Na segunda-feira, 9 de janeiro de 2023, milhares de manifestantes se reuniram na Avenida Paulista para responder as ameaças do fascismo brasileiro. O ato foi organizado por movimentos sociais, torcidas organizadas e partidos de esquerda após uma invasão orquestrada por extremistas ligados ao bolsonarismo aos prédios de instituições federais na capital, Brasília, no dia 8 de janeiro.

Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro invadiram os prédios do Supremo Tribunal Federal, Congresso Nacional e Palácio do Planalto. Os extremistas depredaram o interior dos locais, destruíram e saquearam obras de arte de valor histórico e até mesmo uma das poucas réplicas da Constituição de 1988. Segundo reportagens, os insurrecionistas também roubaram documentos sigilosos de serviços de inteligência e armas não letais.

Cobrimos as manifestações da Paulista presencialmente. Foi durante uma segunda, um dia tradicionalmente desfavorável para organização de manifestações, mas juntou milhares de pessoas. O clima era de insatisfação e revolta generalizada com os ataques do dia anterior, considerados por muitos dos que entrevistamos como um dos maiores ataques à democracia brasileira na história moderna.

Ao questionar uma manifestante sobre o que ela sentiu ao assistir os eventos de domingo, que foram transmitidos ao vivo por manifestantes em lives e grupos de mensagem, uma jovem de 22 diz ter sentido principalmente raiva. Ela nos relatou ter ficado indignada, sobretudo, com o que ela descreve como a falta de reação da polícia do Distrito Federal.

“Fiquei indignada pela resposta da polícia em relação ao que ocorreu ontem porque isto é um crime contra a democracia, contra o presidente que foi eleito democraticamente e os responsáveis precisam receber uma punição devida”, desabafa a jovem.

Na passeata, a principal palavra de ordem era “sem anistia”. O termo vem sendo usado por militantes, pesquisadores e até jornalistas para pedir que o ex-presidente Jair Bolsonaro seja investigado pelos ataques à democracia que conduziu durante seu mandato, entre 2018 e 2022. Na expressão, há também uma memória histórica, ao relembrar que militares de extrema direita e torturadores nunca sofreram punição por suas participações em crimes do regime militar brasileiro.

Ao ser questionado por nós sobre a motivação da passeata, o estudante Ricardo nos explicou que a manifestação é uma demonstração de apoio ao resultado do segundo turno das eleições de outubro de 2022. Em um relato, o jovem diz que a escolha de Lula foi uma resposta do povo à altura para o fascismo ascendente no Brasil.

“Pedimos uma resposta rápida às instituições, a prisão dos fascistas, a destituição dos parlamentares que estão apoiando estas manifestações”, disse. Para concluir o relato, o estudante reafirma outra vez que a escolha popular e o resultado das urnas deve ser respeitado.

Na passeata, as múltiplas reivindicações por responsabilização não eram direcionadas apenas aos autores e financiadores dos ataques às instituições, mas também a autoridades. A percepção de muitos dos entrevistados é que uma parcela considerável dos agentes de Estado foi conivente com o atentado. Muitos dos cartazes observados pediam a responsabilização de entidades como a Polícia Rodoviária Federal (PRF), que permitiu que centenas de ônibus com milhares de extremistas chegassem à capital.

Sobre o papel das instituições, corporações e agentes públicos, Daniel Buarque, advogado criminalista, declarou que os atos de invasão do Planalto não seriam possíveis “sem a conivência expressiva das forças de segurança da região”. A área, diz o advogado, é construída de forma que facilita a repressão policial. A Praça dos Três Poderes foi descrita por alguns militantes que entrevistamos como “o sonho de toda cavalaria” da polícia. Em seguida, Buarque ressalta haver registros de cenas de agentes públicos tirando fotos e conversando normalmente com extremistas, no que chama de “vista grossa”.

Buarque também afirma que agora, o primordial, é avaliar quem financiou e estruturou os ataques – tarefa que, em sua visão, é mais complexa do que responsabilizar juridicamente os extremistas.

