Em uma análise histórica simplificada, desde a construção do saber científico ao estabelecimento das metodologias científicas, os escopos da ciência não eram limitados, sendo trabalhada uma interdisciplinaridade na análise dos mais diversos filósofos e matemáticos mais conhecidos da história. O homem, nesse sentido, sempre fora examinado a partir do local que ocupa frente a natureza.

Hoje em dia, contudo, cientistas sociais encaram discursos desqualificadores e discriminatórios em um viés positivista anticientífico. A valorização das ciências da natureza em sobreposição às ciências sociais se apresenta por uma suposta metodologia mais sofisticada, com a realização de testes, observações e resultados em laboratórios, enquanto ciências humanísticas se limitam a “achismos” e “ideologia” dos autores em questão. Mas não funciona assim, nem em prática, nem em teoria, tampouco para as ciências da natureza ou da saúde. Não conheço, por exemplo, nenhum psicólogo ou ecologista que faça ciência sem revisão bibliográfica e, consequentemente, com “sua visão”.

Segundo Edson Silva Farias, em Multimodalidade da memória e a sociologia dos a priori sociais, a tradição filosófica grega delimita três dimensões primordiais do saber, logo da verdade: a ontologia (a pergunta sobre o ser; acerca da essencialidade do existente); a metafísica (a causa primeira e última; o princípio que informa a existência); e a epistemologia (a possibilidade de demonstração do como algo existe à maneira como se apresenta). A ideologia, por outro lado, carrega consigo os acúmulos das relações sociais e produtivas presentes na vida sócio-política, bem como a consciência em formação dos indivíduos. Isto é, ninguém está isento da consciência social que carrega, ainda mais submetido a um certo tipo de regime e sistema político, incorporando os valores e simbolismos da sociedade na qual se insere.

Isso significa, de modo até nítido se vista a história mundial, que “fazer ciência” é, portanto, enviesado ideologicamente. Surge, então, facetas nocivas à liberdade e direitos humanos de grupos sociais, tal como o determinismo biológico.  O determinismo biológico é o pilar basilar de teorias científicas racistas, orientalistas e sexistas, é o que sustenta o reacionarismo e o conservadorismo, se utilizando do aparato da biologia, medicina e psicologia para justificar a posição inferior dos oprimidos: os racializados não-brancos e as mulheres. Presente no senso comum atualmente, o convencimento do instinto materno contra o instinto masculino, o favorecimento do porte físico dos povos africanos e indígenas para uma justificativa à escravidão é corroborada até hoje com respaldo científico, seja das humanas, seja da natureza. Enquanto resultado, vemos o racismo, usado para a manutenção da subjugação dos povos do mundo. 

Em sua obra mais notável, O Orientalismo, Edward Said critica a formulação de teses e teorias dos acadêmicos orientalistas na Europa e América do Norte, classificando-os enquanto uma ferramenta vital do poder imperial. Sobre isso, discorreu que desde o início da especulação ocidental sobre o Oriente, a única coisa que este não podia fazer era representar a si mesmo. As evidências do Oriente, de tal maneira, eram dignas de crédito só depois de terem passado e sido reforçadas pelo fogo purificador da obra do orientalista.

Com isso, o autor evidencia que para além das capacidades enunciativas, o discurso orientalista originava-se de um profundo conservadorismo, além de que baseava sua existência não para uma receptividade do que provinha do Oriente, mas seu poder constitutivo sobre tal. É de acordo com esses preceitos que o orientalismo sobreviveu a revoluções, guerras mundiais e o desmembramento de impérios. Por conseguinte, um outro método utilizado para solidificar a transmissão do oriente ao ocidente parte de uma vital convergência científica: a tradução de textos, o estudo explicativo de civilizações, religiões, culturas e valores, meramente enquanto objetos de pesquisas acadêmicas, separados do dia-a-dia da Europa.


A relação entre o orientalista e o Oriente era essencialmente hermenêutica: perante uma civilização ou monumento cultural distante e apenas inteligível, o estudioso orientalista diminuía a obscuridade traduzindo, retratando solidariamente, apreendendo internamente o objeto difícil de alcançar. Mas ele continuava fora do Oriente, e este, por mais que o tivessem feito parece inteligível, continuava além do Ocidente (SAID, 2007).


