Aviso aos leitores adolescentes: o texto a seguir contém linguagem e conteúdos que te colocariam em apuros caso sua mãe te pegasse lendo, recomendamos o bom senso.

Conversando com um amigo português, que também é escritor, fui alvejado por uma daquelas perguntas que nocauteiam qualquer postergador: “Como é que vão essas crónicas? Estás-te a aguentar?”. Mas que filho da puta, pensei. Respondi, porém, com sinceridade: Olha, tem semanas que quero morrer em vez de escrever, mas estão saindo! O amigo português, então, lançou a braba, quer dizer, o veredicto: “Escrever uma crónica semanal parecia fácil, não era?”. 

Pois é, meu amigo português, fácil até demais. Não sei como não desconfiamos de tanta esmola. O problema é que, ao mesmo tempo, em que os textos precisam nascer, a vida acontece lá fora. Os leitores e leitoras mais assíduos já saberão que não tenho mais um emprego fixo, e é exatamente esse o motivo de a vida lá fora estar acontecendo com muito mais intensidade. Agora, tenho tempo para fazer o que antes precisava esmagar entre uma e outra reunião. Como renovar minha habilitação de motorista no Poupatempo, realizar consultas e exames médicos, ajudar minha esposa a derrubar paredes e lixar tacos para surgir o mais novo estúdio de yoga de Santa Cecília e finalmente estudar para me tornar adestrador de cães, porque é exatamente isso o que vai acontecer: cansei de trabalhar com humanos [leia-se: startupeiros, publicitários, criativos, gestores e líderes] e dedicar-me-ei aos preferidos de Deus, os cães. Se a vida é tão curta e os aborrecimentos tão longos, sempre se justifica o prazer de estar cercado por cães.

Pensando bem, escrever uma crônica semanal até que é fácil, e meu amigo português me perdoe, mas crônica se escreve com chapéu. O difícil é deixar a vida lá fora para depois. Fora quinze anos trabalhando feito mula para que pessoas desprezíveis atulhassem o cu já gordo de dinheiro com mais e mais moedas. Chega.

Sabiá

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