The Bear, da FX, mostra que, numa cozinha apertada de um restaurante estilo dinner em Chicago, não falta espaço para a paixão pela culinária, a ansiedade e a negação do luto. A progressão da série se dá como um satisfatório menu de degustação: dividida em oito episódios, os primeiros são como um prato de entrada, que nos prepara para algo maior e melhor.

Entre os episódios três, quatro e cinco, os personagens são mais explorados. Somos apresentados às suas singularidades, a quem eles são além dos aventais e “yes, chef”. Mas a cereja do bolo são os últimos três episódios, que nos prendem na frente da tela e nos fazem querer sentir mais e mais o sabor da série, que, felizmente, foi renovada para uma segunda temporada.

Com performances magistrais e edição e montagem que transmitem exatamente a sensação de tumulto e asfixia que os outros componentes da série sugerem, The Bear trata de muitas coisas.  Entretanto, entre a dura rotina num restaurante que está passando por mudanças drásticas de funcionamento até as lutas individuais dos personagens, um ponto se sobressai: a presença de Michael, que comandava o The Beef, e a reverberação de sua morte ao longo de toda a temporada.

As atitudes de Carmy (Jeremy Allen White) e Richie (Ebon Moss-Bachrach) em relação ao restaurante estão ligadas diretamente ao jeito que lidam – ou não lidam – com a morte de Michael, cada um à sua forma: enquanto Carmy busca mudar o restaurante como se pudesse, assim, mudar o destino do irmão, Richie faz o possível para preservá-lo, tentando fazer com que a essência do falecido amigo não desapareça por completo.

No fim, talvez seja por isso a resistência inicial dos dois à interferência da Sydney (Ayo Edebiri), a chef recém-contratada pelo Carmy. Aqui, mais uma vez, de maneiras diferentes: pela maior parte da série, Carmy quer ter o controle das mudanças e Richie a vê como a pessoa que chegou para acabar com as tradições que o restaurante construiu. 

Reprodução da série The Bear

Eventualmente, após o ápice dos conflitos no caótico sétimo episódio e as idas de Carmy ao Alcoólicos Anônimos ao longo da temporada, a tensão entre os personagens vem diminuindo, e tudo aponta para uma segunda temporada com um ritmo mais tranquilo entre a equipe do antigo The Beef. 

É só depois do monólogo do oitavo episódio – digno de me fazer querer usar dezenas de chapéus de uma só vez e tirar todos eles para Allen White – que entendemos melhor sua relação com Michael e a culpa que impede o irmão que ficou de se permitir sentir o luto. Em Tudo Sobre o Amor, bell hooks nos mostra parte de uma carta que escreveu e nunca enviou, na qual afirma que

“Somos muito mais capazes de abraçar a perda de pessoas íntimas que amamos ou de amigos quando sabemos que demos a eles tudo o que podíamos – quando compartilhamos com eles o reconhecimento mútuo e o pertencimento no amor que a morte jamais poderá mudar ou tirar de nós.”

Esse não foi o caso de Carmy. Quando todo o ressentimento acumulado em vida se junta à ansiedade gerada nos restaurantes por onde passou e à sensação de responsabilidade que recebeu como herança de Michael, abrir espaço para os sentimentos é a menor de suas preocupações.

Felizmente, a insistência da irmã, Natalie (Abby Elliot), em fazê-lo frequentar reuniões do Alcoólicos Anônimos faz com que ele comece a enfrentar, ainda que inconscientemente, os monstros deixados pela morte do irmão. 

Também em Tudo Sobre o Amor, algumas páginas mais cedo, Hooks fala sobre como o culto à morte em nossa sociedade e na mídia age como uma maneira de afastar o medo que temos dela e nos deixar confortáveis caso precisemos nos deparar com esse fenômeno algum dia – o que, ainda nas palavras da autora, definitivamente faremos, seja presenciando a morte de alguém que amamos ou a nossa própria.

