é questionada sobre a possibilidade de realizar promessas ambiciosas, considerando o cenário econômico atual no Brasil. A candidata defende um grupo de melhoras econômicas liberais, mencionando um programa para construção de moradias, comparando os custos de suas promessas de governo com o Orçamento Secreto. Bonner reforça a pergunta, afirmando que as promessas parecem vagas, e a senadora é eloquente em defender sua candidatura. Dessa forma, a candidata também dá material para sua equipe de marketing, afirmando, vagamente, que governará para o futuro do país.

Sobre valores e ideologias, Tebet reafirma que seu time é de economistas liberais. Diz, ainda, que resolverá a economia “dando peixe e ensinando a pescar”. É quando ela demonstra sua primeira fragilidade, apesar de escapar da pergunta sem danos. Defende com eloquência a redistribuição de renda, ainda que não uma taxação de grandes fortunas, e a melhoria do ensino público, preparando assim o Brasil para o futuro, garantido pelo Fundeb. “Não falta dinheiro para educação, falta vontade de dar educação, pois essa consegue tirar do cabresto”, diz.

Em outro plano econômico, ao ser questionada sobre imposto de renda e a reforma tributária, Tebet demonstra ser astuta ao tentar agradar todas as classes do país. Afirma que os pobres pagam mais impostos, e defende essa tese questionando o quanto o pobre deixa no supermercado. Ainda, relembra sua atuação como parlamentar para a diminuição de impostos aos mais pobres. A candidata diz defender a taxação de dividendos dos mais ricos, algo que ela chamaria de “Lei Hobin Hood”.

Exaustivamente defendendo seu time de liberais, emenda a resposta com críticas ao orçamento do governo atual e a centralização do Congresso nesta gestão. Quando questionada sobre dados da gestão do estado do Mato Grosso do Sul enquanto vice-governadora, Tebet, aqui, demonstra tentar escapar da casca de banana. Reafirma ter sido apenas vice e defendendo sua atuação enquanto prefeita em detrimento da sua vice governança.

Defende ainda avanços realizados, mesmo com Bonner questionando se os números batem. Tebet trabalha muito bem com seus jargões e diz que a “educação não pode deixar de ser prioridade nacional” e se posiciona como uma “apaixonada pela educação”. Trabalhando com sua trajetória também como secretária e professora, Simone exibe boa capacidade em narrativa, e desenvoltura no discurso. “Quem tá aqui não foi a prefeita, deputada, quem tá aqui é a alma da mulher brasileira, coração de mãe”. E segue com críticas as antigas gestões petistas e ao governo Bolsonaro.

Sobre a segurança pública, a candidata defende que a segurança pública não é assegurada pelos Estados e defende uma organização maior junto do governo federal, com um bom ministro de segurança pública, elaborando críticas a atual gestão da pasta no governo Bolsonaro. Bonner questiona sobre “previdência” de trabalhadores informais do plano de governo de Tebet, uma ótima proposta, que demonstra também uma preocupação séria com o projeto nacional da candidata. Tebet menciona que é um FGTS para beneficiários do auxílio Brasil, porém se apoia de novo em seu economistas liberais como portos seguros dessas propostas. “São muito rigorosos”, diz.

Após essa última resposta, Simone Tebet faz suas considerações finais. Nela, usa seu minuto final para fazer um rápido apanhado do que demonstrou ao longo da entrevista: uma candidata interessante, com futuro promissor — sobretudo em um retorno ao pragmatismo político que vivíamos antes da atual polarização. Ciente de suas baixas chances de vitória e pouco amparo de seus próprios aliados, Tebet defende sua candidatura com o entusiasmo de um projeto pessoal, assegurado em sua própria ambição política.


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