A relação, a partir de agora, torna-se óbvia: a produção do saber serve, também, a uma consolidação ideológica. Ou seja, o procedimento científico parte, igualmente, de um contexto político e socioeconômico. Na análise dos movimentos filosóficos, é inequívoco relacionar a formulação das ideias ao momento histórico, composto dos aspectos políticos da estrutura determinante. A problemática canônica surge, assim, através do apagamento das maneiras não-canônicas de se pensar filosofia.

Consonante à legitimidade e à coerção, que compõem o vigente regime de relações de forças assimétricas, são extraídos os ideais gramscianos de poder. Na visão de Antônio Gramsci, os dois grandes níveis superestruturais inseridos no Estado — a sociedade civil e a sociedade política — devem ser controlados pela classe dominante se estes quiserem dominar todo o aparato do Estado. Contudo, isso só pode ser estabelecido quando um “consentimento espontâneo” é dado pela população em geral, ocasionando os elementos difundidos pela ideologia do orientalismo, através de seus discursos e narrativas, para obter o apoio popular de levar a civilização ao oriente.

Isto é, a classe dominante e o aparato estatal mantém controle sobre as populações dos países periféricos e semiperiféricos do Sistema-Mundo através da coerção, seja por controle colonial, seja por invasões, golpes ou apoios de regimes autoritários, como aponta William Robinson em Promoting Polyarchy: Globalisation, US Intervation, and Hegemony.

Por isso, Gilles Deleuze entende a história da filosofia como um processo que exerce uma função repressora evidente, sendo o Édipo propriamente filosófico: “Você não vai se atrever a falar em seu nome enquanto não tiver lido isto e aquilo, e aquilo sobre isto, e isto sobre aquilo.”. Aqui, Deleuze retrata uma crítica à concepção — frequentemente aceita na academia —  do saber máximo, na qual o teórico se estabelece enquanto nome somente sob as circunstâncias de um domínio de conhecimento amplo. 

Sob esse contexto, em uma virada epistemológica, a periferia do saber científico, principalmente guiada pela decolonialidade, reage questionando os procedimentos para a consolidação da ciência tradicional. Isto é, rejeitam uma metodologia pré-estabelecida e que por si só serviu para fins de dominação ideológica.

Destarte, sob a égide do tradicionalismo científico, as produções científicas projetadas pelo e para o Oriente entra em embate com os interesses políticos, mas também econômicos, das potências hegemônicas. Torna-se, pois, imprescindível destacar as palavras de Aimé Césaire, ao recordar que a colonização desumaniza até o homem mais civilizado; que a atividade colonial, a empresa colonial, a conquista colonial, que se baseia no desprezo pelo nativo e justificada por esse desprezo, tende inevitavelmente a mudar quem a empreende; que o colonizador, para acalmar a consciência adquire o hábito de ver o colonizado enquanto um animal, se acostuma a tratá-lo como animal e tende objetivamente a transformá-lo em um.

Desmistificar o Oriente significaria, principalmente, humanizar um território rico em recursos naturais, favorável à dominação e à colonização, enquanto seu silenciamento e apagamento colherão mais benefícios para o eurocentrismo. Tal prisma torna-se de extremo valor ao observarmos que, tal como o trecho supracitado discorre, os povos que habitam a periferia mundial sob ocupação européia passaram a ser vistos como objetos, em um processo que Césaire tipifica como uma “coisificação” na ordem colonial, no qual se tornam bens de valor.

Em resposta ao questionamento inicial, Ailton Krenak traz uma crítica indireta à concepção iluminista ao relacionar a liberdade colonial europeia à premissa de que havia uma humanidade esclarecida, que precisava ir ao encontro da humanidade obscurecida, trazendo-a para a luz.

Essa tese, em consonância às formulações de Said guiadas pelo legado marxista da filosofia, realoca a metafísica como uma abordagem pragmatista e mecanicista do prisma ocidental, por considerar todos os objetos da natureza como existentes isoladamente. Sendo assim, a interpretação, observação e análise dos fenômenos sociais e humanos decorrem de uma metodologia científica rigorosa que busca atrelar-lhe os resultados examinados a partir do método utilizado, partindo indubitavelmente do viés ideológico do autor, mas definitivamente distante de ser um aspecto necessariamente negativo, se usado com rigor científico.