Uma vez que a morte é representada em tantas áreas do entretenimento mainstream, a expectativa é que aprendamos como agir quando ela acontece perto de nós. Dessa forma, a alta exposição à imagem da morte faz com que, de maneira inversamente proporcional, o luto seja menos normalizado. Como hooks afirma em Tudo Sobre o Amor, uma pessoa enlutada que não “supera” e “volta ao normal” no tempo esperado não é bem aceita pelos outros; espera-se que as pessoas sofram por um tempo limitado e sigam a vida. Nessa mentalidade, se nos tornamos familiares à morte a partir do entretenimento, como continuamos a sofrer quando ela nos agracia diretamente com sua presença?

Não existe nenhum dado oficial sobre isso até o momento em que eu escrevo esse ensaio, mas a impressão que tenho como consumidora ávida de cultura pop é que as representações do pesar, não só em The Bear como na arte em geral, parecem ressoar bem mais nas pessoas de um tempo para cá. Considerando que passamos por um longo período pandêmico que até hoje nos assola, isso é completamente compreensível, mesmo em situações que não se relacionam diretamente à pandemia. A famosa frase de WandaVision sobre o luto, “o que é o luto, se não o amor que perdura?” é um grande exemplo; me pergunto se ela teria o alcance que teve independente do contexto de seu proferimento.

Em The Bear, apesar da única menção à Covid vir quando o Richie enfatiza para o Carmy como os “trabalhos paralelos” que realizava mantiveram o restaurante durante a quarentena, o ritmo da série se assemelha ao nosso próprio comportamento: lá, algo precisava ser feito para que o The Beef não parasse. Aqui, para muitas pessoas, aconteceu o mesmo. E mesmo sendo atacados pelo luto e pelo caos de todas as formas possíveis desde 2020, a necessidade e a expectativa fizeram com que seguíssemos em meio à incerteza, prontos para vestir novamente o avental azul e ouvir o próximo “two hours to open, chefs!”.

Para a artista e professora norte-americana Chrystal Seawood, criadora do projeto “In Loving Memory…”, que promove intervenções artísticas para que seus alunos lidem com a morte de colegas e entes queridos, “a arte é onde podemos recorrer quando não temos as palavras”. O fato é que a arte, em suas mais variadas expressões, é uma maneira lúdica e efetiva de enfrentar o luto, seja de forma ativa ou quando estamos no papel de espectadores. Por vezes, ver que outra pessoa, ainda que fictícia, também passa por aqueles momentos, que são tão reais, cria o ambiente de identificação necessário para que o pesar deixe de ser um forasteiro ameaçador e torne-se um sentimento a ser encarado de corpo e alma.

Quando vai além da ficção

Em Pantera Negra: Wakanda Para Sempre, vemos duas reações opostas à morte de T’Challa (Chadwick Boseman): sua mãe, a Rainha Ramonda (Angela Bassett), apesar do sofrimento da perda, encontra conforto nos rituais e crenças milenares e enfrenta de cabeça essa dor. Já Shuri (Letitia Wright), a irmã, guarda o ressentimento de não ter conseguido ajudá-lo. Isso faz com que ela passe a maior parte do filme evitando pensar em T’Challa e fazendo, dessa maneira, com que a culpa ocupasse em sua mente o espaço dos momentos bons que ela e o irmão mais velho dividiram. O luto, para ela, foi sinônimo de angústia e remorso por grande parte do filme. 

Reprodução do filme Pantera Negra: Wakanda Para Sempre

Para a Rainha Ramonda e todo o reino de Wakanda, com rituais inspirados por tradições de culturas afrodiaspóricas, como o uso de roupas brancas e a presença da dança na cerimônia que precede o enterro de T’Challa, a morte não é o fim, e o luto é encarado como uma celebração do que o falecido foi em vida. A queima das roupas usadas no velório, simbolizando o enfrentamento do pesar causado pela morte daquele ente querido, é um desses costumes, e está em duas das cenas mais sensíveis e bonitas do filme.

