Por Renato Cardoso Aguiar

“Agimos certo sem querer, foi o seu tempo que errou, vai ser difícil sem você, porque você está comigo o tempo todo”. Esse texto é de uma música: “Vento no Litoral” de Renato Russo. Coincidentemente, essa canção esteve presente em minha vida durante uma crise em 1991, quando uma amiga me sugeriu que a escutasse sempre que precisasse de uma força para seguir em frente. Quarenta e dois anos depois, encontrei a mesma sugestão em sites que tratam de como superar momentos ruins. 

O mais curioso é que a letra fala de uma perda irreparável, o que fazer depois que isto acontece, de como tudo ficou com o que está em volta, e como minimizar o sofrimento… Mas não cita em acabar com as lembranças, pelo contrário, ela termina descrevendo os cavalos-marinhos, que são os animais mais fiéis do mundo, que quando se apaixonam, chegam a mudar de cor e os machos são os responsáveis pela gestação da fêmea. Enfim, a composição fala de amor, perda e fidelidade, sentimentos nobres e inesquecíveis.

Ouvir cada palavra, cada refrão, me faz lembrar o quanto é difícil viver sem Maria Clara. Éramos como cavalos-marinhos… Fiéis em nosso amor. Nossa cumplicidade ao falar de sentimentos, nosso apoio quando necessário… E mesmo nas discussões, nossas desculpas, tudo ao mesmo tempo.  Assim como os cavalos-marinhos, mudávamos de cor, fisionomia e voz quando estávamos juntos, era assim que falávamos o dia inteiro. Ríamos com uma felicidade sem fim, superávamos a vontade de estar perto para ficar mais perto, para rir mais, para brincar mais… Mesmo quando tínhamos um assunto sério a ser tratado. Nosso nível de criatividade fazia as pessoas que ficavam ao nosso redor se alegrarem e rirem também. Terminávamos com a irônica expressão “Não para, isto é sério” e voltávamos a gargalhar.

Voltando à composição, uma frase cita “Dos nossos planos é que tenho mais saudade, quando olhávamos juntos na mesma direção, aonde está você agora além de aqui, dentro de mim?”. É o que me faz seguir… Pois cada recordação dos momentos que tínhamos me faz andar um pouco mais. Éramos bem parecidos no jeito de pensar, e ter a mesma crítica que ela e a sua posição, isso faz com que a memória dela se torne mais viva dentro de mim. Engraçado, que nessa hora me vejo pedindo sua opinião, e a resposta vem com aquele jeitinho dela balançar a cabeça positivamente. Eu leio as notícias do Flamengo e política, e sinto ela criticando ou fazendo “muxoxos”. 

Um ano se passou e parece tão recente, a saudade continua forte como algo que corta por dentro. Mas como diz outro refrão da melodia “Quero ser feliz ao menos, lembra que o plano era ficarmos bem?”, com certeza era o que mais queríamos um do outro, só que ficássemos bem.

Por fim, eu gosto dos dias com chuva e frio, foi em um dia como este que fui me encontrar com ela na rua em um momento triste. O vento e a água teimava em bater na gente, ríamos e estávamos mais relaxados com o que aconteceu, assim como diz a letra  “E o vento vai levando tudo embora”. 

Eu te amo para sempre, minha amiga e filha, Maria Clara.

Sabiá

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