1917: uma crítica tardia do manifesto imagético de Sam Mendes

Entendo agora a solidão da pessoa que volta de lá [da guerra]. É como se viesse de outro planeta ou do além. Ela tem o conhecimento de algo que os outros não têm, e só é possível conquistá-lo ali, perto da morte. Quando tenta transformar isso em palavras, tem a sensação de uma catástrofe. A pessoa se cala. Ela quer contar, o resto queria entender, mas estão todos impotentes.

A guerra não tem rosto de mulher, Svetlana Alexijevich.

O filme é 1917. O pano de fundo histórico já foi utilizado até quase rasgar. Os personagens principais são somente dois. O roteiro é simples: levar um objeto do ponto A para o ponto B. 

França, 1917, Primeira Guerra Mundial. Dois cabos ingleses, Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George MacKay), têm que transportar uma carta de uma trincheira para outra. O objetivo é evitar a queda do exército britânico em uma emboscada alemã. No batalhão ameaçado, está o irmão de Blake – logo se estabelece uma motivação pessoal na trama. Caso a dupla falhe, há a possibilidade de morrerem 1,6 mil soldados – adiciona-se à jornada um motor humanístico, coletivo e patriótico, além de um senso elevado de risco. 

O filme está localizado na fronteira entre o gênero de guerra, de drama e de sobrevivência. Lançado em 2019, é dirigido por Sam Mendes, diretor de dois 007 e de Beleza Americana. O cineasta se inspirou em histórias reais contadas pelo avô, combatente de baixa patente durante a Primeira Guerra Mundial. Inclusive, dedica a obra a ele. O responsável pela fotografia, vencedora do Oscar 2020, é Roger Deakins, por trás das câmeras de Blade Runner: 2049, de Onde os Fracos Não Têm Vez e de Fargo. A trilha sonora é de Thomas Newman. Além dos protagonistas, o elenco dispõe de estrelas como Richard Madden e Benedict Cumberbatch. 

Em relação ao contexto histórico, a narrativa transcorre na Europa durante a Primeira Guerra Mundial. Posterior à Belle Époque, o conflito marca a desilusão do Velho Mundo: a suposta civilidade sendo selvagem com si própria em uma disputa irracional por matéria-prima, por mercado consumidor e por poder. A crença inabalável na superioridade moral europeia, na razão e no progresso permanente da História caem em conjunto dos prédios e dos soldados.

Na batalha, entram em confronto direto as grandes potências da época. De um lado, Inglaterra, França e Rússia (Tríplice Entente); do outro, Itália, Império Austro-Húngaro e Alemanha (Tríplice Aliança). O saldo da guerra é superior a 20 milhões de mortos – o avanço técnico e científico, glorificado anteriormente, é empregado para matar em larga escala. O ano de 1917 marca a entrada dos Estados Unidos no conflito, ao lado da Tríplice Entente, e a saída da Rússia após a Revolução Bolchevique. Sam Mendes narra os acontecimentos antes das grandes mudanças, na primavera de 1917.

A narrativa simplíssima rende um filme espetacular. O diretor filma a história em plano sequência – há apenas um corte brusco, os outros são sutis –, o que favorece a imersão e a empatia. O espectador acompanha cada passo dos protagonistas, como se estivesse na travessia junto deles: a câmera, por exemplo, desce ou sobe a depender da posição dos soldados. Não há descanso nem respiro possível para os homens na guerra, o que mais uma vez justifica a opção estética de filmar ininterruptamente.

A produção do longa recriou quilômetros de trincheiras, espaços fundamentais durante a Primeira Guerra Mundial.

Para sustentar uma tomada contínua em enquadramentos espaçosos e a céu aberto, é necessária uma multidão de figurantes bem dirigidos. A cenografia grandiosa, as atuações, os efeitos especiais e o figurino verossímeis, a trilha sonora – às vezes o silêncio é utilizado para amplificar o som ambiente – e a luz natural são todos articulados a fim de recriar o quanto possível a realidade. É o cinema a perseguir o mito do realismo total. A forma, portanto, serve para potencializar o conteúdo.

O filme também é carregado de imagens e de símbolos fortes. As ações dos personagens são mais significativas do que as palavras deles. A obra evita lugares-comuns das narrativas de guerra: as cenas de violência explícita são poucas, a política é implícita e as figuras dos livros de História estão fora da tela. 

Destaco a seguir duas sequências convidativas à reflexão. Em um momento, um dos protagonistas encontra uma francesa responsável por cuidar de um bebê de uma mãe desconhecida. A mulher está no subsolo de uma cidade em chamas. O encontro, dificultado pela diferença linguística, é um dos mais sensíveis do longa. O soldado dá à moça um pouco de leite, encontrado por acaso horas antes, para nutrir a nova vida nascente entre o fogo e a morte. A mensagem é de esperança: por mais que haja destruição e crueldade, há possibilidade de reconstrução e de bondade.

Em outra cena, um dos soldados encontra um aliado cantando em inglês a canção folk Wayfaring Stranger. A letra trata de um viajante errante a caminho do paraíso. Para alcançá-lo, atravessa os descaminhos da vida. O drama do eu lírico e o dos protagonistas se confundem. A música é de autoria desconhecida. Contudo, estudiosos apontam para o surgimento dela no começo do século 19, possivelmente derivada de um hino alemão – ou seja, as palavras entoadas angelicalmente por um soldado britânico se originaram do front inimigo. 

1917, por meio da imagem e do símbolo, expressa o quanto a guerra é terrível. Embora seja uma narrativa heroica, Sam Mendes filma o drama do homem comum na batalha, o que resulta em um heroísmo sujo, doloroso e nada desejável. A obra do cineasta britânico, um manifesto anti-guerra imagético, é como uma medalha militar: não torna ninguém especial.



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