De início, o termo girlboss surgiu para representar a emancipação da mulher no mundo corporativo, uma inspiração para aquelas que comandavam suas próprias empresas ou que queriam ter controle sobre suas carreiras, contra todas as adversidades que mulheres enfrentam no mercado de trabalaho. O fenômeno surgiu em 2014 com Sophia Amoruso, então CEO da Nasty Gal, uma empresa de varejo de moda.

Mas desde 2020, o uso do termo e o que ele representa passaram a ser criticados abertamente, e motivos não faltam para isso. 

Inicialmente, vale começar dizendo que o movimento está totalmente inserido dentro de uma lógica neoliberal capitalista. Ele está diretamente associado ao hustle culture (cultura da agitação) que se traduz em trabalho constante, é uma cultura que prega a ideia de que o sucesso vem para aqueles que trabalham mais e por mais tempo. Ela cria a mentalidade de que não há tempo ou lugar de trabalho, ele é feito no escritório, em escritórios de coworking, em casa, em cafés e restaurantes, em aeroportos, em hotéis durante as férias — em qualquer lugar e a qualquer hora.

O tempo de descanso é para os fracos. Ser viciado em trabalho se torna legal. As pessoas são avaliadas a partir de quantas atividades conseguem dar conta durante o dia. E para você pertencer, sua agenda deve estar cheia e sua produtividade a mil. 

Stories do Instagram listando as tarefas do dia, vídeos no YouTube e TikTok dando dicas para melhorar a produtividade pipocam na internet. Essa mentalidade passa a ser vista como um estilo de vida pela geração jovem cursando faculdades ou iniciando sua vida adulta no mercado de trabalho. Esse estilo de vida, por sua vez, é a causa do famoso burnout, cada vez mais comum nos últimos anos. 

Girlboss é essencialmente a hustle culture reformulada com o fim de apelar para o olhar feminino. Não é sobre mudar o sistema; sobre mudar políticas que não favorecem mulheres em grandes empresas; sobre educar e mudar a cultura de preconceito que persiste contra as mulheres, seja no mercado de trabalho ou fora dele. Se trata de uma maioria — mulheres brancas, cis gênero, heterossexuais e de classe média — pregando um ideal que serve ao capitalismo e que tenta enfeitar a ideia de meritocracia e apresentá-la de uma forma que apele para as mulheres da nova geração. 

O movimento traz noções superficiais e comerciais de ideias feministas, as reduzindo e despolitizando. Ele prega a mentalidade de que mulheres devem se empoderar como indivíduos e se impor dentro do sistema, ao invés de lutar contra ele.

Kelly Caminero

A expoente do movimento nos anos 2010, Sophia Amoruso, escreveu em sua autobiografia: “2014 é uma nova era do feminismo onde não precisamos falar sobre isso? Não sei, mas quero fingir que é”. Sheryl Sandberg, COO do Facebook desde 2008 e autora do bestseller de 2013 “Lean In”, convidava suas leitoras a se questionarem “como posso fazer o sistema funcionar melhor para mim?”, ao invés de “para quem o sistema foi planejado para funcionar?”, apresentando as disparidades de gênero no mercado de trabalho como um problema a ser resolvido individualmente. 

Ora, a evidente desvantagem das mulheres no mercado de trabalho poderia ser facilmente resolvida em um nível pessoal, só depende das mulheres “levantarem a bunda da cadeira e trabalharem”, como bem aconselhou Kim Kardashian, certo? Errado. 

Segundo a pesquisa do IBGE, “Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”, lançada em 2021, a taxa de participação das mulheres em idade de trabalhar é de 54,5%, enquanto entre os homens essa taxa chegou a 73,7%, evidenciando a desigualdade expressiva existente entre os gêneros no que diz respeito à inserção no mercado de trabalho. O indicador “nível de ocupação das pessoas de 25 a 49 anos (CMIG 15)” mostra que a presença de crianças de até 3 anos de idade vivendo no domicílio é uma característica muito importante na determinação da ocupação das mulheres no mercado de trabalho.

A proporção de mulheres ocupadas que possuem crianças nesse grupo etário é de 54,6%, enquanto a proporção de mulheres ocupadas que não possuem é de 67,2%. Entre as mulheres pretas e pardas com crianças de até 3 anos de idade no domicílio estão os menores níveis de ocupação, menos de 50% em 2019, enquanto o percentual para aquelas sem a presença de crianças nesta faixa etária foi de 63%. 

O maior envolvimento das mulheres no trabalho não remunerado – o trabalho doméstico – contribui para explicar a menor participação das mulheres no mercado de trabalho. Ainda quando as mulheres possuem trabalho, o maior envolvimento em atividades de cuidados e afazeres domésticos tende a impactar na forma de inserção das mulheres no mercado de trabalho. 

Em relação ao rendimento médio, de acordo com a pesquisa, em 2019 as mulheres receberam 77,7% ou pouco mais de ¾ do rendimento dos homens. Essa diferença era maior entre pessoas inseridas em grupos ocupacionais que auferem maiores rendimentos, como Diretores e gerentes, nos quais as mulheres receberam 61,9% dos rendimentos dos homens, e profissionais das ciências e intelectuais, nos quais as mulheres receberam 63,6% do rendimento dos homens. De acordo com o informativo “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, publicado pelo IBGE em 2019, uma mulher negra recebia em média cerca de 44,4% da renda média de homens brancos, os quais se encontram no topo da escala de remuneração. 

Em relação ao tratamento desigual que as mulheres sofrem no trabalho, de acordo com a pesquisa “Percepções sobre violência e assédio contra mulheres no trabalho”, realizada pelo Instituto Patrícia Galvão em 2020, na percepção de 92% dos entrevistados, as mulheres sofrem mais situações de constrangimento e assédio no ambiente de trabalho do que os homens; 40% das mulheres entrevistadas relataram que já sofreram xingamentos ou ouviram gritos no trabalho, enquanto apenas 13% dos homens entrevistados relataram terem vivido situações parecidas; e 40% das mulheres relataram sofrer excessiva supervisão de seu trabalho, contra apenas 16% dos homens. 

O movimento não luta a favor da maior inserção das mulheres no mercado de trabalho; contra a violência e o assédio contra mulheres no trabalho; contra a diferença marcante na remuneração de homens e mulheres. As mulheres que eram a face do movimento não lutavam para desmantelar o sistema, mas para se destacar e obter sucesso dentro desse sistema. E era isso que elas pregavam, enquanto tentavam embrulhar essas ideias em um discurso “feminista” direcionado às mulheres que queriam quebrar o teto de vidro.

Apesar de ter inspirado muitas mulheres no caminho para o empreendedorismo, me parece que esse movimento retira o foco de pautas mais importantes relacionadas à igualdade da mulher no mercado de trabalho enquanto influencia jovens a acreditarem que tudo que elas precisam fazer para tomar controle de suas vidas é agir como uma “girlboss”, levantar cedo, trabalhar longas horas; essencialmente, se tornar uma workaholic. 

Sem levar em conta, no entanto, que os empecilhos que a grande maioria das mulheres sofrem dentro do mercado de trabalho derivam de sua condição como mulher, e não da falta de “força de vontade”. O movimento, portanto, se resume à uma cooptação do “empoderamento feminino” pelo capitalismo neoliberal que foi pintado de rosa para que apelasse às jovens desse mundo globalizado e as inspirasse a pararem de “reclamar” – reivindicar direitos – e a “levantarem a bunda da cadeira e trabalharem” 

Sabiá

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