Mas qual deve ser a resposta, ou atuação, da esquerda no momento? As respostas são múltiplas e se divergem entre partidos e militantes. Para o advogado, a esquerda precisa pensar como responsabilizar os agentes de forças de segurança que participaram dos atos porque eles detém o poder do armamento.

“A Polícia, o Exército e outros os grupos armados coniventes aos atos de 8 de janeiro e que tem sido coniventes com a expansão do fascismo nos últimos anos precisam ser punidos. Entretanto, na hora de reprimir e punir esses indivíduos, teremos que lidar com o fato de que estes grupos estão armados e organizados. Como que você responsabiliza e pune os grupos cuja função é responsabilizar e punir?”

Daniel Buarque, advogado criminalista paulistano, indaga em relato sobre a tarefa de responsabilizar agentes públicos que participaram de ataques às instituições.

Até o momento, não se sabe o magnitude do papel de agentes de segurança no ataque às instituições. Ao mesmo tempo em que se denunciou vídeos de policiais conversando com golpistas dentro do próprio Congresso Nacional, matérias relatam imagens de policiais sendo agredidos por extremistas. Uma informação confirmada é que a PM-DF escoltou extremistas até a Praça dos Três Poderes e permitiu a entrada do grupo no Congresso durante a invasão.

Questionamentos como do advogado Daniel Buarque eram frequentes nas falas que eram feitas em megafones e carros de som durante a manifestação. Um aspecto dessa indignação se refletiu nas palavras de ordem de alguns manifestantes, que pediam a desmilitarização das forças policiais brasileiras.

Em um relato, a militante comunista Raquel Luxemburgo, de 28 anos, explicou os motivos dos coros contra a militarização policial, e conclui a entrevista afirmando que a polícia no Brasil é “contra a classe trabalhadora, por isso, a classe trabalhadora também não precisa dela”.

“Pautar o fim da polícia militar é pautar o fim desta instituição que tem um lado, um partido. É uma instituição que aborda um bolsonarista com flores e afago, mas quando vê a juventude negra da favela, mata. Quando vê um trabalhador com guarda-chuva, mata”

Raquel Luxemburgo, militante do Partido Comunista Brasileiro, opina sobre os coros pedindo a desmilitarização da Polícia Militar durante a manifestação pela democracia na Paulista.

Como uma resposta unitária contra os graves ataques à democracia brasileira, observamos também diversos setores da população reunidos em defesa das instituições. Militantes e membros dos mais diversos partidos de esquerda dividiam o espaço com membros de ocupações, cozinhas solidárias e torcidas organizadas.

Junto à eles, também observamos pais que levaram filhos e crianças para se manifestar. Sofia Angeli, filha do cartunista Angeli, ao ser entrevistada sobre porque levou seu filho e sobrinha para a passeata, respondeu à nossa repórter:

“Estou aqui em nome da democracia, em nome do que eu acho certo para o povo. Se o povo escolheu algo, a sua escolha precisa ser respeitada. Acho muito errado tudo o que está acontecendo no Distrito Federal e no Brasil inteiro. Trouxe para o ato hoje meu filho de 8 anos e minha sobrinha de 10 anos por achar muito importante fazer com que essa geração que está começando a entender agora o que é a política e o que é a sociedade compreenda, em uma situação tão agressiva quanto esta em que estamos inseridos, qual é a postura que eles precisam ter e como eles podem lutar pelos direitos deles e de todo mundo”.

Sofia Angeli, produtora, relata a nossa equipe de repórteres o motivo de levar seu filho e sobrinha para a passeata.

Além de São Paulo, cidade que apresentou o ato com maior número de manifestantes, ocorreram manifestações em defesa à democracia em diversos outros estados como Rio de Janeiro e Bahia. Na quarta-feira, 11 de janeiro, foi reportado que extremistas estariam articulando outra movimentação golpista em várias das principais capitais do país. Em resposta, autoridades enviaram forças policiais para os locais divulgados e pediram o bloqueio de 50 canais e grupos nas redes sociais onde os atos estariam sendo organizados.



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