O filme conta a história da princesa Giselle (Amy Adams), que é emboscada por uma rainha má no dia de seu casamento com o Príncipe Edward (James Marsden). Giselle é levada para muito longe do reino idílico de Andalasia e vai parar num mundo diferente. O nosso.

Para representar o contraste entre esses dois mundos, Kevin Lima toma uma série de decisões. A escolha mais imediatamente impactante do diretor é a de retratar os primeiros dez minutos do filme – que se passam em Andalasia – como animação.

Especificamente, ele emprega o mesmo traço das consagradas animações do final da era 2D da Disney (A Bela e A Fera, Hércules, Tarzan, A Pequena Sereia, etc.), nos anos 1990. Não é só a nostalgia que sustenta a sensação agradável de reencontrar aquele estilo nas telas, a verdade é que ele nunca deixou de ser sofisticado e acolhedor ao mesmo tempo.

Cena do filme “Encantada”

Mas Encantada não é uma animação. A virada para o mundo real de Nova Iorque traz Giselle para o live-action, onde ela encontra a forma corpórea de Amy Adams.

Uma das atrizes mais talentosas de sua geração, Adams interpreta a princesa com tanta graça e expansividade que é inevitável acreditar que ela saiu, realmente, de um conto de fadas em desenho animado.

Rompendo com o mundo dos beijos de amor verdadeiro, o filme apresenta Robert (Patrick Dempsey), um advogado com experiência de sobra na área de divórcio e planeja seu próprio casamento como se fosse uma parceria de negócios.

O roteiro imediatamente caçoa da visão de mundo monocromática de Robert da mesma forma que brinca com a ingenuidade romântica e multicolorida de Giselle, que passa uns bons minutos parecendo ser mesmo só uma louca vestida de princesa perambulando por Nova Iorque. 

O primeiro encontro entre os personagens coloca essas duas visões do mundo em conflito, fazendo humor com a situação clássica da donzela que está prestes a cair e o cavaleiro que pode segurá-la. Ao não tomar lados na disputa filosófica entre Giselle e Robert, Lima consegue explorar a sinceridade dos personagens de forma orgânica e desarmada. É nessa abertura para intersecção que os contrastes encontram sua potência em Encantada.

Os cenários e figurinos retratam os acontecimentos com uma textura realística acachapante ao longo desses primeiros contatos de Giselle com Patrick. A sujeira das ruas se impregna no vestido da protagonista e até deixa de parecer sublime como na animação. As roupas de Giselle ganham uma característica mundana que nem parecem lhe caber, como fica claro pela atuação extremamente física e gestual de Amy Adams. 

É a lógica dos contrastes se esforçando para sujar os hábitos de Giselle com a ambientação urbana, que muda o subtexto das roupas, do trabalho doméstico e das interações com os animais. Mas não para ela. Giselle tem uma dimensão incurável de pureza, por ora.

Essa aparente frieza do ambiente valoriza e potencializa a bondade comedida de Patrick. O dilema do personagem entre sua relutância natural e a necessidade crescente de ajudar Giselle. Já a filha do advogado, Morgan (Rachel Covey), serve de elo entre seu pai e a princesa, que encanta e colore a objetividade monótona da vida que Patrick impõe sobre ela — ainda que por carinho. 

Nesse sentido, a abertura infantil para a possibilidade de conciliar realidade e sonho torna-se a virtude mais sábia a ser disseminada ao longo do filme. E Morgan, a mais jovem entre os personagens, vira uma espécie de mentora para a dupla, que claramente está destinada a se apaixonar. Mas o destino está em xeque aqui.

Se o personagem de Patrick Dempsey é como um animal ferido por um abandono do passado, Morgan é quem viabiliza seu contato com um mundo genuinamente afetivo novamente. E é Giselle quem traz esse mundo de signos como “destino” e “amor verdadeiro” consigo.

Cena do filme “Encantada”

Nenhum elogio é suficiente para o trabalho de John Papsidera como diretor de elenco em Encantada. Para além das escolhas de atores para Giselle, Patrick e Morgan, as escalações de Timothy Spall como o lacaio Nathaniel e Susan Sarandon como Rainha Narissa beiram a perfeição.

Ainda que não tenha o mesmo brilhantismo de Amy Adams, James Marsden também envolve o público na persona teatral do Príncipe Edward desde o primeiro instante em que aparece em live-action na pele do herói às avessas. Talvez Edward seja o personagem que melhor explora as possibilidades cômicas de um personagem de contos de fadas no cenário de Nova Iorque.

Ao misturar animação e live-action e já começar a história com um número musical, o filme cria para si mesmo o desafio de entregar cenas musicais tão encantadoras com atores quanto o fez com a animação inicial. 

Para além do trabalho de Kevin Lima, o compositor Alan Menken, o diretor de fotografia Don Burgess e a própria Amy Adams – que protagoniza a maioria dos momentos – também foram fundamentais nessa realização do lúdico. Há uma variedade de tipos de momento que operam no filme segundo uma progressão emocional orquestrada com precisão por Lima.

O efeito contagiante da personagem de Giselle no mundo à sua volta com a honestidade incontrita de seu romantismo idealizado. Em certo ponto, pouco importa a origem controversa das noções que norteiam a visão da personagem.

Mas o roteiro ainda encontra clareza o bastante para fazer com que ambos os mundos vazem um no outro. As estruturas um tanto medievais e os campos verdejantes do Central Park, os pijamas emprestados de Robert que Giselle veste num fim de noite, as novelas da TV atuando como oráculos do confronto interno de Nathaniel com sua própria submissão à rainha. A beleza de Encantada está nos encontros, na abertura com que o filme busca o contraste.

Num minuto, o roteiro entrega o derradeiro teste do beijo de amor verdadeiro e, logo em seguida, dá à princesa o poder para brandir a espada do príncipe e salvar o advogado amado das garras do dragão. Tudo isso, é claro, no enquanto escalam o Empire State Building até o topo.

A introdução com personagens animados e criaturas fofas constrói a figura de donzela em volta de Giselle de forma tão marcante que Kevin Lima precisa usar de um artifício igualmente característico para buscar o tom épico da conclusão: a computação gráfica ao melhor estilo “filme de super-herói”. 

Esse tom consagra a personagem de Amy Adams como heroína sem, em momento algum, negar a doçura que está na essência da personagem. Pelo contrário, o momento demonstra a disposição da protagonista de ir até às últimas consequências para salvar, não somente o homem que ama, mas o próprio do amor – agora, amadurecido – que está em jogo durante todo o filme.

Em Encantada, a Disney se permite exercitar a maturidade de revisitar seu passado sem vergonha ou panos quentes. É o filme que trabalha estereótipos e os satiriza pelo seu maniqueísmo, mas que também vai além disso. 

O filme de Kevin Lima constrói em cima dos contrastes entre a simplicidade idealizada e o revisionismo de seu tempo, de forma a não abrir mão da qualidade lúdica, esperançosa e até escapista dos clássicos com que brinca. Desde então, a Disney nunca foi capaz de confeccionar uma obra em live-action que fosse tão inescapavelmente amável.

Sabiá

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