Ramadã e Resistência: A luta na Palestina ocupada pela liberdade religiosa


A origem árabe do termo “Ramadã” significa “ser ardente”, por ser um momento de renovação da fé, da prática mais intensa da caridade, e vivência profunda da fraternidade.


Hamza era apenas um homem comum
como outros em minha cidade natal
que trabalham apenas com as mãos para ganhar pão.
Quando o conheci outro dia
esta terra estava vestindo um manto de luto
em silêncio sem vento. E me senti derrotado.
Mas Hamza-o-comum disse:
'Minha irmã, nossa terra tem um coração palpitante,
não para de bater, e suporta
o insuportável. Ele guarda os segredos
das colinas e úteros. Esta terra que brota
de espinhos e palmeiras é também a terra
que dá origem a um lutador da liberdade.
Esta terra, minha irmã, é uma mulher.

Fadwa Tuqan

Em 1916, as potências imperiais da França e da Grã-Bretanha se reuniram em segredo para formular o acordo Sykes-Picot, que impactaria o Oriente Médio política, social e culturalmente para sempre. Os burocratas coloniais decidiram que, em vez de conceder aos povos da região o direito à autodeterminação, como inicialmente acordado, eles dividiriam o Oriente Médio entre si e iniciariam um processo de aquisição colonial sob o pretexto do Sistema de Mandatos apoiado pela Liga das Nações.

Ao dividir esses territórios contra a vontade dos povos indígenas do Oriente Médio, as forças coloniais criaram mais do que apenas barreiras físicas entre eles – elas também transformaram a cultura dos habitantes da região, de seu senso de identidade para sua língua. Após algumas decisões tomadas por pessoas que vieram de milhares de quilômetros de distância, os povos do Oriente Médio ganharam novas identidades nacionais que os separaram dos vizinhos com os quais compartilharam a região e sua cultura por séculos.

A fotografia acima é uma vista de Jaffa, cidade da Palestina Histórica do Mar Mediterrâneo, entre 1890 e 1900. Enquanto grande parte da cultura palestina e levantina está centrada em cidades costeiras, milhões de palestinos nunca estiveram no Mar Mediterrâneo, devido à ocupação israelense. Assim, a Palestina se vê há tempos em um domínio colonial, ora francês e britânico, ora israelense, e no Ramadã, nono mês do calendário islâmico, no qual muitos muçulmanos se dedicam ao jejum tiveram sua resistência reformulada, no sentido de que muitos palestinos precisam resistir às provocações das Forças de Defesa de Israel, bem como sua tentativa de avanço territorial.

A origem árabe do termo “Ramadã” significa “ser ardente”, por ser um momento de renovação da fé, da prática mais intensa da caridade, e vivência profunda da fraternidade. Neste período, é incentivada uma proximidade maior com os valores sagrados, como a leitura do Alcorão e certa frequência de orações na mesquita. 

No que tange ao jejum, é comumente retratado por muçulmanos como um período de profunda reflexão acerca daqueles que vivem em fome e sede constante. Além disso, acredita-se que promove uma limpeza espiritual no sentido de promover uma profunda disciplina espiritual e moral. Há, contudo, vários fatores que podem levar um crente a não jejuar, tais como enfermidades, gravidez, lactante, menstruação, ser idoso ou ter uma doença incurável. A ação não se limita somente à abstinência de comer ou beber, mas também de todas as coisas más, maus pensamentos ou maus atos. O jejuador deve ser indulgente se for insultado ou agredido por alguém, além de que deve evitar todas as obscenidades, ser generoso, bem mais do que os outros meses e aumentar a leitura do Alcorão. Os muçulmanos referem-se ao Ramadã como uma prática adotada por todas as classes sociais da comunidade, servindo, também, para que os ricos saibam como é viver como os pobres vivem, os quais, durante os 365 dias do ano, frequentemente possuem apenas uma refeição diária ou nenhuma.

É nesse mesmo período, de reflexão e solidariedade que as forças israelenses este ano, ainda no início da celebração muçulmana, se aproveitaram da vulnerabilidade dos árabes-palestinos e aumentaram os níveis de segurança, através de mais repressão, após três ataques que causaram a morte de onze civis israelenses. 

Como se não fosse o bastante, na semana passada, Naftali Bennett se pronunciou publicamente, incitando o uso de porte de armas aos civis de Israel alegando que ”esta é a hora de carregar uma arma”. O governante parece não considerar, contudo, que no ano passado, durante o Ramadã, um conflito entre o Estado de Israel e o povo palestino se intercalou após a tentativa de apropriação e limpeza étnica do bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, resultando em onze dias de violências mortais.

