Hoje celebramos o 101º aniversário do nascimento do filósofo brasileiro Paulo Freire. Mais conhecido por sua obra magistral “Pedagogia do Oprimido”, Freire continua a ser uma estrela-guia para profissionais da área de educação e literatura. Todo educador de espírito crítico em algum momento usou Freire em sua metodologia – seja para obter alguma visão do mundo invertido dos oprimidos ou como a inspiração que os levou a ver o ensino como uma maneira de derrubar as assimetrias de poder e privilégio da sociedade.

Os programas de alfabetização de Freire para empoderamento intelectual, hoje, são usados em países de todo o mundo, e a obra Pedagogia do Oprimido é atualmente a terceira obra mais citada nas ciências sociais e a primeira no campo da educação.

De fato, a fama de Freire o fez um alvo e um profeta no Brasil. Desde que Jair Bolsonaro foi eleito em 2018, Paulo Freire é sempre apontado por grupos conspiracionistas do aspectro da extrema direita e pelo próprio presidente Bolsonaro por ser responsável de um movimento de “doutrinação do marxismo cultural” no sistema escolar brasileiro.

Um educador revolucionário

Paulo Freire cresceu no nordeste do Brasil, no Recife, durante a Grande Depressão da década de 1930. Aprendeu a ler fazendo letras com os galhos da mangueira que fazia sombra onde se sentava quando jovem. A experiência de fome e pobreza de Freire, ainda jovem, acabou fazendo com que ele fosse passado para trás por quatro anos na escola, e a morte de seu pai em 1933 só piorou as coisas.

Apesar disso, Freire acabou conseguindo terminar seus estudos, se formou na universidade, obteve um doutorado na Universidade do Recife em 1959 e foi admitido na Ordem dos Advogados (embora nunca tenha exercido a advocacia). Iniciou sua vida profissional aos 26 anos, trabalhando como professor de português na Escola Secundária Oswaldo Cruz.

Em 1946, foi nomeado diretor da Secretaria de Educação e Cultura do Serviço Social, instituição patronal criada para prestar serviços de saúde, moradia, educação e lazer aos trabalhadores e suas famílias do estado de Pernambuco. Em 1961, tornou-se diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidade do Recife e envolveu-se em um projeto educacional de longa data para lidar com o analfabetismo em massa em 1962.

Freire era decididamente marxista, mas sua linguagem nunca avaliou o cenário político com o usual jargão marxista-leninista. Ele não pregava, por exemplo, que todo valor se origina na esfera da produção, nem acreditava que o principal papel da escola fosse servir aos agentes do capital e seus senhores.

Ele, no entanto, via a educação capitalista como a reprodução das relações sociais de uma ordem social dominante e exploradora, e que a panaceia típica de avanço de uma sociedade através da educação era muitas vezes um véu ideológico canalizando a solidariedade humana em falsas narrativas de trabalho duro individual, recompensa e progresso.

Nosso mundo é um lugar em que Freire, em muitos sentidos, lutou para evitar: um mundo onde o conhecimento através da formulação de problemas vem perdendo terreno para intermináveis guerras culturais; onde os professores estão sendo criticados por raciocínio baseado em evidências; onde as pessoas são punidas por desafiar a história dos emaranhados coloniais dos Estados Unidos e sua história brutal de escravidão.

Freire foi um filósofo formidável, mas em vez de reflexões isoladas, ele buscava usar a filosofia a serviço do avanço de sua pedagogia emancipatória. Buscava, também, sempre encorajar os educadores a reinventar seu trabalho em vez de simplesmente “transplantá-lo” através de várias fronteiras nacionais, pois enxergava seus ensinamentos emergindo de um contexto distintamente de onde veio.

O tipo de pensamento que Freire estimulou torna a covardia moral da maioria dos líderes políticos e figuras públicas de hoje ainda mais contundente.

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