A morte de Elizabeth II acende memórias de um passado colonialista sangrento


A família Windsor, e todos os outros reis que já governaram as Ilhas Britânicas, discretamente já se opuseram a mecanismos democráticos da sociedade. Até hoje, a família real ainda busca proteger seus privilégios, sua riqueza e suas posições antidemocráticas de poder.


Do Quênia e Nigéria à África do Sul e Uganda, a morte da Rainha Elizabeth II aos 96 anos, no dia 8 de setembro, vem sendo recebida com uma enxurrada de condolências vindo de líderes com lembranças de suas frequentes visitas durante suas sete décadas no trono.

Como monarca, Elizabeth desempenhou um papel essencial na preservação da estabilidade social e política, especialmente em tempos de crise intensificada para o imperialismo britânico. Ela foi colocada na linha de sucessão ao trono como resultado da abdicação de seu tio, Eduardo VIII, em 1936, cujas simpatias nazistas e de sua amante Wallis Simpson ameaçavam desacreditar a monarquia e provocar conflitos sociais e políticos.

No entanto, sua morte também reviveu um debate preciso sobre o passado colonial e imperialista britânico, não apenas na África, mas também na Índia (Grande Fome em Bengala, de 1943), Irlanda (A Grande Fome na Irlanda), Canadá (genocídio dos povos indígenas) e Malásia (massacre de Batang Kali, em 1948).

Desde o início, o reinado da rainha Elizabeth II esteve profundamente ligado ao império global da Grã-Bretanha e aos longos e sangrentos processos de descolonização. De fato, ela se tornou rainha durante uma visita real ao Quênia em 1952. Depois que ela partiu, a colônia mergulhou em um dos piores conflitos do período colonial britânico. Declarando estado de emergência em outubro de 1952, os britânicos continuariam a matar dezenas de milhares de quenianos antes que terminasse.

É possível separar os atributos pessoais de uma gentil mulher do seu papel como líder monarca de um império em declínio que travou inúmeras guerras e resistiu àqueles que exigiam independência em todo o mundo?

Embora ela fosse uma monarca constitucional que geralmente seguia a liderança de seu parlamento, alguns que representam o parlamento britânico não pensam assim, e historiadores concordam que “Elizabeth II ajudou a obscurecer uma história sangrenta de descolonização cujos legados ainda não foram devidamente reconhecidos”, afirma a professora de Harvard Maya Jasanoff, para o New York Times.

A mentalidade colonial

O império britânico se contraiu após duas Guerras Mundiais e acabou se dissolvendo na década de 1960. No entanto, uma mentalidade colonial ainda persistiu. Herança que foi demonstrada regularmente pelas atitudes racistas do príncipe Philip. Por exemplo, quando visitava a Austrália em 2002, ele perguntou a um aborígene australiano se eles “ainda atiravam lanças”.

Em outro episódio, no ano de 1999, o príncipe pensou que uma caixa de fusíveis deveria ser “carregada por um Indiano”. Em 1986, ele alertou a estudantes britânicos na China que eles ficariam “de olhos semicerrados” se ficassem por lá muito tempo. Austrália, China e Índia são apenas três das dezenas de países tocados pela colonização britânica.

Embora os comentários do príncipe Philip – e de muitos outros – sejam muitas vezes descartados como “gafes” ou vistos como piadas ruins, eles se vinculam a uma guerra cultural, sugerindo que o colonialismo era, em última análise, um bem que justificava os meios e que a Grã-Bretanha conseguiu cultivar e espalhar civilização pelo mundo.

O ativista de direitos humanos e jornalista Peter Tatchell argumenta que a própria instituição da monarquia é inerentemente racista, pois só houve, e provavelmente sempre haverá, monarcas brancos. Assim ele observa:

Uma pessoa não-branca é […] excluída do título de chefe de Estado, pelo menos no futuro previsível. Isso é racismo institucional.

Foi na África do Sul que Elizabeth II declarou sua intenção de se dedicar à “família imperial” de colônias britânicas em seu aniversário de 21 anos. Mas foi também na questão do regime do apartheid da África do Sul que a rainha mostrou um raro momento de discordância com um de seus primeiros-ministros, recusando-se a aceitar discretamente a decisão de Margaret Thatcher de não se juntar a outros países na imposição de sanções econômicas ao regime.

Em outros lugares, a complicada história do Iraque com o Reino Unido, que remonta à década de 1920, também foi notada em relatos locais. Mais recentemente, centenas de milhares de iraquianos foram mortos durante a guerra que a Grã-Bretanha começou ao lado dos Estados Unidos, Austrália e outras nações em 2003.

Na Malásia, o papel dos britânicos em massacres e programas de reassentamento em massa durante a sangrenta Emergência Malaia (1948-1960) e o período de descolonização também é claramente lembrado. Não só este conflito se espalhou durante os primeiros anos do reinado da rainha Elizabeth II, como todas as tentativas de investigação sobre os eventos na Malásia foram frustradas pelos governos britânicos.

Mesmo na Irlanda, que procurou suavizar as relações com seu vizinho mais próximo, o presidente Michael D. Higgins caracteriza eufemisticamente o relacionamento com o reinado da rainha Elizabeth II como “aqueles com quem seu país experimentou uma história complexa e muitas vezes difícil”.

Uma perspectiva real

A rainha pode ter “encantado” alguns na Irlanda com sua homenagem àqueles que lutaram contra os britânicos. Mas poucos terão esquecido o papel do exército britânico na Irlanda do Norte, incluindo o Massacre do “Domingo Sangrento” (Bloody Sunday) de 1972, nem a declaração da rainha em nome do governo de Boris Johnson rejeitando as demandas de suas vítimas por justiça.

Alguns podem sugerir que a história do declínio do Império Britânico deve ser vista como isolada do reinado e da pessoa de Elizabeth II. Certamente nada sugere que a rainha era particularmente belicosa em seu comportamento.

Mas, como Thomas Paine observou certa vez, embora um monarca possa ser pessoalmente gentil e generoso, ele continua sendo o monarca, o chefe do estado que luta suas guerras e (às vezes) comete seus crimes – tudo em nome da Coroa.

Alguns podem argumentar que Elizabeth II não foi responsável pelos crimes e genocídio nas colônias britânicas e, portanto, ela não deveria ser responsabilizada. Respondendo a essa lógica, se aplicada ao Rei George V, James Connolly, revolucionário irlândes, escreveu carta durante a visita do rei na Irlanda, em 1910 :

Não o culparemos pelos crimes de seus ancestrais se ele renunciar aos direitos reais de seus ancestrais; mas contanto que ele reivindique seus direitos, em virtude de descendência, então, em virtude de descendência, ele deve assumir a responsabilidade por seus crimes

Se voltarmos para alguns dos 250,000 telegramas do WikiLeaks, aprendemos que em meados de 1970, a família real britânica se esforçava para lidar com a questão de como poderia manter sua posição privilegiada no cenário internacional. Um conselheiro político da Commonwealth of Nations (Comunidade Britânica de Nações), Amitav Banerji, disse a diplomatas americanos em junho de 2009, um grupo de 54 estados membros, que já formaram o núcleo do império britânico, estariam considerando o protocolo de sucessão adequado após a morte da rainha Elizabeth II.

Hoje, a esperança da classe burguesa e dominante é que o tempo de Charles no trono seja curto para que o príncipe William, cuidadosamente treinado e preparado, possa ter a chance de restaurar a posição pública de uma monarquia com importância limitada para o século XXI.


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