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Entrando no mês do Ramadã e com os acontecimentos de Sheikh Jarrah prestes a fazer um ano, relembramos e honramos as vidas perdidas no massacre realizado por Israel em maio de 2021. 

No último domingo (03), as forças de segurança israelenses prenderam dez palestinos e feriram outros na segunda noite do Ramadã, frente a uma repressão às multidões reunidas no Portão de Damasco, em Jerusalém Oriental ocupada. Ao menos 19 palestinos ficaram feridos pelo uso de balas de aço revestidas de borracha, granadas de efeito moral, cassetetes e forças montadas para dispersar as multidões por parte da polícia israelense. As imagens compartilhadas pelas redes mostraram forças israelenses, incluindo oficiais disfarçados, espancando e ferindo palestinos enquanto os prendiam.

A repressão de domingo ocorreu horas depois que o ministro das Relações Exteriores de Israel, Yair Lapid, visitou o Portão de Damasco e a Cidade Velha para mostrar apoio à polícia. Sua viagem foi criticada como uma “incursão provocativa” por vários movimentos palestinos, incluindo a Autoridade Palestina (AP), o Fatah, o Hamas e a Jihad Islâmica.

O Ministério das Relações Exteriores da Autoridade Palestina disse em um comunicado que “condena nos termos mais fortes a incursão provocativa do ministro das Relações Exteriores de Israel, Yair Lapid, na área do Portão de Damasco, em Jerusalém ocupada”. “[O ministério] condena veementemente as promessas que ele fez aos extremistas judeus de mobilizar mais forças de ocupação e policiais em Jerusalém sob o pretexto de protegê-los durante os feriados judaicos”. O Portão de Damasco, uma das principais entradas da Cidade Velha, é um ponto de encontro popular para os palestinos em Jerusalém e um lugar para se reunir e socializar. É também frequentemente palco de manifestações contra Israel. Durante o mês sagrado do Ramadã, multidões se reúnem do lado de fora do antigo portão – que os palestinos chamam Bab al-Amoud – para cantar, comer e beber.

Ainda no fim de semana, Bennett falou por telefone com o rei jordaniano Abdullah, que enfatizou a necessidade de “evitar qualquer escalada”. O rei pediu “remoção de todos os obstáculos às orações muçulmanas no complexo da Mesquita de Al-Aqsa, particularmente com o início do mês sagrado do Ramadã, e para evitar provocações que possam levar a uma escalada”, dizia um comunicado da corte real jordaniana. 

Na manhã de segunda-feira, as autoridades israelenses detiveram e interrogaram pessoas que visitavam os feridos na repressão no Hospital al-Makassed, segundo o site de notícias Arab48. Os ataques no Portão de Damasco ocorrem em meio a tensões aumentadas e avisos de planos de colonos israelenses de invadir a Mesquita de al-Aqsa durante o mês sagrado do Ramadã, parte do qual coincidirá com feriados judaicos.

Em adição a isso, Israel também renovou o fechamento de 28 grupos da sociedade civil palestina em Jerusalém Oriental ocupada, incluindo a Casa do Oriente e os escritórios do Clube dos Prisioneiros, informou a mídia local. Na segunda-feira, os representantes do município de Jerusalém, o Shin Bet, o Ministério da Segurança Interna e o Comando da Frente Interna do Exército combinaram estender o fechamento dos escritórios da sociedade civil palestina na cidade durante uma reunião. Acredita-se amplamente que Israel perseguiu uma repressão às instituições palestinas na cidade, incluindo escolas e grupos de ONGs, para impedir a Autoridade Palestina de se estabelecer em Jerusalém Oriental.

Manifestante palestino é detido pelo exército israelense durante confrontos com forças de segurança israelenses perto do Portão de Damasco da Cidade Velha de Jerusalém em 3 de abril de 2022. Fotografia por: AFP.

Israel aumentou a presença de sua polícia militar em Jerusalém Oriental, pois esperava que as tensões aumentassem na cidade justamente durante o mês do Ramadã e os feriados da Páscoa em abril. Na terça-feira, Israel libertou o governador da Autoridade Palestina de Jerusalém, Adnan Gheith, depois que ele foi convocado para interrogatório pela manhã. Gheith é um residente do bairro de Silwan e, embora seu papel como prefeito de Jerusalém seja simbólico, Israel o prendeu mais de 28 vezes e o proibiu desde 2018 de deixar a cidade e se reunir com funcionários da Autoridade Palestina. Ele disse à agência de notícias Wafa que “minha prisão vem como parte da série criminosa que a ocupação está realizando contra nosso povo… Israel  ocupou Jerusalém Oriental durante a Guerra Árabe-Israelense de 1967. Anexou a cidade inteira em 1980, em um movimento não reconhecido pela maioria da comunidade internacional.”



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