Wakanda Para Sempre vem dividindo a opinião do público. Entretanto, acima de todas as discussões acerca da qualidade, está um consenso: a percepção da sensibilidade com que o filme trata a morte. Diferente de outras obras da Marvel, o longa de 2022 aborda o luto profundamente, e a morte vai além do resultado de uma batalha que busca decidir qual é o lado mais poderoso.

Muito desse cuidado vem, sem dúvidas, da morte prematura de Chadwick Boseman, que faleceu em 2020, após enfrentar por quatro anos um câncer de cólon. E como lidar com a perda e o luto na ficção quando eles ultrapassam esse limite e estão presentes na vida real, entre aqueles que compõem a obra? 

“Nós estamos administrando isso, lidando com isso, crescendo a partir disso ou seguindo em frente desde o momento em que soubemos que Chadwick faleceu. Têm sido dois anos passando por quaisquer ciclos de luto que os seres humanos passam”, foi o que Angela Bassett disse em entrevista para a Variety em Novembro, dois anos após a perda do ator.

Segundo o diretor do filme, Ryan Coogler, a relação estabelecida entre o elenco, sobretudo entre Chadwick, sua mãe e irmã de cena, era, de fato, uma ligação de família. É, ainda mais que o luto – e, talvez, por andarem lado a lado –, esse amor que ultrapassa as telas quando assistimos a Wakanda Para Sempre. 

Dentro e fora do longa, a família cinematográfica de Boseman celebra quem ele foi e honra seu legado com um filme em forma de tributo para o ator.

“O amor nos convida a sofrer pelos mortos como um ritual de perda e como celebração. Conforme abrimos nosso coração e falamos sobre o luto, compartilhamos o conhecimento íntimo de nossos mortos, de quem eles eram e como viveram.

Nós honramos sua presença nomeando os legados que nos deixaram. Não precisamos conter o luto quando o usamos como meio de intensificar nosso amor pelos que estão morrendo, pelos nossos mortos ou pelos que ainda estão vivos.” 

bell hooks

Perda, memória, nós

This is Us, série norte-americana produzida pela Fox, é, para mim, um modelo de retratação da morte e do luto. Eu assisti à série inteira com meus pais. Lembro de meu pai comentando que o Jack (Milo Ventimiglia) é, de todas as séries, “o morto que mais continua aparecendo”.

E isso é verdade: apesar de se concentrar, numa alternância entre linhas temporais, nas vidas e famílias que os Pearson construíram com o passar do tempo, o foco volta diversas vezes para os ensinamentos que cada um teve com Jack Pearson, patriarca do núcleo familiar protagonista, como o modo que sua morte tocou cada um dos personagens e como eles escolheram agir em relação a ela.

Ou, quem sabe, o modo que não agiram. Com alguns spoilers caso alguém não tenha terminado a série ainda ou pretenda começar, os trigêmeos tinham 17 anos quando Jack morreu. De formas diferentes, a morte do pai continuou ressoando dentro deles e da mãe, Rebecca (Mandy Moore), até a adultez.

Kevin (Justin Hartley/Logan Shroyer), o ‘número um’, viu o pai morrer sem uma conclusão para o conflito entre os dois – ou melhor, sem saber que o pai o perdoara. Kate (Chrissy Metz/Hannah Zeile), que tinha em Jack o conforto necessário em seus momentos de insegurança, viu esse amparo se esvair da noite para o dia. Randall (Sterling K. Brown/Niles Fitch), tido como o mais maduro entre os três, carregou prontamente o peso do cuidado, direcionando sua atenção para o pesar dos outros membros da família, principalmente de Rebecca. E ela, a mãe, precisou aprender igualmente rápido a não deixar a dor da perda tomá-la por completo.

