Como a harmonia do desenho urbano ajuda o Comércio e o Espaço Público

por Thiago Nossa Neto

Mesmo antes da pandemia da COVID-19, o comércio varejista já vinha enfrentando dificuldades que são conhecidas, não apenas devido ao contexto econômico adverso e à estrutura burocrática do país, mas também a concorrência das vendas pela Internet e dos grandes shopping centers.

O desenho urbano, assim definido como a harmonia entre o espaço construído e as interações humanas, acaba sofrendo pela indefinição dos instrumentos mais adequados para a sua implementação. As áreas comerciais das cidades brasileiras geralmente são muito carentes em termos de espaço urbano de qualidade para a população.

Você já deve ter ouvido a máxima: para quem não sabe aonde quer chegar, qualquer caminho serve. Se isso é verdade para as pessoas, é mais ainda para a dimensão coletiva: ter mais atores significa mais interesses a equacionar.

Esse é o caso das cidades contemporâneas. Sem um planejamento que parte de um bom diagnóstico, não é possível resolver as demandas urbanas que se acumulam e se interseccionam de forma cada vez mais complexa. 

Vale ressaltar que a maioria das pessoas não passa o dia inteiro nas ruas do comércio, pois a tendência é apenas consumirem o mais rápido possível e partirem logo em seguida, uma vez que o espaço público atual não é convidativo para uma permanência mais duradoura. Já nos grandes shoppings, o tempo de permanência é maior devido ao fato do local ser mais urbanisticamente agradável e confortável, o que gera para o shopping um maior potencial de consumo realizado por elas. 

Foto: Barefoot Urban Design/Reprodução.

Já as compras online que vêm aumentando no Brasil, terão um salto ainda maior após o COVID-19, visto que o fator preço e praticidade são os grandes diferenciais e por isso há a necessidade do comércio de loja física oferecer uma experiência diferenciada que estimule as pessoas a comprarem mais na própria cidade.

As diversas atividades sociais e recreativas – o ato de conversar, de observar a movimentação de pessoas, caminhar próximo às vitrines, fazer uma refeição – que compõem parte dessa experiência ocorrem de maneira espontânea no espaço público e contribuem diretamente para a saúde do comércio.

No entanto, para que essas atividades ocorram com mais frequência é vital que o desenho do espaço público em questão seja convidativo, para a permanência do público no local.

A melhoria do espaço público está sob domínio do próprio poder público. Lembrando que existem várias maneiras de melhorar este espaço. Independentemente do processo de melhoria do espaço público, seja através do urbanismo tático ou de um grande projeto urbanístico, a experiência humana no ambiente construído deve ser a prioridade de qualquer iniciativa de planejamento urbano. 

Podemos incluir como elementos básicos do desenho urbano a melhoria do mobiliário urbano, infraestrutura verde, qualidade da estrutura da calçada, proteção contra a exposição solar, transparência das fachadas das lojas, segurança contra a circulação de automóveis, acesso ao transporte público e infraestrutura de bicicletas.

Deste modo, o desenho urbano nas cidades brasileiras necessita fortalecer o potencial do comércio existente nos centros e bairros das cidades cujas áreas possibilitem a melhoria da experiência dos usuários no local de modo que seja convidativo a permanência das pessoas por mais tempo. 

Assim, não somente contribuindo com a criação de um espaço público de qualidade, mas também o comércio, além do turismo, seria o grande beneficiário, visto que aumentaria o tempo de permanência e o número de pessoas circulando no ambiente, o que consequentemente tende a impactar no aumento das vendas pelo comércio local e resultando na geração de empregos. 

A venda de uma loja não começa dentro da loja, mas sim na calçada.

Originalmente publicado no O Diário da Região.

Thiago Nossa Neto – Colaborador no Mylab Projetos Criativos, Voluntário no Instituto Tri, Bacharel em Relações Internacionais pela FACAMP, Pós-Graduado em Relações Econômicas Internacionais pela UNESP/SP, e Mestre em Práticas de Desenvolvimento Urbano pela Universidade de Queensland (Austrália).



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