Estou inquieta, tudo me incomoda. Não há nenhuma posição no mundo que me deixe confortável, seja em pé, deitada, com ou sem travesseiros, sentada em cadeiras de plástico, madeira ou ferro.
Sinto uma estranheza nova, que não é tristeza, nem raiva é algo no meio, mas sem força suficiente para emergir e me encarar nos olhos.
Devo voltar aos antipsicóticos? Creio que não. O que é o homem sem tristeza? Sem confusão? Sem dúvida na própria vida.

Me sinto tão vazia, mas sem o desejo de ser preenchida. Quero apenas coexistir ao universo. Caminhar entre becos vazios e observar algo que se tornarão palavras depois.
Minhas mãos tremem, o resto do corpo também, mas não me incomoda, com as mãos a tremer não posso fumar ou ler, ou escrever e pintar.
E o que seria de mim sem essas coisas? O que sou eu sem essas coisas?
O que sou eu?

Sou pedras jogadas em um copo de vinho para manter o liquido heterogêneo? Sou visões confusas na mente de homens? Sou os desenhos em minha pele pálida? Sou Dalí? Sou Nietzsche em sânscrito? Sou o Sol de Marselha? Sou olhos fundos e alaranjados? Sou memorias. Memorias de um caos tão confuso que se tornou minha nova forma de ordem.
Sou a corda bamba abaixo de meus próprios pés, sou minha mãe e sou minha assassina, meu alimento e minha fome, minha tristeza e minha felicidade. Um lençol solto na beira do mar que dança com o vento e para lua.
Sou uma ladra de livros, um carro sem motorista, a lua e as estrelas e pó de uma porção de planetas que nem sei o nome.

Eu sou algo entre uma menina e uma mulher, um deus e um bicho, a arma e o alvo, sou o outro, sou você, sou um sopro, sou nada. Sou a luz da vela única, o terço de minha avó, a ruga em minha mãe, a confusão e a certeza, o sim e não, o agora e o depois. O infinito, o eterno.

Quem sou eu? Não busco saber.

Sabiá

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