O início deste dezembro foi turbulento para nossa comarca no mundo; a América Latina, como diria Eduardo Galeano. Do choro de Bolsonaro e cortes na educação no Brasil para a condenação da vice-presidente argentina Cristina Kirchner até o golpe malsucedido e prisão de Pedro Castillo, presidente do Peru.

Cada caso demonstra uma particularidade única de crise política, sendo que o único elemento em comum é a América Latina, que não consegue dar um suspiro de esperança mesmo quando suas seleções brilham na Copa do Mundo.

Enquanto o Brasil tem um presidente apático e desaparecido, que revelou-se apenas em lagrimas numa grande demonstração de seu já conhecido cinismo, a Argentina tem sua principal liderança política condenada a uma possível inelegibilidade perpétua, Cristina que apesar de vice é a protagonista do governo de Alberto Fernandez afirma ser vítima de uma perseguição e recebe apoio de Lula recém eleito no Brasil que esteve preso recentemente.

Já a tragédia peruana ainda tem contornos incompletos, mas a tentativa de dissolução do parlamento traz novamente uma aura preocupante sobre a América Latina, de questionamentos das lideranças e dúvidas sobre as instituições e a soberania destes países.

Tudo nos é proibido, exceto cruzar os braços? A pobreza não está escrita nas estrelas, o subdesenvolvimento não é fruto de um obscuro desígnio de Deus. Correm anos de revolução, tempos de redenção

Eduardo Galeano – Veias Abertas da América Latina

Galeano, apesar do drama, promove mais esperança que as notícias dos jornais inspiram nos latinos, que veem uma esquerda que já viveu dias melhores, e países afundados em inseguranças; políticas, institucionais, alimentares e econômicas. A insegurança na verdade é uma constância na história do continente, que está atuando na sua especialidade afinal, já dizia Galeano:

Há dois lados na divisão internacional do trabalho [DIT]: um em que alguns países especializam-se em ganhar, e outro em que se especializaram em perder. Nossa comarca do mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi precoce:especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se abalançaram pelo mar e fincaram os dentes em sua garganta. Passaram os séculos, e a América Latina aperfeiçoou suas funções.

Eduardo Galeano – Veias Abertas da América Latina

E aparentemente, continua a se aperfeiçoar nas mesmas funções.

Capa Roko Kerovec

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