O que eles não fizeram, por muitos anos, foi falar abertamente sobre a perda tão brusca. No livro já citado, hooks diz que

 “Quando recusamos a total expressão do nosso luto, ele se mantém como um peso em nosso coração, causando dor emocional e padecimentos físicos. O luto frequentemente é mais implacável quando os indivíduos não estão reconciliados com a realidade da perda.”

O arrependimento, o peso da responsabilidade e a culpa fizeram com que o luto entre os Pearson fosse um fardo carregado silenciosamente por décadas: o que perderam não havia sido apenas Jack, mas a família como conheciam. A morte abrupta apenas aumentou a distância entre os outros membros da família, e um dos pontos mais bonitos de This is Us é, para mim, justamente o movimento de reencontro que acontece a cada episódio. Com todos os conflitos e intrigas que a série nos mostra, o aumento da abertura para resolvê-los é gradativo e perceptível. Se permitindo viver, juntos, o luto que talvez nunca desapareça, o trio encontra entre eles próprios e algumas sessões de terapia o conforto e compreensão que, por tanto tempo, lhes foi impedido pelo não-processamento da perda abordado por bell hooks.

Sentindo através da arte

Em 2007, o pai do fotógrafo André Penteado cometeu suicídio. Sua primeira reação ao receber a notícia foi começar a fotografar. De forma impulsiva, como o mesmo descreve, e inconsciente. Foi só anos depois que Penteado revisitou as fotografias – do momento em que soube, do velório, dele mesmo vestindo as roupas do pai – e transformou o conjunto num projeto e num livro, com o título O Suicídio De Meu Pai.

Em 2016, o artista retoma essa temática, dessa vez sob outra roupagem: tendo participado por um ano de um grupo de apoio para pessoas que perderam um ente por suicídio, elaborou, com participação de alguns outros membros, o projeto Não Estou Sozinho.

Páginas do livro O Suicídio De Meu Pai. Foto: André Penteado/Reprodução

Participando do LabFoto, o Laboratório de Fotografia da Universidade Federal da Bahia, tenho a chance de acessar os mais variados pontos de vista de colegas com visões e experiências além do que é imaginável para mim. Como projeto final desse semestre, três pessoas escolheram abordar sua experiência com o luto. Cada uma à sua maneira, singular como só a dor pode ser, mas todos com a potência da expressão garantida pela arte. 

Pensei bastante nisso: como, tantas vezes, conseguimos compartilhar por meio da arte, em todas as suas formas, o que não podemos falar. Uma amiga me contou certa vez que, por muito tempo, se comunicou com sua psicóloga através de fotografias que expressassem o que ela sentia, porque ainda não via na relação abertura suficiente para que o fizesse com palavras. Acredito fortemente que existe, também, muita coragem em se expressar através da sua arte.

Para outras pessoas, as palavras são o refúgio mais seguro: são muitas as músicas, poemas e textos em prosa que agem como um convergente de dores, alegrias e memórias. Eu, que não tenho talento musical nenhum, sei bem que só escutar uma música ou montar uma playlist que nos lembre alguém, utilizando a expressividade do artista a nosso favor, também é de grande utilidade (obrigada, artistas!). Sei também que isso pode acontecer de um jeito tão visceral que aquela obra se torna impossível de revisitar. Para mim, essa é a Marjorie, da Taylor Swift, que, se ouvi três vezes, foi muito.

Acho curioso como essas manifestações acontecem. Para alguém em algum lugar do mundo, ouvir repetidamente Marjorie, Eight da IU ou Gostava Tanto de Você do Tim Maia, por exemplo, pode ser uma atividade bastante útil no enfrentamento da perda. O mesmo acontece com séries e outros produtos audiovisuais. No meu caso, assistir a This is Us era quase terapêutico. Entretanto, ontem mesmo, enquanto finalizava esse texto, a série era exibida na Globo, e meu irmão não conseguiu assistir por muito tempo sem se sentir mal. E é isso que a arte faz, singular como só ela pode ser.

Sabiá

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